A entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com comunicadores digitais, nesta quarta-feira (30), ganhou um tom especialmente dramático quando o assunto chegou às apostas online. Mais do que apresentar números sobre o mercado de bets, Lula passou a contar histórias de pessoas que, segundo relatos levados a ele, perderam dinheiro, patrimônio e, em alguns casos, chegaram ao limite da própria vida.
A mudança de tom é significativa. Lula vinha respondendo a uma pergunta sobre o aumento do endividamento das famílias e sobre as medidas do governo para ajudar brasileiros a sair do vermelho. Foi nesse contexto que relacionou as dívidas aos “novos hábitos de consumo” e às apostas.
“Eu venho dizendo há muito tempo para minha equipe econômica: eu acho que essa dívida tá ligada aos novos hábitos de consumo da sociedade e tá ligada à tal das bets.”
O presidente então apresentou a cifra de R$ 141 bilhões, que associou às apostas e classificou como equivalente a 1% do PIB, afirmando que o setor teria pago R$ 10 bilhões em impostos e enviado o restante para fora do país.
O número de R$ 300 bilhões, por sua vez, refere-se ao universo estimado de dívidas inadimplidas que o Desenrola Brasil 3.0 pretende alcançar parcialmente. O governo calcula até R$ 150 bilhões em dívidas que poderão ser adquiridas e renegociadas pelo programa. Portanto, o montante não corresponde exclusivamente a dívidas contraídas em bets.
Bem perto de cada um de nós
O presidente conta que, durante uma reunião no Palácio da Alvorada para discutir as bets, perguntou a dois jovens que trabalhavam no local se eles apostavam. Segundo Lula, um deles teria acumulado R$ 10 mil em dívidas. Outro teria chegado a dever R$ 4 mil e conseguido suspender sua conta.
O episódio, segundo o presidente, o levou a pedir que outras oito ou dez pessoas fossem chamadas para conversar. A reação de Lula ao recordar os relatos é explícita: “Pasmem! Pasmem! A loucura!”
Ele então enumera histórias que, segundo afirma, ouviu dessas pessoas. Uma mulher teria contado que tentou tirar a própria vida três vezes. Uma jovem que possuía um comércio estaria endividada em R$ 730 mil. Um pequeno empresário, segundo o relato apresentado pelo presidente, teria vendido a loja, o carro e até um terreno do pai e chegado a uma dívida de R$ 2,2 milhões.
Em outro caso, Lula relata que uma mulher teria contado que o filho, de 26 anos, morreu por suicídio em decorrência de problemas relacionados às apostas.
A história dos R$ 80 mil
Outro relato mencionado por Lula envolve uma mulher que, segundo ele, perdeu a irmã em 2023.
Somente depois da morte, afirma o presidente, a família teria descoberto, ao acessar o celular da mulher, que ela havia usado R$ 80 mil recebidos pela mãe em um processo judicial para fazer apostas, sem conhecimento da própria mãe. Lula relata ainda que a mulher teria cortado despesas básicas da casa para tentar administrar a situação financeira.
A narrativa é usada pelo presidente para mostrar que, em sua avaliação, o problema das apostas não termina quando o dinheiro é perdido. Ele chega às relações familiares, às despesas domésticas e às condições materiais de sobrevivência.
É nesse ponto que a entrevista deixa de tratar as bets apenas como uma questão de mercado.
“Não tem dúvida: nós vamos acabar com as bets”
Lula conta que, inicialmente, dentro do governo havia quem defendesse medidas direcionadas a determinados segmentos das apostas. “Tinha gente que achava ‘não, a gente pode acabar só com o Tigrinho’, tinha gente que falava ‘não, a gente vai tomar cuidado com o futebol’.”
A experiência relatada pelo presidente, entretanto, teria levado a outra conclusão: “Eu falei ‘não, nós vamos acabar com as bets’.”
A decisão já havia sido formalizada pelo governo cinco dias antes da entrevista. Em 25 de setembro, Lula assinou medida provisória que proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no país.
Quando o vício deixa de ser apenas financeiro
A fala de Lula converge com dados apresentados pelo Ministério da Saúde para justificar a proibição das apostas. Segundo a pasta, os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025. O governo também cita estimativa de R$ 38,8 bilhões por ano em custos sociais associados às apostas, dos quais R$ 30,6 bilhões estariam relacionados diretamente a danos à saúde.
O Ministério da Saúde afirma ainda que o transtorno do jogo está associado a ansiedade, depressão, perda de controle, alterações do sono e do humor, conflitos familiares e isolamento. Segundo a OMS, citada pelo governo, a mortalidade por suicídio é 15 vezes maior entre pessoas com transtorno do jogo.
Assim, o argumento apresentado por Lula encontra uma segunda camada: a aposta não seria apenas um gasto que compromete o orçamento, mas uma prática que pode evoluir para um transtorno com consequências familiares, psicológicas e sociais.
O futebol e a “lorota”
Lula também se detém sobre um dos principais argumentos utilizados por defensores do mercado de apostas: a dependência financeira do futebol em relação aos patrocínios das bets. O presidente reage de maneira contundente: “Ah, vai acabar com o futebol. Mentira!”
E recorre à história do esporte brasileiro para argumentar que os clubes e a seleção conquistaram títulos antes da existência do atual mercado de apostas. Ele cita as cinco Copas do Mundo conquistadas pelo Brasil e títulos mundiais de clubes como Flamengo, Internacional, Grêmio, São Paulo e Corinthians.
A intenção do argumento é mostrar que o futebol brasileiro não nasceu dependente das plataformas de apostas. Para Lula, os clubes podem encontrar outras formas de financiamento sem transformar o torcedor em apostador.
“O cara já sustenta o time”
Conforme observa Lula, o torcedor já contribui financeiramente com seu time ao comprar camisa, ingressos e produtos para a família. A pergunta do presidente é por que esse mesmo torcedor deveria ser estimulado a apostar para gerar receita para o clube.
“O cara já sustenta o time. Aí o cara acha que é normal extorquir o pobre, levar ele a um vício, a uma doença para ele poder jogar e com o jogo sustentar o time?”
O alvo não é apenas a aposta como entretenimento, mas o que ele considera uma transferência de renda de pessoas vulneráveis para empresas e setores econômicos.
Uma questão de saúde pública
O governo passou a tratar oficialmente as apostas como um problema de saúde pública. A medida provisória assinada por Lula é acompanhada de ações de saúde mental, incluindo atendimento pelo Meu SUS Digital e mecanismos de identificação de pessoas com comportamento de jogo problemático.
A política também está articulada ao Desenrola Brasil 3.0, criado para enfrentar o estoque de dívidas de pessoas físicas. O governo estima que existam cerca de R$ 300 bilhões em débitos inadimplidos dentro do universo contemplado pelo programa e pretende alcançar até R$ 150 bilhões.