Candidato do PL abandona confronto marcado para esta noite depois de decisões judiciais que alteraram a composição do programa; saída acontece horas antes da transmissão e deixa debate sem Lula e sem Flávio
Da Redação
Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, desistiu de participar do debate da TV Globo marcado para a noite desta quinta-feira, 1º de outubro. A decisão foi anunciada poucas horas antes da transmissão e ocorre em meio à sucessão de decisões judiciais que modificaram as regras e a composição do último confronto entre os candidatos antes do primeiro turno.
A justificativa apresentada por Flávio foi de que houve “interferência do Judiciário” na organização do debate. A desistência acontece depois de uma sequência de disputas envolvendo a participação de Romeu Zema, a tentativa de Renan Santos de entrar no programa e, mais recentemente, a decisão da Justiça Eleitoral que impediu a Globo de exibir o púlpito vazio reservado a Lula.
Com a saída de Flávio, o debate que havia sido planejado para colocar frente a frente quatro candidatos — Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Romeu Zema — passa por uma nova alteração poucas horas antes de ir ao ar. Lula já havia comunicado que não participaria do encontro e decidiu conceder, no mesmo horário, uma entrevista ao Flow Podcast.
A desistência de Flávio também modifica uma situação que vinha sendo preparada pela campanha. Segundo informações divulgadas ao longo do dia, o candidato vinha se preparando para explorar justamente a ausência de Lula durante o debate, inclusive fazendo referências à cadeira destinada ao presidente. A Justiça Eleitoral, entretanto, determinou que a Globo não poderia utilizar o púlpito vazio de Lula como elemento visual da transmissão.
O cenário agora é diferente: os dois principais nomes que estavam no centro da disputa sobre o debate decidiram não comparecer.
Uma sequência de decisões mudou o cenário
A crise começou antes mesmo da desistência de Flávio. A Globo havia estabelecido critérios para definir quais candidatos teriam participação assegurada. Pela legislação eleitoral, partidos ou federações que possuem pelo menos cinco parlamentares no Congresso têm direito à presença nos debates das emissoras.
A emissora também havia previsto uma possibilidade adicional: diante da ausência de algum participante, poderia convidar outro candidato de acordo com critérios definidos previamente. Renan Santos, do Missão, sustentava que preenchia essas condições e que sua posição nas pesquisas deveria garantir sua entrada no programa.
A questão chegou ao Tribunal Superior Eleitoral.
O presidente do TSE, ministro Kássio Nunes Marques, negou o pedido de Renan para obrigar a Globo a incluí-lo. Segundo a decisão, embora o candidato atendesse ao parâmetro previsto pela emissora para um eventual convite, a regra estabelecia que a participação não seria automática. O convite permanecia como faculdade da Globo.
A disputa chegou então ao Supremo Tribunal Federal. Cármen Lúcia rejeitou a ação apresentada pelo Missão, considerando inadequado o instrumento utilizado para levar aquela questão ao STF e apontando que a controvérsia específica sobre o debate eleitoral deveria ser tratada pela Justiça Eleitoral.
Enquanto isso, Romeu Zema conseguiu uma decisão favorável no TSE. Nunes Marques considerou a bancada atual do Novo na Câmara para efeito do critério de representação parlamentar, permitindo sua participação no debate.
A diferença entre os dois casos é relevante. Zema reivindicou presença com base no critério legal de representação parlamentar. Renan buscava uma inclusão decorrente da regra adicional estabelecida pela própria Globo.
Foi nesse ambiente que surgiu uma nova possibilidade de intervenção judicial.
Renan, Gilmar Mendes e a nova disputa
No fim da tarde, o Metrópoles informou que havia tendência de Gilmar Mendes acolher o pedido de Renan Santos para participar do debate. A informação se baseava em precedentes do ministro e numa interpretação segundo a qual a exclusão do candidato poderia entrar em conflito com princípios relacionados ao pluralismo político.
Até aquele momento, porém, não havia decisão publicada de Gilmar determinando a entrada de Renan.
A própria campanha de Renan já havia desistido de apresentar um novo recurso ao STF depois da decisão de Cármen Lúcia, diante da avaliação de que não haveria tempo para que uma nova ação fosse julgada antes do debate. A campanha cogitava, em caso de manutenção da exclusão, realizar um protesto diante da sede da Globo durante a transmissão.
A possibilidade de uma decisão favorável de Gilmar, portanto, acrescentou mais uma variável à composição do programa.
Foi nesse contexto de incerteza que Flávio Bolsonaro anunciou sua desistência.
Debate fica sem Lula e Flávio
A saída de Flávio altera profundamente o formato originalmente previsto para o último debate presidencial antes da votação.
Lula havia sido convidado, mas decidiu não participar. A justificativa política da campanha foi acompanhada pela decisão de colocar o presidente em uma entrevista no Flow Podcast, com início previsto para 20h45, enquanto o debate da Globo estava programado para 21h30.
Flávio, por sua vez, era até então um dos quatro participantes confirmados ao lado de Caiado, Cury e Zema.
Sua desistência significa que a emissora precisará novamente reorganizar o programa poucas horas antes da transmissão.
A situação também elimina a possibilidade de um confronto direto entre Lula e Flávio no principal debate televisivo da reta final do primeiro turno. Essa possibilidade já havia sido afetada pela ausência do presidente e agora desaparece definitivamente com a decisão do candidato do PL.
Não cabe, contudo, afirmar qual será o efeito eleitoral da desistência. O impacto sobre o comportamento dos eleitores dependerá da repercussão da decisão, da cobertura do episódio e da avaliação que cada eleitor fizer da ausência.
O dado objetivo é que o debate perdeu os dois candidatos que aparecem nas primeiras posições dos levantamentos eleitorais recentes.
A cadeira vazia que virou questão judicial
A decisão sobre o púlpito de Lula tornou-se um dos elementos mais simbólicos da disputa.
A Globo havia estabelecido que o espaço destinado ao presidente permaneceria no cenário mesmo diante de sua ausência. Os demais candidatos poderiam dirigir perguntas a Lula e, durante o tempo reservado à resposta, o púlpito vazio poderia aparecer na transmissão.
O PT questionou a regra no TSE.
A Justiça Eleitoral determinou que a emissora não exibisse o espaço vazio de Lula. A controvérsia, portanto, deixou de ser apenas sobre a ausência de um candidato e passou a envolver a maneira como a televisão poderia representar essa ausência.
O episódio ganhou importância porque Flávio vinha sendo preparado justamente para explorar politicamente a decisão de Lula de não comparecer. Segundo informações divulgadas durante o dia, a campanha trabalhava com a possibilidade de o candidato se dirigir simbolicamente à cadeira vazia e transformar a ausência do presidente em um dos elementos de sua participação.
Com a desistência de Flávio, essa estratégia também deixa de ser utilizada no palco da Globo.
A judicialização chegou à última noite de debate
A sucessão de decisões produziu uma situação incomum para a reta final de uma eleição presidencial.
A Justiça Eleitoral decidiu sobre a participação de Zema. Renan Santos recorreu ao TSE e depois ao STF. Cármen Lúcia rejeitou a ação. Surgiu uma possível nova intervenção de Gilmar Mendes. O TSE também determinou mudanças na forma como a ausência de Lula poderia aparecer na transmissão.
Agora, a própria decisão de Flávio acrescenta uma nova camada ao episódio.
O candidato atribui sua saída à interferência judicial. Essa é a justificativa apresentada por sua campanha e deve ser distinguida dos fatos objetivos que antecederam a decisão: houve, de fato, uma sequência de decisões judiciais relacionadas ao debate, mas cada uma tratou de questões específicas e diferentes.
A decisão de Nunes Marques sobre Zema, por exemplo, tratou do critério de representação parlamentar. As decisões envolvendo Renan trataram do direito ou não de a Globo ser obrigada a convidá-lo. A decisão sobre o púlpito de Lula tratou da forma de transmissão de sua ausência.
A partir dessas decisões, Flávio tomou sua própria decisão de não comparecer.
Globo mantém o debate
Apesar das mudanças, a Globo mantém o debate desta quinta-feira.
A emissora já havia decidido realizar o programa mesmo diante da ausência de Lula. A desistência de Flávio acrescenta agora uma segunda ausência de grande repercussão ao encontro.
O debate deveria ser o último grande confronto televisionado antes do primeiro turno e funcionaria como uma das últimas oportunidades para que os candidatos apresentassem suas posições diretamente aos eleitores.
Com Lula fora, a discussão seria concentrada nos demais concorrentes. Com Flávio também ausente, o programa terá uma configuração ainda mais diferente daquela inicialmente imaginada.
Até o momento das informações mais recentes, estavam previstos Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Romeu Zema. A situação de Renan permanecia submetida às decisões judiciais e à posição da emissora.
A saída de Flávio ocorre, portanto, no momento mais delicado possível para a organização do programa: poucas horas antes da entrada no ar e depois de uma campanha marcada por sucessivas disputas sobre regras, convites e decisões judiciais.
O que seria o último grande encontro dos candidatos antes da votação termina se transformando também em um retrato da intensa judicialização da campanha de 2026.
Lula decidiu não comparecer.
A Justiça determinou que seu púlpito vazio não fosse exibido.
Renan Santos tentou entrar no debate e teve seus pedidos rejeitados, embora uma nova possibilidade jurídica tenha surgido no fim da tarde.
E Flávio Bolsonaro, que até então estava confirmado, decidiu abandonar o confronto e atribuiu a decisão à interferência do Judiciário.
O debate da Globo, marcado para esta noite, chega ao ar sem os dois candidatos que estavam no centro da disputa presidencial e depois de uma sucessão de decisões que alteraram, até a última hora, quem poderia estar diante das câmeras.