A Representação e os Representados: Quem São os Eleitores?, por Nagib Zaatar Makhlouf

A Representação e os Representados: Quem São os Eleitores?

por Nagib Zaatar Makhlouf

Uma reflexão sobre as diferentes burguesias, os eleitores e a representatividade dos candidatos nas eleições de 04 de outubro de 2026

No dia 4 de outubro de 2026, os brasileiros irão às urnas para escolher seus representantes. Mas, além de perguntar quem são os candidatos, existe outra questão que merece reflexão: quem são os eleitores que estarão escolhendo esses candidatos e que interesses valores e expectativas estão por trás dessas escolhas?

Minha reflexão parte de uma classificação pessoal — não de uma definição sociológica formal — sobre diferentes segmentos que podem ser observados na sociedade brasileira.

A burguesia culta e clássica

Existe uma parcela da sociedade que poderíamos chamar de burguesia culta e clássica. Seu diferencial não está necessariamente na riqueza material, mas no capital cultural, na educação humanista, nas Humanidades, na história, na filosofia, nas artes, na leitura e na capacidade de compreender as instituições.

É uma concepção de elite na qual patrimônio e conhecimento deveriam estar acompanhados de responsabilidade social.

A verdadeira distinção, nesse sentido, não estaria apenas no patrimônio que alguém possui, mas na capacidade de compreender que posição social, conhecimento e influência também trazem responsabilidades.

A burguesia folclórica

Existe também aquilo que denomino, de forma provocativa, “burguesia folclórica”: setores da classe média ou média-alta que procuram se apresentar como elite.

São pessoas que podem possuir bons salários, profissões qualificadas, pequenos ou médios negócios, carros sofisticados e hábitos de consumo elevados.

Entretanto, existe uma diferença entre ter um padrão de vida confortável e possuir poder econômico estrutural.

O executivo depende do emprego. O profissional liberal depende dos clientes. O pequeno empresário depende do faturamento. O trabalhador qualificado continua dependendo de sua atividade profissional.

É, portanto, uma espécie de elite de aparência, na qual o consumo pode produzir uma imagem de pertencimento à classe dominante sem que exista, necessariamente, poder político ou econômico correspondente.

A burguesia cabocla

Outra categoria é a “burguesia cabocla”, entendida aqui como parcela da elite econômica nacional que possui efetivamente patrimônio e controle empresarial, mas que pode estabelecer relações de dependência ou acomodação diante de estruturas políticas e econômicas maiores.

Nesse contexto, surge uma questão importante: o poder econômico está sendo utilizado para construir interesses coletivos ou apenas para preservar interesses particulares?

A burguesia oligárquica

Há também a burguesia oligárquica, na qual família, sobrenome, patrimônio e relações históricas podem contribuir para a continuidade do poder.

Nesse universo, não se herda apenas dinheiro. Podem ser herdados relações, influência, prestígio, acesso e redes políticas.

A pergunta deixa de ser apenas “quem possui riqueza?” e passa a ser:

Quem herdou também as condições de acesso ao poder?

A “burguesia nobre”

Por fim, existe aquilo que denomino “burguesia nobre”, relacionada à peculiar relação brasileira com títulos, tradição e prestígio social.

A expressão que proponho — “um príncipe ser serviçal de um pária” — funciona como metáfora para questionar o valor efetivo de títulos e distinções quando o poder real está concentrado em outras mãos.

É uma reflexão sobre a diferença entre aparência de poder e poder efetivo.

E quem são os eleitores?

No dia 4 de outubro, entretanto, não serão essas categorias que votarão coletivamente.

Serão milhões de cidadãos.

O trabalhador assalariado vota. O pequeno empresário vota. O grande empresário vota. O profissional liberal vota. O servidor público vota. O aposentado vota. O jovem vota. O agricultor vota. O intelectual vota. O desempregado vota.

Todos possuem o mesmo instrumento democrático: o voto.

E é justamente aí que surge o grande paradoxo da representação.

Um eleitor pode imaginar que determinado candidato representa sua classe, seus valores ou seus interesses. Mas será que representa?

É preciso observar a origem do candidato, sua trajetória, suas posições, seus compromissos, os grupos que o apóiam e a coerência entre seu discurso e sua história.

Não basta observar propaganda, aparência, sobrenome ou discurso.

É necessário observar a trajetória.

Representação não é aparência

Talvez uma das maiores dificuldades da democracia contemporânea seja distinguir aparência de representação verdadeira.

Um carro pode transmitir riqueza. Uma roupa pode transmitir sofisticação. Um sobrenome pode transmitir autoridade. Um discurso pode transmitir cultura.

Mas aparência não é necessariamente substância.

Da mesma forma, a verdadeira elite de uma sociedade talvez não seja simplesmente aquela que possui mais dinheiro, mas aquela que compreende que conhecimento, patrimônio, influência e poder também representam responsabilidades.

Conclusão

Minha classificação entre burguesia culta e clássica, burguesia folclórica, burguesia cabocla, burguesia oligárquica e burguesia nobre é, acima de tudo, uma provocação e uma reflexão pessoal sobre o Brasil.

O grande desafio das eleições talvez não seja apenas descobrir quem são os candidatos, mas compreender quem eles representam e que tipo de sociedade suas trajetórias revelam.

No dia 4 de outubro, cada cidadão fará sua própria escolha.

A democracia não escolhe por nós.

Nós escolhemos.

E talvez o verdadeiro desafio seja compreender que, ao escolher nossos representantes, também estamos escolhendo — ainda que indiretamente — o tipo de representação que desejamos para o Brasil, porque os representantes são, em alguma medida, um reflexo da sociedade que os elege.

É também uma oportunidade de perguntar, como sociedade: Quem somos nós quando escolhemos aqueles que falarão e decidirão em nosso nome?

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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