Duas forças de longo prazo estão transformando o sistema financeiro global em direções opostas: de um lado, tecnologias como inteligência artificial (IA), blockchain e tokenização prometem reduzir custos, acelerar transações e integrar mercados. De outro, governos recorrem cada vez mais a instrumentos financeiros como parte de suas estratégias econômicas e geopolíticas, ampliando a fragmentação do sistema.
Em artigo publicado pelo Project Syndicate, o economista Mohamed El-Erian afirma que a combinação dessas tendências exigirá mudanças importantes de instituições financeiras e reguladores. O resultado ainda é incerto, mas a aparente contradição entre maior eficiência tecnológica e maior restrição à circulação internacional de capitais deverá marcar os próximos anos.
No campo tecnológico, o autor destaca o potencial da IA, das blockchains e da tokenização para tornar as transações financeiras mais rápidas e baratas. A redução de custos operacionais e dos riscos de contraparte poderia, segundo ele, aumentar a eficiência de todo o sistema econômico.
El-Erian prevê uma arquitetura de pagamentos mais ágil nos próximos cinco anos, com sistemas tradicionais sendo gradualmente substituídos por tecnologias e produtos mais eficientes. Nesse cenário, moedas digitais de bancos centrais e stablecoins poderiam ganhar espaço, respectivamente, nos setores público e privado.
A transformação também atingiria os investimentos. Ferramentas de IA já são utilizadas para análise de crédito e seleção de ativos e, segundo o economista, poderão ampliar sua participação na alocação de recursos e na gestão de riscos.
Mas a digitalização também cria vulnerabilidades. El-Erian chama atenção para riscos de ataques cibernéticos e de fragilidades operacionais sistêmicas, especialmente caso empresas e reguladores não adaptem seus processos, conhecimentos técnicos e estruturas de governança à expansão de sistemas baseados em IA.
Estados ampliam intervenção sobre fluxos financeiros
Na direção contrária à integração tecnológica, El-Erian identifica o avanço da chamada geoeconomia, na qual interesses políticos, segurança nacional e rivalidades entre países passam a influenciar cada vez mais decisões financeiras.
Sanções, restrições a investimentos, políticas industriais e intervenções nos preços de mercado são apontadas pelo economista como instrumentos que podem contribuir para fragmentar a ordem econômica multilateral.
Nesse ambiente, fluxos de capitais e preços de ativos deixariam de responder predominantemente aos retornos ajustados ao risco e passariam a incorporar fatores como subsídios governamentais, restrições de capital, pressão política e investimentos direcionados estrategicamente.
A dinâmica da dívida soberana também aparece como fonte de incerteza. Segundo El-Erian, o elevado endividamento público e o aumento da emissão de títulos por grandes economias podem pressionar a capacidade de absorção dos mercados, ampliar a volatilidade dos juros e aumentar as tensões em torno da independência dos bancos centrais.
O paradoxo central é que as finanças podem se tornar simultaneamente mais rápidas e menos integradas – nesse cenário, o economista avalia que investidores e reguladores precisarão se preparar para maior volatilidade, diferenças mais acentuadas entre mercados e incertezas estruturais mais profundas.
Para El-Erian, a questão central para os próximos cinco anos será administrar um sistema no qual forças de aumento da eficiência convivem com fragmentação e intervenção governamental. O ponto de chegada dessa transformação ainda não está definido.