O economista que explicava o juro com tomates. Por Caco de Paula

O jornalista Cesar Locatelli, morto em 2024. Reprodução

Coletânea póstuma de César Locatelli reúne quase nove anos de artigos contra o consenso da austeridade. O livro mostra um veterano do mercado financeiro que escrevia para quem nunca abriu o caderno de economia

Por Caco de Paula

Em agosto de 2015, César Locatelli tinha acabado de comprar seu primeiro iPhone, usado e de modelo antigo, quando ouviu Pepe Mujica dizer a milhares de estudantes no Rio que consumo e felicidade são coisas distintas. Saiu de lá para escrever que o ex-presidente uruguaio lhe havia socado o estômago. O texto, um inventário doméstico que vai do tênis Nike ao desgosto pelo macarrão nacional e desemboca em Celso Furtado, é o segundo de Desigualdade S.A. e o Poder Político do Capital, e-book que a Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED) lança no sábado, 17 de outubro de 2026, às 10h, na FESPSP, na rua General Jardim, 522, Vila Buarque, em São Paulo.

Locatelli morreu em maio de 2024. Mineiro de Passa Quatro, nascido em 1953, chegou a São Paulo vinte anos depois para estudar engenharia na Politécnica da USP, fez carreira em bancos nacionais e estrangeiros e só em 2000 entrou na faculdade de economia da PUC-SP. Em 2015, na crise política que culminaria no golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, juntou-se aos Jornalistas Livres e passou a se apresentar como jornalista independente.

A coletânea guarda mais de noventa artigos, escritos entre agosto de 2015 e abril de 2024, e dois ensaios. Saíram em veículos como Jornalistas Livres, Fórum 21, Jornal GGN, Carta Maior, Brasil 247, A Terra é Redonda e CartaCapital. A edição é da regional paulista da ABED, entidade que Locatelli ajudou a criar e cujo núcleo de São Paulo coordenou a partir de 2021. Organizaram o volume Cláudia Cristina Trigo de Aguiar e Celso Veras Baptista, que também respondeu pela pesquisa e dividiu a montagem e a revisão com Pedro Aguiar Locatelli de Almeida. A apresentação chama o autor de “tradutor de línguas e de mundos”, e os textos sustentam o título.

Tomate sendo vendido em uma feira livre. Reprodução

O método aparece inteiro num artigo de janeiro de 2016 sobre a auditoria da dívida pública. Para explicar por que é quase impossível julgar, vinte anos depois, se o Tesouro vendeu um título a preço justo, Locatelli leva o leitor à feira da rua Mourato Coelho, em Pinheiros, onde o quilo do tomate custava de R$ 8 a R$ 14 num sábado às onze da manhã. Defensor antigo da auditoria, ele apoia ali o veto da presidenta, por entender que naquele Congresso a medida serviria de palanque a quem trabalhava para depô-la. “Fosse Dilma, eu também a vetaria. Com tristeza.”

Em outro texto, a recessão de 2015 é contada por três personagens, Olegária, a empresária, Adenor, o trabalhador, e Glenda, da Fazenda. O alvo quase nunca muda. Locatelli volta sempre à conta de juros da dívida pública, que a seu ver o debate sobre austeridade trata como se não existisse. Em abril de 2016, pôs lado a lado os R$ 42 bilhões que o governo gastava por mês com juros e os R$ 2,2 bilhões mensais do Bolsa Família, pagos a 13,8 milhões de famílias, e perguntou qual dos dois poderia quebrar o país. Quem tinha trabalhado em banco sabia onde procurar o número.

Lidos em sequência, os artigos registram a discussão econômica brasileira na ordem em que ela aconteceu, do ajuste de 2015 ao regime jurídico do Banco Central. O artigo que dá nome ao livro, publicado no Fórum 21 em janeiro de 2024, leva a mesma conta para fora do país. Locatelli lê o relatório da Oxfam sobre as 96 maiores empresas do mundo, que lucraram US$ 1,1 trilhão em doze meses e entregaram US$ 913 bilhões em recompras de ações e dividendos. Os 82,5% que deixaram de ser reinvestidos, escreve, “viraram dinheiro nas contas dos acionistas”. Dali ele volta ao Brasil, onde quase 70% da renda do 0,1% mais rico é isenta de imposto e a despesa com juros chegou a R$ 713 bilhões nos doze meses encerrados em novembro de 2023. Poder econômico concentrado, argumenta, converte-se em poder político para barrar qualquer avanço na justiça tributária.

O último texto do volume, um ensaio sobre a acumulação primitiva em Marx, traz a data de 23 de maio de 2024, quando o autor já havia morrido. Locatelli o enviara semanas antes ao economista Fernando Nogueira da Costa, que o publicou em homenagem ao amigo. Tinha passado dos 70 anos e era doutorando na Universidade Federal do ABC. Entre o primeiro artigo, que parte dos cartazes de uma manifestação de agosto de 2015, e esse ensaio passaram-se menos de nove anos. Locatelli os gastou explicando juros a quem os paga.

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