Há décadas, a América Latina não reunia tantos governos de extrema direita. O paralelo histórico mais próximo é a onda de ditaduras militares que, com apoio dos Estados Unidos, reprimiu trabalhadores e movimentos populares na segunda metade do século passado e pôs as economias a serviço do grande capital.
Hoje, por meio de governos eleitos, essa aliança volta a avançar. Com diferenças entre si, esses governos cortam direitos, intensificam a repressão e subordinam recursos e políticas econômicas aos interesses de Washington e das elites locais.
Uma sequência recente de vitórias eleitorais colocou a extrema direita no governo de Argentina, Chile, Peru, Equador, Colômbia e El Salvador. Na Bolívia e no Paraguai, presidentes de direita também conduzem políticas autoritárias e austericidas e estreitam relações com os Estados Unidos.
O mapa não é homogêneo e alguns países ainda resistem. Tais como Brasil, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e o Uruguai, Yamandú Orsi. A Venezuela segue com um governo de esquerda, mas capitulada após o sequestro do presidente Nicolás Maduro.
Entre os governos de direita e extrema direita há um traço comum: a redução de direitos, investimento e serviços públicos caminha com o fortalecimento das forças de segurança e com novas concessões ao capital.
Na Argentina, Javier Milei foi eleito em 2023 prometendo reencarnar a própria Margaret Thatcher e fez da motosserra um símbolo da austeridade fiscal. Seu programa combina cortes nos subsídios ao transporte, à energia e ao gás, arrocho salarial, restrições às aposentadorias, redução de programas sociais e abertura às importações.
O ajuste comprime a renda e o consumo dos trabalhadores para produzir superávit, enquanto preserva espaço para o capital financeiro e para os setores exportadores de petróleo, gás, mineração e agronegócio.

A consequência se reflete nos números do emprego, na produção e nas condições de vida. A pobreza subiu de 28,2% para 32,3% no primeiro semestre de 2026, e 335 mil postos formais desapareceram em dois anos e meio. No mesmo período, 28 mil empresas fecharam.
A indústria e o mercado interno encolhem, enquanto a concessão de novas aposentadorias caiu 53% e o valor dos benefícios recuou 21%.
A desindustrialização caminha junto com a abertura dos recursos do país ao capital estrangeiro.
Em uma das jogadas mais subservientes ao capital internacional, Milei revogou a Lei de Terras Rurais, que limitava a participação estrangeira nas propriedades rurais, e firmou com Washington um acordo de até US$7 bilhões para projetos de mineração, energia e infraestrutura.
O plano inclui levar minerais do noroeste argentino, na fronteira com Bolívia e Chile, e petróleo e gás de Vaca Muerta aos portos do Atlântico, com equipamentos e empresas dos Estados Unidos. Flávio Bolsonaro apresenta a política de Milei como modelo para o Brasil e promete um corte de R$250 bilhões nos gastos públicos.
No Chile, José Antonio Kast, que reivindica a ditadura de Pinochet, prometeu cortar cerca de US$6 bilhões dos gastos públicos em 18 meses. O plano prevê uma redução de quase 3% nos orçamentos dos ministérios.
O governo corta recursos públicos enquanto amplia vantagens para o setor privado. A reforma econômica aprovada pelo Congresso reduz gradualmente o imposto das empresas, de 27% para 23%, e restringe a expansão da gratuidade no ensino superior.
Estudantes, professores e trabalhadores foram às ruas de Santiago contra os cortes na educação. Em junho, a polícia usou jatos d’água e gás lacrimogêneo para dispersar uma marcha; em outubro, milhares voltaram a protestar, e os Carabineros interromperam o trajeto antes do fim do percurso acordado com as autoridades.

A repressão das forças de segurança tanto no Chile quanto na Argentina, onde aposentados e pensionistas foram brutalmente violentados, corre em paralelo com a imposição do ajuste fiscal que impacta quem depende dos serviços públicos.
No Chile, o alcance dos cortes no orçamento impactou na prevenção de desastres ambientais.
Depois de uma tempestade que deixou milhares de casas sem energia e suspendeu aulas em Santiago, autoridades criticaram a falta de recursos e a resposta limitada do Senapred, órgão responsável pela gestão de emergências. O orçamento da entidade já foi reduzido neste ano, e há previsão de novo corte em 2027.
A chamada megarreforma ainda oferece estabilidade tributária de longo prazo a grandes projetos da grande burguesia nacional e facilita a atuação de investidores internacionais. Assim como na Argentina, a promessa de reativar a economia pela via do mercado combina desmonte de proteções públicas com benefícios ao capital.
Ajuste e repressão abrem caminho para presença militar dos EUA
Na Bolívia, o presidente Rodrigo Paz também colocou em marcha o plano neoliberal. Ele chegou ao poder com a imagem de político da direita moderada, mas logo que assumiu em 2025 encerrou os subsídios ao diesel, encarecendo o transporte e colocou as forças de segurança para reprimir manifestações.
A retirada dos subsídios agravou a pressão sobre os preços e alimentou uma revolta que já vinha se formando em torno da inflação, da falta de combustível e da perda de renda.
A adesão a essa política macroeconômica abriu ao governo boliviano acesso a um crédito de US$1,9 bilhão do Fundo Monetário Internacional (FMI). O acordo firmado com o organismo tem como meta reduzir o déficit fiscal de 9,1% do PIB para 3,8% até 2028.
Para isso, o banco exige a eliminação dos subsídios restantes, a liberalização dos preços e o congelamento dos salários em setores-chave da administração pública.
Segundo dados da Defensoria do Povo, desde que Paz assumiu a cenoura subiu 219%, o açúcar 150% e o tomate 95,7%. Uma pesquisa apontou que 86% dos bolivianos passaram a restringir a alimentação.
A retirada dos subsídios foi o estopim de uma onda de protestos que reuniu trabalhadores, camponeses, indígenas e transportadores. Durante semanas, sindicatos convocaram uma greve por tempo indeterminado e manifestantes bloquearam cerca de 90 trechos de rodovias, isolando La Paz e El Alto e interrompendo a chegada de alimentos e combustíveis.
Arde Bolivia: protestas y bloqueos contra el modelo económico, el alza en los precios y el deterioro en la condición de vida. Se dan en La Paz, Oruro y Cochabamba. El gobierno de Paz Pereira reprime. En La Paz, mercados vacíos (faltante de pollo y huevo) y filas por combustible. https://t.co/4PeqLZCQM5
— Juan Manuel Karg (@jmkarg) May 18, 2026
Em Cochabamba, confrontos com a polícia envolveram pedras e dinamite; os agentes responderam com gás lacrimogêneo e prisões. As mobilizações também cobraram a renúncia de Paz.
A resposta do governo foi endurecer ainda mais a repressão à população. Em maio, Paz promulgou uma lei que removeu limites à intervenção das Forças Armadas em conflitos internos.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos registrou ao menos sete mortos e 321 pessoas detidas até o fim de maio; ao término das mobilizações, o balanço de mortos chegou a 14.
Paz e integrantes do governo também passaram a associar os protestos ao narcotráfico, sem apresentar publicamente provas que sustentassem a acusação.
A imagem de moderação de Paz também foi abalada pelo caso de Fernando Cerimedo.
Estrategista da extrema direita latino-americana, próximo de Eduardo Bolsonaro e ligado às campanhas de Javier Milei e do próprio Paz, o argentino foi preso na Bolívia sob suspeita de envolvimento na tentativa de assassinato da advogada Nadia Beller, sua ex-companheira. Beller sobreviveu.
O procurador-geral Roger Mariaca, que chefiava o Ministério Público boliviano e conduzia a investigação contra Cerimedo, foi preso em outubro numa operação com participação de agências dos Estados Unidos, admitida pelo ministro do Governo, Marco Antonio Oviedo.
Dois dias antes da prisão de Mariaca, Washington havia cancelado o visto do procurador e o acusara de proteger narcotraficantes. Ele negou as acusações e denunciou ingerência externa.
O secretário de Estado Marco Rubio, por sua vez, elogiou a operação e declarou apoio à Paz. A sequência — pressão pública dos Estados Unidos, cooperação de suas agências na ação e prisão do responsável por investigar um operador da direita regional — mostra até onde avançou a subordinação da política de segurança boliviana a Washington.
A subserviência da extrema direita latina aos EUA
No Paraguai, o presidente Santiago Peña, até então também considerado um político da direita moderada, autorizou a entrada de militares, funcionários civis e contratados do Departamento de Defesa dos Estados Unidos ao assinar o acordo SOFA, em vigor desde março.
O tratado permite treinamentos, exercícios e outras atividades acertadas entre os dois governos.
De forma inédita na história recente da América Latina, o acordo submete o pessoal norte-americano em território paraguaio à jurisdição penal dos Estados Unidos e lhe concede imunidades equivalentes às diplomáticas.
Equipamentos podem entrar no Paraguai sem inspeção aduaneira ou pagamento de impostos. Aeronaves, navios e veículos militares também podem circular pelo país, e as forças dos EUA podem operar seus próprios sistemas de telecomunicações.
O Paraguai é um dos poucos países que mantêm relações diplomáticas com Taiwan, em afronta à política de Uma Só China e à soberania da República Popular da China. No tabuleiro montado por Trump e Rubio, o país é um adversário histórico da potência asiática na região

A promiscuidade e a vassalagem de Peña também são vistas no Equador, com o presidente Daniel Noboa. Membro da elite financeira do país, Noboa também chegou ao poder apresentado como representante de uma direita moderada. Desde 2024, porém, seu governo recorre repetidamente a estados de exceção.
A Human Rights Watch contabilizou 28 decretos que declararam, renovaram ou alteraram essas medidas entre janeiro de 2024 e junho de 2026, afrouxando limites à atuação das forças de segurança. HRW
Em março, forças equatorianas e norte-americanas realizaram operações conjuntas em San Martín, na província amazônica de Sucumbíos, na fronteira com a Colômbia. O governo afirmou que a ação mirava instalações do grupo armado Comandos de la Frontera.
A Human Rights Watch documentou a detenção arbitrária e a tortura de quatro trabalhadores rurais, além de três propriedades incendiadas e duas atingidas por bombas lançadas do ar. A organização disse não ter encontrado provas críveis de que os imóveis tivessem ligação com grupos armados.
Disputa por minerais põe o Brasil no plano de Trump
A ofensiva imperialista dos Estados Unidos na América Latina tem uma base material: o acesso do grande capital às riquezas naturais da região e a tentativa de conter a presença econômica da China.
Pequim ganhou espaço nas últimas décadas como parceira comercial de vários países latino-americanos, ampliando mercados, investimentos e alternativas à dependência histórica de Washington.
Mas desde o retorno do líder da extrema direita mundial e de seus pupilos, as negociações deram lugar a subserviência econômica.
E o Brasil é peça fundamental deste tabuleiro.
O país tem reservas estimadas em 21 milhões de toneladas de terras raras, a segunda maior quantidade do mundo, atrás apenas da China. Argentina, Bolívia e Chile concentram mais da metade dos recursos globais de lítio.
A região, porém, ainda exporta boa parte de seus minerais sem processá-los. Em 2025, refinou cerca de um quinto dos principais minerais energéticos que extraiu, sem contar o lítio.
As restrições chinesas às exportações de terras raras, adotadas em resposta à guerra tarifária de Trump, aceleraram a reação de Washington. Em janeiro, a Casa Branca determinou que o governo negociasse acordos para garantir o fornecimento de minerais críticos.

No mês seguinte, o Departamento de Estado reuniu representantes de dezenas de países, entre eles Argentina, Bolívia, Equador, Paraguai e Peru, para discutir investimentos e novas cadeias de abastecimento.
Em setembro, Trump usou a operação que sequestrou Nicolás Maduro e o acordo petrolífero com a Venezuela para reafirmar que os Estados Unidos pretendem controlar o que consideram seus interesses no Hemisfério Ocidental.
“Aos vencedores cabem os despojos”, declarou sobre o acordo, antes de prometer o uso do poderio militar norte-americano na região.
O New York Times apontou o Brasil como a peça que falta no bloco de aliados latino-americanos que Trump busca reunir. Flávio Bolsonaro prometeu aderir ao Escudo das Américas, a aliança de segurança liderada por Washington. Uma vitória do candidato também aproximaria o país da política econômica de Javier Milei, apresentada por Flávio como modelo.
Na campanha, a coordenadora econômica Daniella Marques defendeu um corte de gastos equivalente a 1,5% do PIB, cerca de R$200 bilhões; integrantes da equipe sinalizaram ao mercado uma redução de R$250 bilhões.
Como 92% das despesas primárias da União são obrigatórias, chegar a esse valor exigiria mudar regras que afetam a população. A equipe discute, por exemplo, retirar das aposentadorias e do BPC o ganho real vinculado ao salário mínimo.
Os benefícios continuariam a ser corrigidos pela inflação, mas deixariam de acompanhar os aumentos reais do piso.
O alinhamento com Trump e o programa de cortes se reforçam. De um lado, o país se abriria à estratégia militar dos Estados Unidos; de outro, o ajuste fiscal reduziria o poder de compra da classe trabalhadora e pressionaria os serviços públicos.