Apoiadores declarados da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, e o vice-presidente da legenda, ACM Neto, surgem no centro de um amplo esquema de favorecimento e desvio de recursos de fundos de previdência de servidores estaduais para o Banco Master.
Documentos e mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição financeira, revelam que a atuação da dupla para destravar aportes bilionários rendeu uma extensa lista de contrapartidas luxuosas e repasses milionários: comissões de até 10% sobre os valores aplicados (com estimativa de até R$ 200 milhões), uso livre de jatinhos executivos para viagens pessoais e familiares à Fórmula 1 em Miami, hospedagens em hotéis de altíssimo luxo como o Rosewood, além de transferências diretas de R$ 6,4 milhões para escritórios de advocacia de Rueda e de R$ 5,4 milhões para a empresa de consultoria de ACM Neto.
Liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025 em decorrência de grave crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e sucessivas violações às normas do Sistema Financeiro Nacional, o Banco Master é o foco central da Operação Compliance Zero da Polícia Federal.
As investigações apuram a prática de gestão fraudulenta, gestão temerária, organização criminosa e o loteamento de títulos e fundos para captar recursos de regimes próprios de previdência social. Grande parte das aplicações, realizadas em letras financeiras e fundos sem a proteção do Fundo Garantidor de Créditos, colocou em risco iminente o patrimônio de milhares de servidores públicos.
As mensagens obtidas pelos investigadores e divulgadas pelo UOL expõem o acompanhamento minucioso das captações feito pelos aliados de Flávio Bolsonaro. Em novembro de 2023, Fernando Mascarenhas, então diretor comercial do banco, avisou Vorcaro que “Rueda me ligou aqui, vai tá no banco amanhã? Good news”. Logo em seguida, organizou-se a logística em jato executivo da instituição para viagens por Rondônia, Amazonas e Porto Alegre, culminando no recado de Mascarenhas na noite de 21 de novembro: “Irmão, o negócio vai ficar gigante, nosso amigo até final do ano resolve 1,2 b”, ao que Vorcaro respondeu entusiasmadamente com “Foguete”.
A articulação sobre a Previdência do Amapá revelou novos episódios de pressão e ocultação de provas. Em abril de 2024, Mascarenhas enviou a mensagem “Amapá, confirmado 400”, obtendo como resposta de Vorcaro “Quero ver nosso amigo apertar o enter”. Meses depois, em julho, diante do risco de paralisação das operações por repercussões na imprensa, o tesoureiro Alberto Felix relatou que “A reunião lá do Amapá está acontecendo. Mas o Rueda que disse que ia segurar as operações”. Na sequência, Rueda apagou dez registros e ordenou “Apaga essas mensagens”. Em cerca de uma hora, Mascarenhas confirmou a efetivação: “Aprovado 200 M agora no Amapá. Nesse minuto”, seguido pela anotação interna da tesouraria do Master registrando “Pagamos 11 mm contas a pagar, comissão Amapá”.
O mapeamento comercial das abordagens aos fundos estaduais e municipais incluía relatórios diretos a Vorcaro listando “400 Amapá, 350 RJ, 250 Amazonas, 160 Campos dos Goytacazes, 500 Maricá, 100 BH, 200 Alagoas”. Em junho de 2024, Mascarenhas apontava que “Amazonprev 50 M líquida amanhã”, enquanto interlocutores destacavam a influência política do grupo no Norte do país afirmando que “No Amazonas vai dar certo, porque Rondônia é o mesmo grupo de influência. Lá é sócio do Rueda”.
A intimidade e as regalias usufruídas por ACM Neto e Rueda eram constantes. Em setembro de 2024, ambos passaram um fim de semana na residência de praia de Vorcaro em Trancoso, na Bahia. Em outubro, ACM Neto propôs um encontro reservado dizendo “eu, você e Rueda” em uma charutaria paulistana e, nove dias depois, comemorou os desdobramentos políticos afirmando que “As coisas em Brasília estão consolidadas e, felizmente, saiu tudo como desejávamos na política”. Em tom de total liberalidade, Vorcaro oferecia o uso de seus jatinhos particulares à dupla com a instrução “Usa como seu”.
Na proposta de delação premiada apresentada por Vorcaro e rejeitada pela PF e pela Procuradoria-Geral da República por ausência de fatos novos e falta de garantias de ressarcimento, detalhou-se que a consultoria ligada ao esquema fixava comissão de 10% para abrir portas no Rioprevidência, na Amprev, na Amazonprev e na Cedae. Com uma captação estimada em R$ 2 bilhões, o montante destinado aos intermediários alcançaria R$ 200 milhões. Levantamentos da investigação indicam aportes efetivos de R$ 2,97 bilhões do Rioprevidência entre 2023 e 2025, R$ 400 milhões da Amprev, R$ 200 milhões da Cedae e R$ 50 milhões da Amazonprev. Relatórios do Coaf e a quebra de sigilo bancário confirmaram a transferência de R$ 6,4 milhões ao escritório de advocacia de Rueda e de R$ 5,4 milhões à empresa de consultoria A&M, de propriedade de ACM Neto.
No Rio de Janeiro, o ex-presidente do Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, indicado após articulação de Rueda com o governador Cláudio Castro, foi preso na Operação Barco de Papel.
ACM Neto e Antônio Rueda formalizaram o alinhamento de sua força política com a candidatura de Flávio Bolsonaro, prometendo engajamento direto de suas bases partidárias. Paralelamente, o próprio senador Flávio Bolsonaro é alvo de apurações sobre trocas de mensagens e contatos com Vorcaro relacionados ao financiamento do filme Dark Horse, com remessas ao exterior envolvendo operadores citados na delação sobre repasses a ACM Neto.