A dez dias do segundo turno das eleições presidenciais, o presidente Lula (PT) sinalizou uma guinada estratégica em temas de segurança pública, criticou a conduta de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e reafirmou suas apostas na microeconomia. Em sabatina na TV Globo na noite de quinta-feira (15), o petista buscou acenar a um eleitorado mais amplo na tentativa de reverter a vantagem deobtida por Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno.
O candidato do PL, que obteve 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula em 4 de outubro, será o próximo entrevistado do ciclo conduzido pela jornalista Renata Lo Prete nesta sexta-feira (16).
Guinada na segurança e maioridade penal
Pela primeira vez em sua trajetória política recente, Lula declarou apoio à redução da maioridade penal para 16 anos, exclusivamente em casos de crimes hediondos. A mudança de postura ocorre em um momento em que a campanha governista tenta neutralizar uma de suas principais fragilidades junto ao eleitorado.
A sinalização reflete o impasse no Senado em torno da PEC da Segurança Pública. A base do governo chegou a se dividir na última semana: enquanto aliados de Flávio Bolsonaro sugeriram a redução para 14 anos, o senador petista Camilo Santana (CE) apresentou emenda alinhada à nova posição do presidente.
Para reforçar a área, Lula também prometeu a criação do Ministério da Segurança Pública, desmenbrando da pasta da Justiça, reorganizando a Polícia Federal (PF) e a Polícia Rodoviária Federal (PRF). “Para o trabalhador, queremos tranquilidade. Para os bandidos, queremos prisão”, resumiu.
No cenário internacional do combate ao crime, o presidente rechaçou a decisão de maio do governo de Donald Trump de classificar facções brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho, como grupos terroristas de Estado. Lula argumentou que, embora essas organizações aterrorizem comunidades locais, elas operam por motivação financeira, e não com o objetivo de dar um golpe de Estado, que é a definição clássica de terrorismo exigida pelas convenções internacionais.
Tensão no STF e o caso Banco Master
Pressionado sobre o inquérito que investiga fraudes no Banco Master, que cita ministros do STF e o ex-líder do governo, Jaques Wagner, Lula adotou um tom duro contra a cúpula do Judiciário e prometeu enviar uma proposta de reforma do poder caso reeleito. O pacote incluiria mandatos por tempo determinado para ministros e regras éticas mais rígidas.
“Ninguém está acima da lei, nem os ministros da Suprema Corte“, afirmou o presidente, relatando que a sociedade exige que “não fique pedra sobre pedra“. Lula argumentou que a extrema-direita tenta usar a crise no tribunal para atingir o ministro Alexandre de Moraes, responsável pela prisão do pai de Flávio Bolsonaro, mas reconheceu que as citações no caso Master atingem múltiplos magistrados. “Quem quiser ser rico não pode ser ministro da Suprema Corte. Ali é um sacerdócio“, pontuou.
O petista também desaprovou publicamente a viagem do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, a uma festa promovida pelo banqueiro Daniel Vorcaro em Londres, classificando as explicações do subordinado como “não convincentes“.
Questionado sobre seu próprio encontro com Vorcaro no Palácio do Planalto no fim de 2024, Lula justificou que a reunião foi intermediada por Guido Mantega para tratar de concentração bancária, comparando o atendimento institucional ao que concedeu a Silvio Santos durante a crise do Banco Panamericano.
Economia, crédito e embate comercial
No bloco econômico, Lula descartou aplicar cortes em gastos sociais para alcançar a consolidação fiscal. O presidente defendeu que o controle da dívida deve ocorrer pelo aumento da atividade econômica e do consumo, argumentando que o endividamento voltado para infraestrutura gera retornos positivos.
Como vitrine eleitoral, focou no combate à inadimplência e no fomento ao microcrédito. O presidente defendeu a aprovação do projeto Prospera MEI, que perdoa R$ 12,7 bilhões em dívidas de 3 milhões de microempreendedores com a União e eleva o teto da categoria para R$ 110 mil até 2027. Além disso, destacou uma nova fase do programa Desenrola, com descontos de até 90% para limpar estoques de R$ 150 bilhões em débitos, e justificou o reajuste do Bolsa Família em pleno ano eleitoral como uma correção inflacionária urgente para manter o poder de compra.
No âmbito das relações exteriores, o presidente comentou as sobretaxas de 25% impostas pelos Estados Unidos em julho. Afirmando manter uma relação “civilizada” com Trump, Lula disse preferir a negociação, mas alertou que o Brasil aplicará a recém-aprovada Lei da Reciprocidade Econômica se necessário. O petista destacou que, apesar da queda de 9% no comércio com os EUA, o Brasil abriu e expandiu mercados com China, Indonésia e mais de 50 nações.
Avanços no SUS
Ao encerrar a sabatina, o foco recaiu sobre a saúde pública. Lula apresentou o saldo de 15 milhões de cirurgias eletivas realizadas no SUS em 2025, com a meta de alcançar 16 milhões este ano, graças a convênios filantrópicos e à contratação de 16 mil novos médicos. O presidente também anunciou a circulação de 150 unidades móveis até o final do ano para acelerar diagnósticos de câncer em mulheres, admitindo que as filas de espera seguem longas, mas que os gargalos estão sendo enfrentados.
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