Flávio Bolsonaro foi 14 vezes ao TSE para esconder posição contra fim da 6×1

O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) tentou, pelo menos 14 vezes, impedir que a campanha do presidente Lula (PT) divulgasse sua posição contrária ao fim da escala de trabalho 6×1. Segundo levantamento publicado pelo UOL nesta sexta-feira (16), Flávio transformou a Justiça Eleitoral em uma frente de disputa para tentar barrar suas próprias críticas sobre uma das principais reivindicações da classe trabalhadora. A ofensiva, no entanto, fracassou na maior parte das tentativas: apenas três pedidos foram acolhidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Depois de meses criticando a redução da jornada de trabalho e classificando a defesa da proposta como oportunismo eleitoral, Flávio mudou o discurso no último minuto. Na quarta-feira (14), quando a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) foi aprovada, o candidato do PL não participou presencialmente da discussão no plenário e registrou seu voto favorável a distância.  

A mudança de posição ocorreu justamente quando a pauta ganhou centralidade no segundo turno presidencial. Diante da ampla aceitação popular pelo fim da escala 6×1, o senador passou a apoiar, ao menos no voto, uma medida que vinha combatendo politicamente.

O contraste é muiro claro: enquanto Lula incorporou a redução da jornada à agenda de valorização do trabalho, Flávio passou boa parte da campanha questionando a proposta e tentando impedir que seu adversário explorasse essa contradição.

14 ações para tentar silenciar uma crítica

O levantamento da jornalista Adriana Ferraz mostra que a escala 6×1 se tornou um dos assuntos mais contestados judicialmente pela campanha bolsonarista desde 5 de outubro, início do segundo turno.

Das 14 tentativas de retirar ou impedir propagandas que associavam o senador à oposição ao fim da escala, somente três foram atendidas. Todas as decisões favoráveis foram concedidas pelo ministro André Mendonça, do TSE, que também rejeitou outras iniciativas da campanha de Flávio.

Mais do que discutir publicamente as razões de sua resistência à mudança, a campanha do PL buscou limitar judicialmente a forma como essa trajetória poderia ser apresentada ao eleitorado.

Além disso, a disputa não se resume à propaganda. O que está em jogo é a posição dos candidatos diante de uma reivindicação histórica: trabalhar menos, preservar os salários e garantir mais tempo para a família, a educação, o lazer e o descanso.

De “oportunista” a favorável: a virada às vésperas da votação

Até a terça-feira (13), Flávio Bolsonaro ainda classificava a iniciativa defendida por Lula como oportunista e sustentava alternativas de flexibilização das relações de trabalho, incluindo o pagamento por hora mediante negociação “direto com o patrão”.

Mas, em meio à pressão popular e a proximidade de votação, o senador passou a reconhecer que a maioria dos trabalhadores desejava o fim da escala 6×1 e anunciou que votaria favoravelmente à proposta.

Na quarta-feira (14), o Senado aprovou a PEC que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial. A proposta recebeu 75 votos favoráveis e apenas um contrário, do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS).

Enquanto os parlamentares discutiam a mudança, Flávio dançava no Rio Grande do Sul ao lado de aliados como o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O voto favorável, embora registrado oficialmente, não apaga seus posicionamentos anteriores e muito menos encerra as dúvidas sobre o compromisso do candidato com os direitos trabalhistas.

Segundo o UOL, Flávio teria assumido com empresários contrários à mudança o compromisso de rever a PEC caso chegasse à Presidência. A informação, se concretizada em uma futura iniciativa de governo, colocaria novamente em disputa uma conquista defendida pelos trabalhadores.

Conquista dos trabalhadores, não concessão eleitoral

O fim da escala 6×1 representa uma conquista histórica da classe trabalhadora, resultado de grande mobilização popular e defendida com afinco pelo governo Lula. A mudança de posição de Flávio Bolsonaro, às vésperas da votação, evidencia ainda mais a  força dessa reivindicação. Depois de meses criticando a proposta e recorrendo ao TSE para contestar a propaganda adversária, o senador acabou votando a favor da medida que combatia.

Mas o voto favorável não apaga suas declarações anteriores nem as 14 iniciativas judiciais para tentar impedir que a população conhecesse sua posição. A conquista pertence aos trabalhadores, e não a quem aderiu à pauta sob pressão eleitoral.

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