A democracia precisa de todos nós, por Marcos Verlaine

A democracia precisa de todos nós

Fãs de Beyoncé, Taylor Swift, BTS, entre outros, usam redes para apoiar Lula. Comunidades treinadas organizam mutirões, produzem conteúdo e transmitem mensagens. Ações buscam alcançar mais de 33 milhões que não votaram.

por Marcos Verlaine

Há momentos em que a democracia exige mais do que votar. Exige mobilização, organização e disposição para convencer. O segundo turno de 2026 é um desses momentos especiais da política da vida.

Diante da ameaça representada pelo avanço da extrema direita e dos ataques recorrentes ao Estado de Direito, toda ajuda democrática é fundamental. Não basta esperar que partidos, candidatos ou governos façam o trabalho. A democracia é construção coletiva. E sua defesa também.

É nesse sentido que chama atenção a mobilização espontânea de comunidades de fãs de artistas nacionais e internacionais. São os chamados fandoms1 ligados a Beyoncé, Taylor Swift, BTS, Lady Gaga, Bad Bunny, Billie Eilish, Anitta, Luísa Sonza, Marina Sena e tantos outros colocaram as redes digitais deles à disposição da campanha de Lula.

Não falam ou se posicionam em nome dos artistas. São comunidades organizadas por fãs, mas que aprenderam a produzir conteúdo, mobilizar pessoas e fazer circular mensagens em escala.

Força que os partidos precisam enxergar

O dado mais importante talvez esteja fora das urnas: mais de 33 milhões de brasileiros não votaram no primeiro turno.

Não significa que esses eleitores estejam esperando Lula. Tampouco que possam ser automaticamente convertidos em votos. Significa que existe parcela gigantesca da sociedade que precisa ser alcançada, ouvida e convencida a ir votar e se posicionar pela democracia.

E aqui há lição para partidos e campanhas. Os fandoms entenderam algo que a política tradicional frequentemente esquece: “ninguém precisa fazer tudo, mas todos podem fazer alguma coisa”, esta é a mensagem dos fandoms à campanha de Lula.

Um eleitor pode conversar com um vizinho. Outro pode produzir um vídeo. Outro pode compartilhar uma informação correta. Outro pode organizar uma reunião. Outro pode colocar a profissão, o conhecimento ou a rede de contatos a serviço da democracia.

É assim que uma comunidade deixa de ser audiência e se transforma em força política.

Esperança é ação

A esperança não pode ser confundida com espera. Esperança sem ação é apenas desejo.

O resultado do primeiro turno não autoriza triunfalismo, mas tampouco permite fatalismo. A diferença entre Lula e Flávio foi pouco superior a 2,2 milhões de votos, enquanto dezenas de milhões de eleitores não compareceram às urnas.

É verdade, trata-se de eleição difícil. Mas difícil não significa decidida.

Lula já protagonizou algumas das maiores rupturas da história eleitoral brasileira. Perdeu 3 eleições presidenciais antes de chegar ao Planalto, em 2002. Em 2022, derrotou um presidente que buscava a reeleição e tornou-se o primeiro brasileiro eleito 3 vezes para a Presidência.

Agora, há nova possibilidade histórica: ser o primeiro presidente brasileiro a vencer o segundo turno depois de terminar o primeiro em segundo lugar.

Democracia não se terceiriza

O que está em jogo ultrapassa a preferência por candidato. É a escolha entre preservar e aprofundar a democracia ou permitir que a política seja capturada pelo autoritarismo, pela intolerância e pela negação das instituições.

Por isso, cada pessoa que acredita no Estado de Direito tem responsabilidade. Não é preciso ser militante, influenciador ou dirigente partidário. É preciso não permanecer indiferente.

A extrema direita aprendeu a usar redes, comunidades e afetos para mobilizar. A democracia precisa aprender a fazer o mesmo. Mas sem mentira, sem ódio e sem manipulação.

A história ainda está sendo escrita. E ninguém está fora dessa.

Neste momento, toda ajuda conta. Toda conversa conta. Todo voto conta. Toda pessoa mobilizada conta. Porque a democracia não será salva por espectadores. Democracia precisa de cidadãos dispostos a defendê-la.

Marcos Verlaine – Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

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1 Fandom é subcultura ou comunidade digital formada por pessoas que compartilham paixão profunda por temas em comum, como artistas, séries, filmes, jogos ou animes. O termo une as palavras em inglês fan — fã — e o sufixo -dom, que indica estado ou reino, traduzido livremente como “reino dos fãs”.

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