Lula perdeu para abstenção e virada de Flávio foi “ilusão de ótica”, diz Lavareda

Lula e Flávio Bolsonaro

A ultrapassagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno da eleição presidencial foi uma “ilusão de ótica”. A avaliação é do cientista político Antonio Lavareda, que explicou, em entrevista ao Programa do Noblat, no YouTube, que o senador de extrema-direita não teria experimentado uma disparada de última hora. O que ocorreu, segundo ele, foi principalmente uma perda de votos de Lula para a abstenção.

Lavareda afirmou que, nas pesquisas realizadas na véspera e na antevéspera da eleição, Flávio Bolsonaro aparecia com aproximadamente 35% dos votos considerando o total do eleitorado. Na urna, o senador terminou com 35,34%, praticamente repetindo o percentual que já vinha sendo indicado pelos levantamentos.

“Flávio foi crescendo, ultrapassou o Lula, mas isso é uma ilusão de ótica, é uma boa descrição das aparências, mas é só ilusão de ótica”, afirma Lavareda.

Para ele, a interpretação de que Flávio “passou” Lula porque cresceu muito na reta final não corresponde ao que os números mostram. Ele comparou a situação a uma corrida na qual um competidor não é necessariamente ultrapassado porque o adversário acelerou, mas porque ele próprio diminuiu o ritmo.

Segundo Lavareda, Lula tinha cerca de 39% das intenções quando considerados os votos sobre o total do eleitorado e chegou à urna com aproximadamente 34%. A diferença, de cerca de 5 pontos, teria sido absorvida principalmente pela abstenção.

“Lula perdeu votos e ficou atrás dele, como se um corredor numa disputa começasse a correr para trás e por isso fosse ultrapassado, não porque o outro estava correndo mais rápido”, explicou.

Abstenção tirou pontos de Lula

Lavareda afirmou que o fenômeno já havia sido observado por ele na eleição de 2022. Eleitores de Lula apresentam uma propensão maior a não comparecer às urnas, especialmente entre parcelas mais pobres da população, nas quais o custo do deslocamento e da participação eleitoral pode ser maior.

Ele também apontou a possibilidade de uma parcela dos votos ter sido perdida para votos nulos. Lavareda relacionou o fenômeno à dificuldade de parte do eleitorado em registrar corretamente o número do candidato, mencionando dados sobre analfabetismo funcional.

O cientista político lembrou que havia antecipado esse risco antes da eleição. Em entrevista publicada pelo NeoFeed, afirmou que não se surpreenderia se Lula aparecesse à frente nas pesquisas e acabasse sendo ultrapassado por Flávio entre os eleitores que efetivamente comparecessem às urnas, justamente em razão da abstenção.

De acordo com Lavareda, o resultado confirma sua preocupação com o chamado diferencial de comparecimento entre os eleitorados dos dois candidatos.

“Pelas nossas pesquisas ele perdeu pelo menos 5 pontos”, afirmou, ao ser questionado sobre quantos pontos Lula teria perdido em razão desse fenômeno.

Diferença real nos votos totais

Lavareda também fez uma distinção entre os votos válidos e o total do eleitorado. Segundo ele, Flávio terminou o primeiro turno com uma vantagem de aproximadamente dois pontos percentuais entre os votos válidos, mas a diferença quando considerados todos os eleitores foi bem menor: entre 1,4 e 1,5 ponto percentual.

Por isso, ele considera possível que as primeiras pesquisas do segundo turno apresentem Flávio com uma vantagem maior. A razão não seria necessariamente uma nova arrancada do senador, mas a incorporação dos eleitores que votaram nos candidatos de menor expressão no primeiro turno.

Lavareda declara ser “quase impossível” que Flávio não apareça à frente de Lula na primeira pesquisa do segundo turno, com uma intenção de voto superior à votação que obteve na urna, devido à transferência de votos dos candidatos que ficaram fora da disputa.

O cientista político citou como exemplo a tendência de eleitores se deslocarem para candidatos ideologicamente próximos. Na sua avaliação, eleitores de candidatos de direita teriam maior probabilidade de migrar para Flávio. O apoio de Ronaldo Caiado, por exemplo, poderia contribuir para essa transferência.

Lavareda também recuperou a eleição de 2018 para explicar o comportamento do eleitorado. Naquele ano, Ciro Gomes não apoiou Fernando Haddad no segundo turno, mas grande parte de seus eleitores acabou votando no petista. Para o cientista político, isso ocorreu porque Ciro era identificado naquele momento com a esquerda. Hoje, segundo ele, a posição ideológica do ex-governador é diferente, o que alteraria o destino de seus eventuais eleitores.

Candidatos da terceira via perderam força, mas não necessariamente transferiram votos no dia

Outro ponto levantado por Lavareda foi o desempenho dos chamados candidatos da terceira via. Segundo ele, esses nomes já vinham perdendo força nas últimas 72 horas da campanha e chegaram ainda mais enfraquecidos ao dia da eleição.

Ele rejeitou, porém, a hipótese de que os eleitores desses candidatos tenham migrado maciçamente para Flávio no próprio dia da votação. Na comparação entre as pesquisas e o resultado das urnas, Lavareda disse não encontrar evidências de que o senador tenha tido uma explosão de votos além do que já vinha sendo captado pelos institutos.

A explicação estaria justamente na abstenção. Ele citou o exemplo de eleitores que, diante de pesquisas indicando desempenho muito baixo de determinados candidatos, poderiam perder o estímulo para sair de casa e votar.

Lavareda afirmou ainda que esse mecanismo atinge de maneira particular eleitores mais pobres de Lula, para os quais o custo de comparecer à votação pode ser maior. Segundo ele, chuva, deslocamento e outras dificuldades podem aumentar a diferença de comparecimento entre os eleitorados dos dois candidatos.

Segundo turno pode ser decidido pelo comparecimento

Para Lavareda, a campanha de Lula precisará trabalhar em várias frentes no segundo turno. Uma delas será aumentar o comparecimento de seus eleitores.

Ele lembrou que, em 2022, pela primeira vez, a taxa de abstenção no segundo turno foi menor do que no primeiro, ainda que a diferença tenha sido relativamente pequena. Para o cientista político, isso demonstra que existe espaço para uma campanha de mobilização capaz de alterar o resultado.

Além de recuperar eleitores que deixaram de votar no primeiro turno, Lavareda afirmou que Lula precisará disputar os votos dos candidatos que ficaram fora da segunda etapa e também tentar retirar votos de Flávio.

Ele citou como precedente a eleição presidencial de 2006, quando Lula conseguiu retirar votos válidos de Geraldo Alckmin entre o primeiro e o segundo turno.

O cientista político também afirmou que a campanha de segundo turno será marcada por uma disputa mais agressiva. Segundo ele, a eleição é uma disputa pela definição de quem ganha e quem perde, o que tende a aumentar a carga de ataques contra os candidatos.

PL avança sobre o Centrão

Para Lavareda, porém, o resultado mais significativo do ponto de vista político apareceu no Congresso.

Na avaliação dele, o PL avançou sobre o Centrão e não apenas sobre a esquerda. O cientista político afirmou que os partidos de centro foram os principais prejudicados pelo crescimento da direita no Legislativo, citando legendas como Republicanos, União Brasil e Progressistas.

Lavareda classificou o movimento como um possível sinal de avanço na formação de uma bipolaridade ideológica no Congresso.

Ele atribuiu parte desse desempenho a uma estratégia do PL para explicar ao eleitor de direita a importância das eleições para o Senado. Segundo Lavareda, a campanha teria associado a escolha de senadores à possibilidade de afastar ministros do Supremo Tribunal Federal por meio de processos de impeachment.

O cientista político ressaltou que o eleitor costuma decidir seu voto para o Congresso apenas nas últimas horas da campanha e que essa mensagem teria sido repetida de maneira eficiente pelo PL.

Bolsonaro é apontado como “estrategista de 2026”

Segundo Lavareda, Bolsonaro enfrentou a pressão da grande mídia, que defendia a candidatura de Tarcísio de Freitas, resistiu ao Centrão e contrariou aliados ao lançar Flávio Bolsonaro. Lavareda afirmou que houve incredulidade inicial sobre as chances eleitorais do senador, mas que Flávio cresceu progressivamente até terminar o primeiro turno na primeira colocação.

“O prêmio Estrategista de 2026 cabe a Jair Messias Bolsonaro”, afirmou Lavareda.

O cientista político também escolheu seu “anti-estrategista” do ano: segundo ele, a decisão de lançar Fernando Haddad para o governo de São Paulo e colocar Márcio França como vice teria produzido um resultado ruim para o campo petista.

Críticas às pesquisas e à cobertura da imprensa

Lavareda também criticou a maneira como a imprensa brasileira cobre as eleições. Segundo ele, grande parte da cobertura dos canais de televisão por assinatura se transformou em acompanhamento permanente das pesquisas, em detrimento da análise da própria campanha.

“Dois terços da cobertura é simplesmente análise de pesquisa. Como se a campanha fosse a pesquisa e a pesquisa fosse a campanha”, afirmou.

O cientista político criticou especificamente o espaço dedicado aos institutos de pesquisa pela mídia. Na entrevista, afirmou que a Globo se destaca por contratar dois institutos de pesquisa e classificou o fenômeno como uma demonstração do “apreço” da grande mídia pelos levantamentos eleitorais.

Para Lavareda, os jornalistas acabaram ficando presos aos “quadros de referência das pesquisas”, fazendo com que a cobertura eleitoral se transformasse em uma sequência de números, em vez de buscar compreender outros fatores políticos e sociais.

Ele também defendeu que os institutos tenham mais humildade na apresentação dos resultados e citou a eleição para o Senado como exemplo. Segundo Lavareda, mais de 70% dos eleitores declaravam espontaneamente não ter preferência por um candidato, mas pesquisas estimuladas acabavam apresentando percentuais para nomes específicos.

Lavareda defende mudança no modelo dos debates

O cientista político também criticou o formato atual dos debates presidenciais de primeiro turno, especialmente quando reúnem um número muito elevado de candidatos.

Para ele, debates com seis, sete, dez, onze ou doze candidatos se tornaram obsoletos e pouco contribuem para o eleitor. Lavareda citou Portugal como exemplo de um modelo baseado em confrontos entre dois candidatos, mesmo quando há vários concorrentes na disputa presidencial.

Segundo ele, debates binários poderiam ser mais úteis para permitir ao eleitor comparar diretamente projetos e posições. Lavareda defendeu ainda que a imprensa, os partidos e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) discutam mudanças nas regras atuais.

 

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