
O jornalista Gerson Camarotti associou a origem do bolsonarismo ao discurso do “nós contra eles” na eleição presidencial de 2014, em conversa com Natuza Nery. Sua explicação concentra a responsabilidade pela divisão do país na disputa eleitoral, mas deixa de fora, no trecho, um acontecimento central daquele período: depois da derrota de Aécio Neves para Dilma Rousseff, o PSDB levou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um pedido de auditoria do resultado.
“A origem do bolsonarismo está no ‘nós contra eles’ de 2014”, afirmou Camarotti. Ao desenvolver o argumento, o jornalista disse que a polarização foi criada naquela eleição e naquele discurso. Para ele, o país passou a ser dividido entre dois lados, em contraste com uma política que antes teria maior pluralidade.
O trecho não menciona expressamente Dilma ou o PT, embora situe na campanha de 2014 a explicação para o surgimento do movimento e deliberadamente ignora que desde 1994 tucanos e petistas monopolizaram as campanhas presidenciais, com duas vitórias de Fernando Henrique Cardoso impulsionadas pelo êxito do Plano Real e de 2002 em diante o partido do presidente Lula obteve duas vitórias contra, respectivamente, José Serra e Geraldo Alckmin. Ou seja, a polarização entre as duas forças políticas já tinha pelo menos 14 anos.
Ao formular essa interpretação, Camarotti desconsidera a atuação do PSDB na contestação do resultado das urnas. O partido de Aécio apresentou o pedido de auditoria após a vitória de Dilma, levando ao debate institucional suspeitas que circulavam nas redes sociais. A auditoria não encontrou indícios de fraude, conforme registrou o TSE.
É 2026 e a gente tem essa analise. Sério… a gente ta muito ferrado. pic.twitter.com/TTg33Q3tY6
— Ronilso Pacheco (@ronilso_pacheco) October 6, 2026
Essa omissão inverte o foco da responsabilidade. Ao explicar a escalada política pelo discurso da campanha, sem considerar a reação de quem perdeu e colocou a apuração sob suspeita, o jornalista acaba culpando a vítima: a presidente eleita cuja vitória foi objeto da contestação. A campanha de Dilma passa a ocupar o centro da explicação, enquanto a conduta dos adversários fica fora do exame.
Ao levar ao TSE suspeitas sobre a apuração de 2014, o PSDB deu peso institucional a argumentos que depois seriam explorados pelo bolsonarismo: a ideia de que uma derrota eleitoral poderia decorrer de falhas ou manipulações nas urnas. Embora a auditoria não tenha encontrado indícios de fraude, a contestação ofereceu um precedente para apresentar resultados desfavoráveis como motivo de desconfiança no sistema eleitoral.
Nesse sentido, a atuação do partido de Aécio ajudou a dar sustentação política ao discurso bolsonarista contra as urnas. As suspeitas passaram a contar com o antecedente de uma contestação feita por um dos principais partidos do país. Ao deixar esse episódio fora da explicação, Camarotti desloca a responsabilidade para a campanha de Dilma e desconsidera como a reação à sua vitória forneceu argumentos à deslegitimação eleitoral.