Lula alerta: “tesouraço” de Flávio é ameaça a políticas sociais

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou, no segundo turno, o alerta sobre o chamado “tesouraço” defendido por Flávio Bolsonaro (PL). A estratégia da campanha mostra que a promessa de promover um corte profundo nos gastos públicos não é uma medida abstrata de ajuste fiscal: se executada como no governo de seu pai, Jair Bolsonaro, pode atingir políticas que beneficiam diretamente a população.

A ofensiva foi lançada nesta terça-feira (6), com uma peça que relaciona a proposta de Flávio aos cortes ou reduções de recursos registrados durante o governo de Jair Bolsonaro. Entre as áreas citadas estão Farmácia Popular, Minha Casa, Minha Vida, Mais Médicos, combate ao câncer, construção de cisternas, merenda escolar e prevenção de desastres.

“Flávio Bolsonaro vive dizendo que vai fazer um tesouraço no Brasil. Mas, quando um dos Bolsonaros fala em corte, é preciso relembrar para não repetir”, afirma a campanha.

A crítica ganha força diante do próprio conteúdo do programa econômico de Flávio. O documento apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral prevê a redução de pelo menos dez ministérios, diminuição de cargos comissionados e despesas administrativas, reforma administrativa e limitação do crédito subsidiado pelo Tesouro. A proposta também estabelece uma regra de controle dos gastos discricionários dos três Poderes.

“Tesouraço” sem detalhamento sobre onde cortar

O principal problema da promessa de Flávio Bolsonaro está justamente na distância entre o discurso de um grande corte de despesas e a falta de detalhamento sobre quais gastos seriam efetivamente sacrificados.

A ideia de fazer um “corte profundo” e “por todos os lados” aparece como eixo da política fiscal apresentada pelo candidato. A equipe econômica chegou a mencionar uma redução de despesas equivalente a 1,5% do PIB, cerca de R$ 190 bilhões, embora esse valor não conste do programa registrado no TSE.

Ao mesmo tempo, o plano promete reduzir impostos “sobre quem produz”, um eufemismo para os mais ricos. As duas promessas colocam uma questão central no debate eleitoral: se haverá menos receita e um corte bilionário nas despesas, quais áreas serão preservadas e quais pagarão a conta?

Não basta afirmar que os programas sociais serão mantidos. Um programa como Farmácia Popular, por exemplo, depende de orçamento, rede de atendimento e financiamento público para alcançar milhões de brasileiros. O mesmo vale para habitação popular, saúde, educação, agricultura familiar e políticas de prevenção de desastres.

É nesse ponto que a campanha de Lula concentra sua crítica: o “tesouraço” é apresentado como uma operação técnica para equilibrar as contas, mas seus efeitos concretos dependerão das escolhas políticas feitas para alcançar a economia prometida.

O precedente do governo Bolsonaro

A campanha de Lula relembra o histórico da administração de Jair Bolsonaro para questionar a promessa de Flávio de preservar os programas sociais.

O material divulgado nesta terça-feira sustenta que políticas como Farmácia Popular, Minha Casa, Minha Vida e Mais Médicos perderam recursos ou foram reduzidas durante o governo anterior e que Lula recuperou ou ampliou essas iniciativas.

“Agora, Flávio Bolsonaro quer dar continuidade ao legado perverso do pai e cortar tudo aquilo que o povo reconquistou. Não deixe esse pesadelo voltar. Bolsonaros nunca mais”, afirma a peça.

Um projeto que privilegia o ajuste sobre a expansão das políticas públicas

O discurso do “tesouraço” coloca a disputa econômica do segundo turno em termos bastante claros. De um lado, Flávio apresenta a contenção de gastos, a redução da máquina pública e a revisão dos mecanismos de crédito subsidiado como instrumentos para estabilizar a dívida e buscar crescimento.

De outro, Lula procura transformar a discussão sobre o equilíbrio fiscal em uma pergunta sobre prioridades: que Estado o próximo governo pretende construir e quais direitos e serviços públicos estarão protegidos?

A questão é particularmente relevante porque cortes de despesas não atingem automaticamente todas as áreas da mesma maneira. Reduzir cargos administrativos, combater supersalários e eliminar desperdícios é diferente de reduzir investimentos, transferências, custeio de serviços de saúde ou programas de habitação.

Segundo turno coloca projetos frente a frente

A mudança de estratégia da campanha de Lula acompanha a nova configuração da eleição. Com apenas dois candidatos, a disputa passa a depender não apenas da capacidade de cada um de mobilizar seus eleitores, mas também da rejeição e da transferência de votos.

No último Datafolha antes do primeiro turno, Lula e Flávio apareciam empatados no índice de rejeição, com 45% dos entrevistados afirmando que não votariam de jeito nenhum em cada um deles.

Por isso, a campanha decidiu deixar em segundo plano uma comunicação concentrada exclusivamente nas realizações do governo e adotar um confronto mais direto com o adversário.

O “tesouraço” é uma das primeiras peças dessa nova etapa. A estratégia procura apresentar a eleição como uma escolha concreta entre dois projetos: de um lado, a continuidade de políticas sociais e de investimentos públicos; de outro, um programa que coloca no centro a redução de despesas e o encolhimento da estrutura estatal.

Para Lula, o alerta é direto: não se trata apenas de cortar gastos no papel. Trata-se de decidir quais políticas públicas serão preservadas quando chegar a hora de fazer os cortes.

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