O presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou, no segundo turno, o alerta sobre o chamado “tesouraço” defendido por Flávio Bolsonaro (PL). A estratégia da campanha mostra que a promessa de promover um corte profundo nos gastos públicos não é uma medida abstrata de ajuste fiscal: se executada como no governo de seu pai, Jair Bolsonaro, pode atingir políticas que beneficiam diretamente a população.
A ofensiva foi lançada nesta terça-feira (6), com uma peça que relaciona a proposta de Flávio aos cortes ou reduções de recursos registrados durante o governo de Jair Bolsonaro. Entre as áreas citadas estão Farmácia Popular, Minha Casa, Minha Vida, Mais Médicos, combate ao câncer, construção de cisternas, merenda escolar e prevenção de desastres.
“Flávio Bolsonaro vive dizendo que vai fazer um tesouraço no Brasil. Mas, quando um dos Bolsonaros fala em corte, é preciso relembrar para não repetir”, afirma a campanha.
A crítica ganha força diante do próprio conteúdo do programa econômico de Flávio. O documento apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral prevê a redução de pelo menos dez ministérios, diminuição de cargos comissionados e despesas administrativas, reforma administrativa e limitação do crédito subsidiado pelo Tesouro. A proposta também estabelece uma regra de controle dos gastos discricionários dos três Poderes.
Cortes no Farmácia Popular. Minha Casa, Minha Vida. Mais Médicos. Combate ao câncer. Cisternas. Merenda escolar. Prevenção de desastres.
Quando um Bolsonaro fala em "tesouraço”, o Brasil sabe exatamente quem paga a conta. https://t.co/lGiS67cWzZ
— Lula (@LulaOficial) October 6, 2026
“Tesouraço” sem detalhamento sobre onde cortar
O principal problema da promessa de Flávio Bolsonaro está justamente na distância entre o discurso de um grande corte de despesas e a falta de detalhamento sobre quais gastos seriam efetivamente sacrificados.
A ideia de fazer um “corte profundo” e “por todos os lados” aparece como eixo da política fiscal apresentada pelo candidato. A equipe econômica chegou a mencionar uma redução de despesas equivalente a 1,5% do PIB, cerca de R$ 190 bilhões, embora esse valor não conste do programa registrado no TSE.
Ao mesmo tempo, o plano promete reduzir impostos “sobre quem produz”, um eufemismo para os mais ricos. As duas promessas colocam uma questão central no debate eleitoral: se haverá menos receita e um corte bilionário nas despesas, quais áreas serão preservadas e quais pagarão a conta?
Não basta afirmar que os programas sociais serão mantidos. Um programa como Farmácia Popular, por exemplo, depende de orçamento, rede de atendimento e financiamento público para alcançar milhões de brasileiros. O mesmo vale para habitação popular, saúde, educação, agricultura familiar e políticas de prevenção de desastres.
É nesse ponto que a campanha de Lula concentra sua crítica: o “tesouraço” é apresentado como uma operação técnica para equilibrar as contas, mas seus efeitos concretos dependerão das escolhas políticas feitas para alcançar a economia prometida.
O precedente do governo Bolsonaro
A campanha de Lula relembra o histórico da administração de Jair Bolsonaro para questionar a promessa de Flávio de preservar os programas sociais.
O material divulgado nesta terça-feira sustenta que políticas como Farmácia Popular, Minha Casa, Minha Vida e Mais Médicos perderam recursos ou foram reduzidas durante o governo anterior e que Lula recuperou ou ampliou essas iniciativas.
“Agora, Flávio Bolsonaro quer dar continuidade ao legado perverso do pai e cortar tudo aquilo que o povo reconquistou. Não deixe esse pesadelo voltar. Bolsonaros nunca mais”, afirma a peça.
Um projeto que privilegia o ajuste sobre a expansão das políticas públicas
O discurso do “tesouraço” coloca a disputa econômica do segundo turno em termos bastante claros. De um lado, Flávio apresenta a contenção de gastos, a redução da máquina pública e a revisão dos mecanismos de crédito subsidiado como instrumentos para estabilizar a dívida e buscar crescimento.
De outro, Lula procura transformar a discussão sobre o equilíbrio fiscal em uma pergunta sobre prioridades: que Estado o próximo governo pretende construir e quais direitos e serviços públicos estarão protegidos?
A questão é particularmente relevante porque cortes de despesas não atingem automaticamente todas as áreas da mesma maneira. Reduzir cargos administrativos, combater supersalários e eliminar desperdícios é diferente de reduzir investimentos, transferências, custeio de serviços de saúde ou programas de habitação.
Segundo turno coloca projetos frente a frente
A mudança de estratégia da campanha de Lula acompanha a nova configuração da eleição. Com apenas dois candidatos, a disputa passa a depender não apenas da capacidade de cada um de mobilizar seus eleitores, mas também da rejeição e da transferência de votos.
No último Datafolha antes do primeiro turno, Lula e Flávio apareciam empatados no índice de rejeição, com 45% dos entrevistados afirmando que não votariam de jeito nenhum em cada um deles.
Por isso, a campanha decidiu deixar em segundo plano uma comunicação concentrada exclusivamente nas realizações do governo e adotar um confronto mais direto com o adversário.
O “tesouraço” é uma das primeiras peças dessa nova etapa. A estratégia procura apresentar a eleição como uma escolha concreta entre dois projetos: de um lado, a continuidade de políticas sociais e de investimentos públicos; de outro, um programa que coloca no centro a redução de despesas e o encolhimento da estrutura estatal.
Para Lula, o alerta é direto: não se trata apenas de cortar gastos no papel. Trata-se de decidir quais políticas públicas serão preservadas quando chegar a hora de fazer os cortes.