
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) abriu uma investigação interna para apurar o possível vazamento de minutas de decisões ao advogado Willer Tomaz, ligado ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A Polícia Federal aponta que o escritório do advogado recebeu documentos do tribunal e pareceres do Ministério Público Federal antes de sua publicação.
O presidente do STJ, ministro Luis Felipe Salomão, determinou a abertura do procedimento na semana passada e exonerou um servidor investigado. O tribunal informou que as medidas criminais correm sob sigilo e que não comentará o caso.
O servidor afastado é Humberto Pradera, que ocupava a Secretaria de Tecnologia da Informação e Comunicação do STJ. Ele afirmou que não tinha acesso a processos em andamento, que suas permissões eram restritas e que não havia sido informado sobre a exoneração.
Segundo a investigação da PF, o escritório de Tomaz obtinha antecipadamente informações sobre o resultado de julgamentos, favoráveis ou desfavoráveis, e ajustava a estratégia processual. Entre as medidas adotadas estaria a desistência de recursos que já constavam na pauta do tribunal.

PF cita casos envolvendo construtoras e Weverton Rocha
Em uma ação sobre o terreno onde funcionava a antiga Academia de Tênis, em Brasília, o escritório teria recebido em 16 de setembro a minuta de um acórdão do STJ que só recebeu assinatura dois dias depois. O processo envolve uma disputa de herdeiros com construtoras por R$ 176,4 milhões.
Tomaz atua para a Attos Empreendimentos Imobiliários e a HC Incorporadora nesse caso. Antes da decisão do STJ, as empresas desistiram de um recurso que já aguardava julgamento.
A PF também cita uma ação do senador Weverton Rocha (PDT-MA), cliente de Tomaz, contra a Editora Abril por danos morais. Na noite anterior à sessão da Quarta Turma do STJ, em setembro de 2025, Weverton e a editora protocolaram pedidos de desistência de seus recursos.
Outro interlocutor apontado na apuração é o procurador aposentado Antônio Carlos Simões Soares, suspeito de repassar informações sigilosas e de combinar o conteúdo de pareceres do MPF com o advogado. Ex-subprocurador-geral da República, Soares se aposentou em março e não se manifestou.
Tomaz negou “categoricamente” ter obtido acesso irregular a decisões ou pareceres sigilosos e afirmou que sua atuação sempre seguiu meios institucionais e processuais legítimos. A PF elencou sete casos nos quais Soares teria antecipado ou moldado pareceres do MPF em benefício dos interesses do advogado; o material seguirá ao Ministério Público para manifestação sobre o foro competente após a aposentadoria do procurador.