Eleitor nem-nem: você decidirá o destino do Brasil!, por Marcio Valley
O presente artigo não possui a mínima pretensão de furar bolhas políticas.
Os eleitores da extrema direita, cerca de 30% do eleitorado, dificilmente mudarão de voto no segundo turno. Tratam-se de votos fossilizados, mineralizados, inflexíveis, de pessoas que se tornaram incapazes de responder a qualquer estímulo externo ao bolsonarismo.
Os de esquerda, também em torno de 30% dos eleitores, em geral são pessoas com muita conscientização política e de classe, que sabem bem os motivos de sua escolha.
Essas bolhas permanecerão onde estão.
O intuito aqui é atingir o eleitor que chamarei, não pejorativamente, de nem-nem: aquele que não se identifica nem com a esquerda nem com a extrema-direita bolsonarista.
Trata-se do eleitor da direita verdadeira, de centro, indeciso ou apolítico. Essa massa de eleitores soma aproximadamente 40% do eleitorado e ainda é capaz de refletir sem paixão, usando a racionalidade, e de produzir uma expectativa de futuro a partir da qual decidirão.
Torço para que esse eleitor, até domingo, dia 25 de outubro de 2026, reflita pesadamente antes de consolidar em voto ou abstenção o que, até agora, permanece no campo de uma mera intenção irrefletida que tomou, não a partir do uso crítico da razão e da lógica, mas no calor da emoção provocada pela raiva e pela frustração, sempre péssimos conselheiros na orientação de caminhos mais seguros.
A valoração de toda e qualquer necessidade humana passa por altíssima subjetividade e depende da ocasião. Ninguém dá muito valor a um copo d´água no conforto da própria casa, mas daria essa mesma casa em troca de um copo d´água se estivesse à beira da morte, sedento, no deserto. Meu desejo é que o eleitor neutro produza profunda reflexão e perceba o valor daquilo que possui hoje, para que amanhã não corra o risco de ter que renunciar a algo muito mais valioso para obter coisas simples que agora parecem tão banais.
O segundo turno da eleição brasileira de 2026 significa muito mais do que uma disputa entre um candidato que representa a centro-esquerda, Lula, contra outro que age em nome da extrema-direita, o filho de Bolsonaro, que doravante chamarei de “Bolsonarinho” para distingui-lo do progenitor.
De modo nenhum é uma escolha entre dois candidatos que representam mais do mesmo. Nenhum dos dois é mais do “mesmo”. Lula, com todas as dificuldades impostas pelo exercício da política democrática, tentou e tenta, nos três governos em que esteve à frente, reduzir a dimensão maligna do “mesmo”; o outro, que se apresenta aos eleitores não pelo próprio valor, mas na condição de herdeiro político de Bolsonaro, tem como projeto o prosseguimento do governo do pai, ou seja, algo muito pior do que o “mesmo”.
O eleitor neutro pode até entender, talvez com certa razão, que Lula representa o tipo de política costumeira em relação a qual se acostumou a odiar. Existem razões institucionais, culturais e legais, que se sobrepõem à vontade de partidos e pessoas, para que a política seja exercida como é, ou seja, dependendo de conchavos e formação de balcões de negócios. A luta deve ser pela mudança dessas regras legais. Mas, isso é outra história, outra luta e deve ser pautada em outro momento.
O outro candidato, porém, lutará para tornar realidade um cenário de malignidade coletiva que, tenho certeza, você nunca pensou que testemunharia. Se isso ocorrer, tenho convicção de que muitos sentirão saudades da política tradicional que odiavam. Creia-me, falo por experiência própria. A política praticada nos últimos dez anos, a partir da ascensão da extrema-direita, fez-me ver com outros olhos algumas personalidades tradicionais da direita pelos quais eu nutria a mais profunda ojeriza; hoje, chego quase a apreciar certas ideias e pensamentos de alguns deles. Quase…
É a velha história: nada é tão ruim que não possa piorar e sempre pode existir um alçapão no fundo do poço.
Tenham se dado conta disso ou não, é bem provável que, no dia do segundo turno da eleição, os eleitores que comparecerem à urna nela depositarão o voto mais importante de toda a sua vida. Talvez seja mesmo a decisão mais profunda, não de sua vida até aqui, mas de tudo o que o eleitor já fez e ainda fará. Estou sendo dramático porque a situação é dramática, exista ou não consciência coletiva sobre isso.
A depender do resultado da eleição, o Brasil pode dar uma guinada de 180 graus em todos os aspectos da vida particular e pública de cada um dos cidadãos brasileiros, modificando contextos de vida que todos considerávamos consolidados em termos de legislação, moral, costumes, religião, economia e por aí vai.
E não se tratam de mudanças como outras quaisquer que ocorrem em trocas de turno da governança. Dependendo de quem vença, são mudanças que podem perdurar por décadas. Preste bem atenção: por décadas! Dependendo da escolha feita, pode ser que, em grande medida, os eleitores não sejam capazes de voltar atrás nas próximas talvez 20 eleições ou 40 anos. Isso não é exagero, paranoia ou terrorismo. O próximo presidente poderá indicar, no mínimo três e talvez até oito novos ministros do Supremo, a depender do desenrolar do Caso Master. Caso o novo presidente, mal-intencionado, indique somente ministros terrivelmente evangélicos, conservadores e moralistas com 35 anos de idade, eles permanecerão no STF por 40 anos, considerando que a idade de aposentadoria compulsória se dá aos 75 anos.
Tenho certeza de que nenhuma pessoa não bolsonarista deixe de temer perante a possibilidade de um STF com maioria moralista por até 40 anos. É algo aterrador. Caso deseje um pouco mais de informações sobre o tema, leia aqui.
Será um STF que interpretará o texto constitucional, inexoravelmente, em todo e qualquer julgamento, no sentido de ser contra o povo no que concerne a direitos básicos como aposentadoria, liberdades fundamentais e tantos outros.
Pelo que observo em conversas com pessoas conhecidas, reportagens da imprensa tradicional e da alternativa, noticiários da TV ou comentários dos populares na internet, praticamente ninguém está se dando conta da dimensão e malignidade do que poderá nos ocorrer a partir do dia 25 de outubro. Pode ser cautela, para evitar pânico ou enquadramento como teórico da conspiração, mas penso que tal receio não deve inibir que os eleitores sejam alertados para o perigo que paira sobre o Brasil e, portanto, sobre eles próprios.
O fato é que os valores em jogo são tão disparatados em relação a cada um dos candidatos que merecem de todos nós uma profunda reflexão antes da tomada de decisão definitiva, antes de confirmar o voto na urna. Se ainda assim, a tragédia ocorrer, será com plena consciência daqueles que por ela optarem.
E quais seriam esses valores? A resposta exige que o eleitor neutro esteja honestamente disposto a buscar a verdade e não somente a lutar para a prevalência da narrativa que transita em determinada bolha de opiniões. O crítico tem que estar comprometido com a busca pela verdade. Ainda que se considere que “verdade” seja uma palavra polissêmica e sujeita a subjetividades, deve ser perseguida, seja qual for o resultado, com honestidade intelectual. O eleitor não deve e não pode deixar que qualquer paixão, sempre irracional, tome conta de seu ânimo no ato de buscar a verdade e votar segundo essa verdade.
O exercício cívico do voto não pode ser equiparado a um Fla x Flu, cujo resultado não possui impacto real algum na vida dos cidadãos. Diferente disso, a depender da escolha feita pelo povo, a eleição poderá produzir impacto negativo, e muito. Pior ainda: nessa específica eleição, como tentarei demonstrar, as consequências diretas em seu emprego, em sua renda e em suas condições de vida e na de sua família e amigos podem durar muitos e muitos anos. Dependendo de sua idade, podem durar mais do que você mesmo e talvez até do que seu filho.
O eleitor precisa se aprofundar na pesquisa sobre os candidatos, tentando encontrar publicações que, em princípio, representem terreno neutro em relação às candidaturas. Agindo assim, saberá avaliar a dimensão do que está em jogo, depositando o voto ou se abstendo, mas de forma soberana e consciente quanto às possibilidades concretas de futuro.
Como dito antes, o tom é trágico porque a situação é trágica, ao menos ao meu ver.
Existem determinadas situações nas quais o ser humano não deve ficar preso ao orgulho, ao ego, a tudo que ele mesmo disse ou escreveu. A mudança de atitude por conta da superveniência de uma nova situação, do surgimento de uma emergência a exigir uma ação impensável até aquele momento, representa um traço evolutivo da inteligência adaptativa necessária à sobrevivência do ser humano e do seu grupo. Foi o que nos trouxe até aqui, desde a savana. O ser humano inteligente, quando premido pela realidade, pensa melhor e sobrevive; muda de opinião e sobrevive; escolhe a opção menos pior e sobrevive.
Há muito em jogo nessa eleição para que deixemos a vaidade e o ego prevalecerem sobre a razão. Isso seria suprema estupidez, pois seremos nós mesmos, nossa família e nossos amigos a suportarem todos os ônus decorrentes de uma eventual opção equivocada. Devemos saber identificar os verdadeiros valores em disputa capazes de atingir o comportamento coletivo e a economia política, ou seja, em outras palavras, atingir todos nós.
Por fim, entendo que uma eventual mudança de voto pode e deve ser silenciosa, realizada lá na cabine eleitoral, presentes somente o eleitor e a urna. Naquele cubículo solitário, todos estão livres para votar no que de fato entendam como o melhor caminho a ser percorrido para a própria vida boa e a para a vida boa das pessoas que ama. Caso entenda necessário, saia da cabine afirmando aos conhecidos um voto contrário ao real, sem problema. Isso não é exatamente desonestidade, mas uma forma admissível de manter sigilo para evitar problemas com amigos e parentes. É como quando a esposa, arrumada para sair e exibindo um lindo sorriso nos lábios, pergunta ao marido o que ele achou do vestido e como ela está. Tenha certeza, não há opção. Aquele sorriso já diz o que ela pensa sobre si mesma: ela está linda! Não há porque frustrá-la. O marido deve apenas confirmar o que aquele sorriso deixa explícito, pouco importando que ache o vestido esquisito e a maquiagem exagerada. Não é desonestidade, é vontade superior de produzir paz e felicidade do casal. Em casos assim, o bom objetivo importa mais do que uma sinceridade grosseira e negativa.
Os posicionamentos políticos, sociais e econômicos dos dois candidatos são amplamente conhecidos e divulgados, constituindo fatos que possivelmente já são do seu conhecimento, ao menos na superfície.
A partir desses posicionamentos, o eleitor pode facilmente verificar que os projetos políticos são diametralmente opostos e produzirão agendas governamentais com igual distanciamento nos resultados.
Você precisa se aprofundar um pouco para ter ciência do grau de elasticidade que há entre os extremos desses resultados. É muita coisa, tenha certeza.
Trata-se de um jogo no qual o vitorioso produzirá valores coletivos que definirão a vida de cada um nos próximos anos. Quando se fala em “vida de cada um” não se está utilizando um lugar-comum vazio. Por vezes não nos damos conta, mas a vida é extremamente frágil. Quatro minutos sem ar: morte. Quatro dias sem água: morte. Quatro semanas sem alimento: morte. Ou seja, não há necessidade de que transcorram anos de priorização estatal equivocada de valores para que alguém morra de fome; basta um mês após o fim do estoque de alimentos na despensa da casa e falta total de renda de qualquer espécie para novas compras. Perceba: basta um mês sem renda oriunda de trabalho, programa governamental, doações de amigos e parentes, furto ou roubo e a pessoa está morta, junto com sua família.
Sim, mencionei furto e roubo como fontes de renda pois, embora ilegais, são mecanismos comumente utilizados pelo ser humano, durante toda a história conhecida, para sobreviver à míngua de trabalho. Isso, inclusive, deve ser considerado pelo eleitor como fator de aumento da criminalidade caso o projeto neoliberal, como na Argentina, provoque fome em massa.
É intuitivo: todo e qualquer animal se torna menos agressivo quando já possui abrigo e alimento garantido; isso serve para leões, formigas e seres humanos. Em outras palavras, o ser humano age com mais gentileza, portanto com menos agressividade, com vizinhos e estranhos quando ele e sua família estão abrigados e alimentados. Não importa se abrigo, alimento e educação são obtidos por renda própria ou através de programa governamental; o efeito será o mesmo.
Por outro lado, para equilibrar a balança, lembre-se que não são somente pobres a lançar mão de ilícitos para conseguir bens. Grilagem de terras e redução de alguém à condição análoga à de escravo, ações que atentam contra o bem comum e a dignidade do ser humano, são exemplos de ilícitos praticados por pessoas privilegiadas; existem outros exemplos mas não cabem aqui. A diferença axiológica evidente e crucial, ao meu ver, é que, via de regra, os pobres agem por desespero, objetivando bens imprescindíveis à própria sobrevivência e da família, enquanto os privilegiados visam meramente aumentar o patrimônio.
Aliás, por falar na Argentina, a quantidade de suicídios e de tentativas de suicídio naquele país bateu recorde histórico em 2025, com mais de 16 mil casos, a maioria de homens de 13 a 34 anos, tendo como motivo a depressão em decorrência de desemprego e falta de renda.
É exatamente o que nos espera, caso vença o neoliberalismo.
Porém, resta indagar: é possível prever as ações governamentais do candidato que escolhi, caso vença as eleições? A resposta simplória e imediata é: sim, isso é plenamente possível a partir da análise das ações e falas produzidas pelo candidato no passado. Nesse caso, o passado indica claramente o futuro.
Um ponto a ser entendido é que o futuro é sempre uma incógnita, sujeito a variações imponderáveis decorrentes de fatores exógenos às intenções do governante. Assim, um presidente eleito que tenha ótimas intenções poderá não conseguir alcançar os resultados que desejava não porque não quis, mas porque não pôde, seja em virtude de uma crise econômica mundial avassaladora, uma guerra de proporções épicas, uma gigantesca epidemia e outros fatores estranhos à vontade. Todavia, quando fazemos previsões não se deve levar nada disso em consideração. Previsões são feitas em regime de normalidade institucional, econômica e geopolítica, pois o imponderável, como a própria palavra define, não pode ser ponderado.
A análise do candidato, assim, deve partir de considerações sobre suas próprias palavras e atitudes. Todavia, nem discursos de campanha nem programas de governo são capazes de, verdadeiramente, indicar como seria o governo do candidato, caso eleito. Como você, (e)leitor, obviamente sabe, parte considerável dos candidatos mente, distorce ou disfarça a verdade para obtenção fraudulenta do voto do eleitor.
Discursos e programas de fato são importantes para essa análise, desde que não sejam os proferidos a partir da pretensão à candidatura ou em campanha. A partir desses momentos, a vontade de vencer prevalece sobre a sinceridade e sobre a verdade.
Portanto, deve-se focar nas falas e programas que candidato e respectivo partido defendiam muito antes da eleição, quando não estavam premidos pela necessidade de serem simpáticos às necessidades do eleitor para a conquista do voto.
Existem políticos que passam a vida defendendo um determinado projeto e, durante a campanha, percebendo o impacto negativo que esse projeto pode ter na vida dos eleitores, mentem ou são evasivos ao falarem sobre ele. Dizem, por exemplo, que tal direito, contra o qual sempre se manifestaram, será mantido. Abra seus olhos. Seja mais esperto do que o candidato. O direito será cortado ou reduzido ao mínimo possível, porque foi isso o que esse candidato defendeu durante anos; ele não mudou de opinião, apenas se viu obrigado a dizer o contrário, sem ênfase, a partir da pretensão à candidatura e nos meses da campanha, na luta pelo voto.
Na verdade, a opinião consolidada pelos políticos ao longo dos anos dificilmente pode mudar após serem eleitos, pois essa opinião os vinculou a uma pletora de interesses que transcendem sua mera vontade individual. Por isso, veem-se obrigados a cumprir a agenda de projetos políticos ao qual se filiaram por longos anos e é aguardada por seus financiadores, apoiadores e correligionários. Por outro lado, seus eleitores esperam coerência do candidato a partir de tudo o que sempre defendeu. Qualquer desvio significativo em suas ações políticas será lida como traição e isso é fatal para qualquer pessoa pública.
Em outras palavras: após eleito, o candidato não fará o que prometeu em campanha; fará exatamente o que sempre falou que faria; talvez até desfaça algo que tenha feito durante a campanha para tranquilizar os tolos, como votar a favor de um direito dos trabalhadores em relação ao qual se posicionou ampla e publicamente de forma contrária, como, p.ex., o fim da escala 6×1.
Como dito, a próxima eleição não significa somente uma disputa entre candidatos de direita e de esquerda. A disputa real, o que você de fato escolherá, se dará entre os valores essenciais que podem advir de dois projetos políticos consolidados durante vários anos de discursos dos candidatos em disputa, antes de serem candidatos. São projetos distintos, inconciliáveis, e, obviamente, capazes de produzir resultados abissalmente diferentes.
No aspecto da economia, a escolha girará em torno de dois projetos econômicos: o neoliberalismo e o desenvolvimentismo.
Bolsonarinho representa o neoliberalismo, com ênfase no exemplo de Milei, na Argentina. Neoliberalismo, como o próprio nome sugere, é uma ressurgência dos valores liberais que dominavam o cenário político e social do início da Revolução Industrial. Defende, em tese, uma redução drástica do tamanho do Estado e da intervenção estatal na economia, o que implica limitação da atuação estatal àquelas ações essenciais que não sejam possíveis de serem realizadas pela iniciativa privada. Para atingir esse objetivo, o governo neoliberal (1) reduzirá ao máximo os gastos públicos, inclusive em áreas sensíveis, como educação e saúde, já que podem ser realizadas pela iniciativa privada; e (2) privatizará ao máximo as empresas estatais, se possível todas, o que inclui as que exercem atividades estratégicas, como exploração, beneficiamento e industrialização de riquezas minerais.
É preciso pontuar que, no paroxismo, o liberalismo econômico admite jornadas exaustivas de até 16 horas e mesmo a escravidão, como já admitiu no passado. Aliás, não precisamos investigar o passado, o senador eleito em 2016, Mauro Mendes, de direita, não perdeu tempo em defender publicamente a legalização de jornadas de até 16 horas. Nem assumiu e já disse a que veio.
Não vou entrar em mais detalhes, basta pesquisar o que está ocorrendo na Argentina, pois ela é o exemplo público do modo de gestão econômica neoliberal que será implementada pela aprendiz de Paulo Guedes que assessora Bolsonarinho.
Apenas destaco que, na Argentina, o desemprego e a fome estão estilhaçando o país. Os tolos comemoram a redução da inflação, quando a ausência de demanda, inclusive compras de coisas essenciais como alimentos, impede a inflação; comemoram a redução da dívida pública, quando o governo simplesmente deixou de pagar suas dívidas e de cumprir sua agenda social com educação e saúde, p.ex.. Qualquer um que deixe de pagar o aluguel, o condomínio, as contas de luz e água, os impostos e o cartão de crédito, imediatamente sentirá alívio financeiro em sua conta bancária. Todos sabemos como essa brincadeira termina…
Viva a ausência de inflação e a redução da dívida pública. E quem não tem escola, está doente ou à beira de morrer de fome? Ema, ema, ema cada um que resolva seu problema, cantarão em coro Milei e os Bolsonaros. Ou seja, “cada um por si”.
Contudo, a sociedade humana existe para a ajuda mútua entre seus indivíduos. Um agrupamento humano caracterizado pelo aforismo “cada um por si” não representa uma sociedade humana, sendo inferior até mesmo a um bando de leões ou alcateia de lobos, no qual todos os integrantes comem independentemente de terem participado da caça. Em agrupamentos animais do tipo duro “cada um por si”, os indivíduos menos favorecidos normalmente atacarão a caça que está na boca dos mais favorecidos. Portanto, optar por uma sociedade do tipo “cada um por si” é possível, mas com ciência prévia de que haverá incremento nos assaltos à propriedade privada.
Isso não é concordância, mas pura constatação.
Lula, por sua vez, persegue o desenvolvimentismo, com reindustrialização do país. Nesse modelo, há participação importante, essencial, do estado na condução da política econômica, privilegiando-se a melhoria da infraestrutura e o crescimento da produção industrial, com redução da importância da exportação de commodities e favorecimento dos setores de beneficiamento e transformação, criando condições, por conta de tudo isso, para o crescimento do consumo interno e acréscimo no valor agregado dos produtos exportados.
É importante perceber que, no modelo desenvolvimentista, tanto o dono da fábrica como o trabalhador são beneficiados pela política econômica, pois o crescimento da produção resulta em oferta de empregos, melhoria na renda e aumento do consumo, o que faz a roda girar novamente.
O alvo final do modelo desenvolvimentista é a social-democracia ao estilo nórdico, com redução da desigualdade social e opção pelo desenvolvimento do ser humano, algo que o escritor e economista Tim Jackson denomina “florescimento individual”.
No que toca à pauta de costumes, Bolsonarinho, superliberal na economia, representa o que há de mais sórdido em termos de conservadorismo religioso e moralista. No limite, e com maioria no Senado e no STF, isso pode significar a “afeganistização” do Brasil, produzindo coisas indizíveis. O excesso opressor moralista certamente alcançará todas as questões que envolvem a homoafetividade; o exercício da sexualidade em geral; negação da identidade transgênero; perseguição de outras crenças e religiões (o que já está ocorrendo); reprovação moral da vítima do estupro maior do que a do estuprador; uso de drogas; prostituição; aborto e tantas outras.
Saliente-se que esse excesso moralista via de regra assenta bases sólidas na hipocrisia. Uma imensa quantidade desses autoproclamados “conservadores” frequentemente são flagrados em relações homossexuais, adultério, utilizando serviços de prostitutas, usando drogas ou na prática do aborto. Condenam publicamente nas outras pessoas o que fazem às escondidas.
Lula, pelo contrário, sempre esteve vocacionado ao progressismo e consequente liberdade individual na tomada de decisões sobre o próprio corpo e sexualidade. Essa é uma bandeira típica da esquerda reconhecida pela extrema-direita, que apelidou o governo de Lula de “governo do amor”, buscando imprimir sarcasmo ao que na verdade é amargura.
Quanto à dimensão da democracia, a família Bolsonaro, inclusive o filho escolhido como candidato, já demonstrou não ter apreço algum pelo tema. São contumazes em lançar dúvidas sobre o resultado das urnas. Não respeitam decisões judiciais. Quando foram governo, puniram estados e municípios governados por adversários políticos com cortes de verbas. Querem reduzir ao máximo o poder do STF como instituição responsável pelo sistema democrático de freios e contrapesos, assim podendo pôr em prática os projetos políticos mais abusivos, como bem entenderem, sem serem freados pela Corte Suprema.
No campo da geopolítica, Bolsonarinho pretende, em essência, aderir ao unilateralismo estadunidense, afastando-se da China e dos Brics. Bolsonarinho entende melhor para o Brasil, um país periférico e sem poder militar dissuasório, uma aliança quase absoluta aos EUA, a maior economia e potência militar do mundo, que está se pautando pelo unilateralismo, ou seja, lei do mais forte (no caso, eles), com entrega da administração de nossas riquezas para empresários estadunidenses.
Lula representa o multilateralismo e, embora hoje a China seja o maior destino de nossas exportações, busca pulverizar nosso comércio internacional entre vários parceiros econômicos, a fim de que o Brasil não se veja refém de nenhum deles.
Por fim, saliento que não adentrarei a fundo no tema da corrupção. Qualquer pessoa minimamente inteligente e antenada percebe que a corrupção é estrutural, presente em todo e qualquer governo desde Cabral. A escandalização da corrupção, sempre em governos de esquerda, atende a interesses inconfessáveis, beneficia os próprios corruptos. Sim, quando um governo não impede investigações e prisões, a corrupção fica em evidência, vira manchete diária e a primeira vítima é o próprio governo republicano que possibilita as investigações. A derrubada desse governo cessa as investigações e o ciclo recomeça.
Os governos FHC, Temer e Bolsonaro não tiveram muitas notícias de corrupção pelo simples fato de que praticamente não existiram investigações aprofundadas.
Investigue os patrimônios de Lula e dos Bolsonaros. Fica evidente quem de fato enriqueceu com a política. Sobre isso, falo um pouco mais aqui.
Não vou prolongar mais.
Parafraseando Urariano Mota, articulista do GGN que recomendo, devo concluir aqui porque texto grande ninguém lê e, se minhas palavras não são lidas, como podem encantar? Quanto a isso, tenho muito a aprender, obrigado, Urariano!
Além de tudo o que foi dito ou sugerido, pesquise também os índices dos governos Lula e Bolsonaro. Inflação, salário, emprego, dólar, etc. Constate que praticamente todos foram melhores nos governos Lula.
Meu desejo é que esse texto venha a conduzir o eleitor neutro a refletir um pouco mais sobre o que fará no dia da eleição. Se isso ocorrer, pelo menos para essas pessoas que perceberam aqui alguma importância para a reflexão, talvez então, apenas talvez, esse texto tenha o valor simbólico de um copo d’água de razão no deserto estéril de racionalidade que vem se revelando ser essa eleição.
Caso não seja assim, paciência. Pelo menos terei tentado. Será menor a culpa futura decorrente da omissão em relatar o que penso pode vir a ocorrer no pior dos cenários.
A partir de agora, a bola está contigo, eleitor nem-nem. O seu destino está em suas mãos e, junto com ele, o de todos os brasileiros.
Boa sorte, boa eleição e boa escolha! Que o destino nos seja suave!
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