A sabatina de Flávio Bolsonaro (PL) na TV Globo, nesta sexta-feira (16), foi marcada menos pelas respostas do candidato do que pelas tentativas de escapar das perguntas. Ao longo da entrevista conduzida por Renata Lo Prete, Flávio desviou de temas incômodos, repetiu acusações sem comprovação contra Lula e apresentou informações falsas ou distorcidas sobre economia, segurança, meio ambiente e políticas sociais.
Algumas das principais afirmações feitas pelo candidato foram classificadas como fake news pela apuração de diversos veículos de imprensa, ou como distorções convenientes outras declarações que, embora partissem de dados reais, foram apresentadas de maneira enganosa ou sem o contexto necessário.
Um dos momentos mais reveladores ocorreu quando Flávio foi questionado sobre os recursos negociados com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro. O candidato afirmou que a produtora havia prestado contas de tudo.
A informação é falsa, pois o documento apresentado pela produtora não traz informações sobre a origem dos recursos, notas fiscais, recibos que comprovem os gastos do dinheiro repassado por Vorcaro ou comprovantes das transferências bancárias. O ex-banqueiro chegou a pagar R$ 61 milhões aos produtores.
Flávio também classificou a operação como um “pedido de patrocínio privado” e afirmou que não houve contrapartida política. A investigação, porém, apura justamente a origem, a circulação e o destino dos recursos, além da possibilidade de que o dinheiro tenha sido transferido em troca de vantagens.
Fake news como estratégia de fuga
Em vez de responder diretamente sobre o dinheiro de Vorcaro, Flávio tentou deslocar o foco para Lula. Repetiu acusações publicadas pela revista Veja sobre um suposto pagamento do ex-banqueiro para o documentário sobre o presidente dirigido por Oliver Stone.
Renata Lo Prete interrompeu o candidato e advertiu que a acusação não tinha sustentação documental. A Polícia Federal já havia negado que Vorcaro tivesse prestado o depoimento atribuído a ele pela revista, enquanto a defesa do ex-banqueiro também afirmou desconhecer a origem e a autenticidade do material.
Mesmo advertido, Flávio voltou ao assunto e tentou apresentar a acusação como fato confirmado pelas autoridades.
A estratégia se repetiu quando o candidato foi questionado sobre o financiamento de Dark Horse. Flávio citou ainda antigos episódios envolvendo o PT e comparou o dinheiro recebido para o filme com contratos comerciais do Banco Master com a Globo.
A comparação foi contestada pela entrevistadora: contratos publicitários são relações comerciais formalizadas, enquanto as circunstâncias do dinheiro destinado ao filme de Jair Bolsonaro estão sob investigação.
A diferença também aparece nos valores. Flávio negociou aproximadamente R$ 134 milhões com Vorcaro, enquanto uma perícia citada na apuração estimou em R$ 75,1 milhões o custo do filme. O caminho dos recursos que efetivamente chegaram à produção permanece sob investigação.
A lista de informações falsas e distorcidas
O episódio de Dark Horse não foi isolado. Durante a entrevista, Flávio fez uma série de afirmações classificadas como falsas.
Ao falar sobre o 8 de Janeiro, afirmou que não havia armas nos ataques. No entanto, imagens de perícia, documentos da Procuradoria-Geral da República e o relatório da CPMI do 8 de Janeiro registram o uso de armas brancas e artefatos improvisados pelos invasores.
Flávio também afirmou que o governo Lula seria responsável pelo maior número de queimadas da história na Amazônia. A afirmação é falsa. Os dados do Inpe mostram que os maiores números da série histórica ocorreram principalmente nos anos 2000. Em 2025, a Amazônia registrou o menor número de focos desde o início da série, em 1998.
Outra afirmação tratou da taxa básica de juros. Flávio comparou a Selic atual com uma projeção do Boletim Focus feita em 2022, como se a previsão representasse uma promessa ou uma taxa que deveria necessariamente estar vigente hoje. As projeções do Focus são expectativas de instituições financeiras e podem mudar ao longo do tempo.
O candidato também atribuiu a Bolsonaro sozinho a elevação do Bolsa Família de cerca de R$ 190 para R$ 600. Embora o governo Bolsonaro tenha resistido à elevação do benefício, o aumento para R$ 600 foi estabelecido por emenda constitucional aprovada pelo Congresso.
Quando a pergunta exigia resposta, veio o desvio
A entrevista também evidenciou a dificuldade do candidato em responder diretamente a questões sobre suas próprias propostas.
Questionado sobre a retirada da identificação das munições das forças de segurança, Flávio não explicou de que maneira a medida ajudaria no combate ao crime organizado. Em vez disso, passou a falar de endurecimento de penas, fronteiras e câmeras com inteligência artificial.
Diante da insistência da jornalista, resumiu a questão a um “detalhezinho”. A jornalista encerrou a cobrança: “Candidato, eu entendi que fiquei sem resposta sobre a questão de retirar a marcação das munições”.
O mesmo padrão apareceu quando foi perguntado sobre o 8 de Janeiro. Flávio começou falando sobre punições, mas rapidamente mudou de assunto para acusar Lula de prejudicar motoboys de São Paulo por causa de uma suposta disputa política com o prefeito Ricardo Nunes.
A autorização para a chamada Faixa Azul depende de avaliação técnica federal, e o governo Lula já havia autorizado novos trechos do projeto durante a gestão de Nunes. Em 2026, o pedido de ampliação permanecia em análise técnica.
O candidato ainda foi questionado sobre a possibilidade de nomear Jair Bolsonaro para um cargo em eventual governo. Em vez de responder objetivamente, afirmou que não havia conversado sobre o assunto. Diante da insistência, disse que uma nomeação não estava “no radar”, sem descartar categoricamente a hipótese.
Promessas com números fora do lugar
Flávio também apresentou como solução imediata para suas promessas fiscais receitas que não estariam disponíveis no início de um eventual governo.
Ao defender um ajuste superior a R$ 200 bilhões sem cortar aposentadorias ou os pisos constitucionais de saúde e educação, citou a exploração de petróleo na Margem Equatorial como fonte de R$ 100 bilhões “de largada”.
A própria entrevista mostrou o problema: segundo informações da Petrobras, uma eventual produção na região não começaria antes de 2033. Portanto, não seria uma receita disponível para financiar as contas públicas nos primeiros anos de um eventual governo Flávio.
O candidato também negou defender a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil e da Caixa, atribuindo a informação a uma campanha de desinformação de adversários. A afirmação entra em contradição com declarações anteriores, nas quais ele próprio defendeu a privatização da Petrobras.
O método: responder ao que interessa, não ao que foi perguntado
A sequência da sabatina deixou evidente um método recorrente: diante de perguntas sobre fatos ou propostas que exigiam explicações concretas, Flávio procurava introduzir outro assunto, atacar Lula ou recuperar acusações contra o PT.
Em determinado momento, depois de ser perguntado se respeitaria o resultado das urnas caso fosse derrotado, o candidato respondeu que sim, mas aproveitou o tempo para fazer uma longa lista de ataques ao governo. Ao retomar a palavra, Renata perguntou novamente pela resposta. Flávio brincou: “Respondi, aproveitei pra falar mais umas coisinhas”.
“É, eu percebi”, respondeu a jornalista.
A frase resumiu o principal problema da entrevista. Flávio não apenas deixou perguntas sem resposta: em vários momentos, tentou preencher o espaço deixado pelas respostas com acusações contra o adversário.
O resultado foi uma sabatina em que a checagem dos fatos se tornou parte essencial da própria entrevista. Entre números fora de contexto, afirmações falsas e acusações sem comprovação, o candidato do PL precisou ser repetidamente reconduzido ao tema original — enquanto Renata Lo Prete interrompia para impedir que alegações não comprovadas fossem apresentadas como fatos.