
A Meta, alvo de acusações de favorecer Flávio Bolsonaro (PL) e restringir conteúdos da campanha de Lula (PT), é a empresa que mais recebeu pagamentos diretos de candidaturas nas eleições brasileiras de 2026. A Facebook Serviços Online do Brasil, responsável pelas operações do grupo no país, recebeu R$ 282,4 milhões, segundo despesas declaradas à Justiça Eleitoral até quarta-feira (14). A companhia nega interferência política na disputa.
O levantamento foi publicado por Bruno Ribeiro, da Folha de S.Paulo, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e abrange pagamentos desde o início da campanha, em agosto. Os números ainda são parciais e podem aumentar com a atualização das prestações de contas.
Além dos repasses diretos à Meta, as candidaturas declararam R$ 99 milhões pagos à DLocal, empresa de pagamentos que intermedeia despesas de impulsionamento nas plataformas do grupo. Esse valor está registrado em nome da intermediária e não representa, automaticamente, receita integral da Meta. A terceira colocada entre os fornecedores é a Delta3 Comunicação, de Raul Rabelo, que trabalha para Lula, com R$ 31 milhões.

Flávio lidera os pagamentos diretos ao Facebook: declarou 13 operações entre 8 e 30 de setembro, que somaram R$ 7,5 milhões. Lula aparece em seguida, com R$ 2,6 milhões, e Fernando Haddad (PT), derrotado na disputa pelo governo de São Paulo, registrou R$ 2,5 milhões. Tarcísio de Freitas (Republicanos) declarou à DLocal um valor equivalente ao de Haddad para impulsionar conteúdos.
O serviço permite pagar para ampliar a circulação de publicações e direcioná-las a públicos específicos. Segundo a Biblioteca de Anúncios consultada pela Folha, Flávio gastou entre R$ 60 mil e R$ 70 mil para promover um vídeo em que Tarcísio pede votos para ele. Lula destinou entre R$ 15 mil e R$ 20 mil a uma publicação que contrapõe uma criança com arma durante uma comemoração bolsonarista a outra segurando a Constituição.
A liderança financeira da empresa ocorre enquanto sua atuação eleitoral é questionada pelo PT, por pesquisadores e por entidades civis. A campanha de Lula relata bloqueios e falhas na entrega de publicidade contratada. Também apontou tratamento desigual da Meta AI, que recusava pedidos de imagens relacionados ao presidente enquanto atendia a solicitações sobre Flávio. A quantidade de dinheiro paga por cada candidatura, por si só, não demonstra favorecimento na distribuição de conteúdo.
Nesta sexta-feira (16), o TSE confirmou por unanimidade a decisão de Marco Aurélio Bellizze que exige tratamento igualitário às duas candidaturas, sob multa diária de R$ 500 mil. A ordem inclui a reposição, até 21 de outubro, de impulsionamentos contratados pela campanha de Lula e não entregues. O relator ressaltou que não está comprovada manipulação proposital da plataforma e atribuiu caráter preventivo às medidas.
Procurada pela Folha sobre os valores recebidos e as suspeitas, a Meta não quis comentar. Em comunicado divulgado nesta sexta, negou tomar partido na eleição e atribuiu os problemas a incidentes técnicos. A empresa reconheceu que a conta de anúncios de Lula foi desabilitada por engano e afirmou que falhas afetaram as duas campanhas. Também disse ter corrigido a lacuna na inteligência artificial que permitia gerar materiais eleitorais.