Sakamoto: Voto ‘dupla face’ sobre fim da 6×1 torna Flávio cabo eleitoral de Lula

Flávio Bolsonaro
O candidato a presidência Flávio Bolsonaro (PL). Foto: Sergio Lima/AFP

Por Leonardo Sakamoto, via UOL

Durante meses, Flávio Bolsonaro tratou o fim da escala 6×1 como se fosse truque de mágica em festa infantil. Classificou a proposta apoiada por Lula como “oportunista” e acusou o presidente de explorar o tema eleitoralmente. Até a semana passada, evitava se posicionar e chegou a comparar a PEC a uma promessa fantasiosa do petista. Ou seja, para o senador, dar ao trabalhador dois dias de descanso por semana era coisa de conto de fadas.

Nesta terça, o segundo turno operou um milagre de conversão. Flávio afirmou que votará a favor do fim da escala 6×1 no Senado. Segundo ele, a decisão foi tomada para atender a maioria da população. Lembremos que 78% dos brasileiros querem trabalhar menos sem ganhar menos porque estão esgotados.

Antes tarde do que nunca, diriam as avós. Antes da eleição do que depois, corrigiriam os marqueteiros.

A campanha de Flávio já se movimenta para ele sequestrar os louros, produzindo peças publicitárias para se vender como o homem que acabou com a 6×1. O sujeito passa o ano tentando atrasar o trem e, quando percebe que ele vai partir de qualquer jeito, corre para tirar foto na janela da locomotiva. A política brasileira tem dessas…

O problema é o que ele disse longe das câmeras. Conforme apurou Gabriela Echenique, na Folha de S.Paulo, o senador garantiu a empresários que, caso eleito, vai buscar mudar a mudança. Ou seja, vota a favor hoje para desfazer amanhã. Um voto dupla face: uma para o trabalhador ver no horário eleitoral, outra para o patrão guardar no bolso do paletó.

E não é difícil adivinhar o rumo da reforma da reforma. O ponto central é a tal negociação direta entre empresa e trabalhador, coração da PEC da Hora Trabalhada, apresentada em maio por Rogério Marinho, seu coordenador de campanha. O mesmo senador que, mês passado, votou contra a PEC do Fim da 6×1 na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. A ideia é permitir que o contrato individual entre patrão e empregado tenha peso maior que acordos ou convenções coletivas. E atrela a redução da carga horária à diminuição do pagamento no fim do mês, que passaria a ser proporcional às horas trabalhadas.

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O fim da escala 6×1 é um dos principais debates neste ano eleitoral. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Bonito no papel. Liberdade, flexibilidade, autonomia, todas essas palavras que soam ótimas em palestra motivacional. Só que patrão e empregado nunca sentam à mesa com o mesmo peso. De um lado, quem paga o salário e pode demitir. Do outro, quem tem aluguel vencendo, filho na escola e três ônibus para pegar até o serviço. Sem sindicato no meio, o que se desenha é uma negociação caracu: o patrão entra com a cara, e o trabalhador com a curiosidade de como irá sobreviver.

Quem já ouviu um “se não quiser, tem quem queira” sabe exatamente como termina essa conversa “livre”.

Há ainda um detalhe saboroso. Ao anunciar o voto, Flávio prometeu que o Estado pagaria a fatura dos empresários. Disse que quem vai pagar essa conta é o governo, porque os empresários estão sufocados. Traduzindo: o trabalhador ganha o sábado de volta, mas o boleto da compensação vai para o caixa público, que é bancado, entre outros, pelos impostos desse mesmo trabalhador.

O fato é que, a adiantar publicamente sua estratégia de dar hoje e tirar amanhã, Flávio entrega a Lula, de bandeja, um discurso. O primeiro capítulo é simples: se a PEC for aprovada nesta quarta, e tudo indica que será, isso aconteceu porque o governo petista se dedicou à pauta enquanto era atacado pelo bolsonarismo, que chamava a proposta de oportunismo e picanha imaginária.

O segundo capítulo é ainda mais eficiente: se os trabalhadores quiserem manter o direito recém-conquistado, terão que votar em Lula. Pois o adversário já avisou, aos donos do cascalho grosso, que pretende alterá-lo assim que sentar na cadeira.

O senador tenta agradar a dois senhores ao mesmo tempo: o trabalhador que quer descansar e o empresário que quer que ele trabalhe mais. Mas, como ensina o ditado que circula em qualquer fila de ponto eletrônico, manda quem pode, obedece quem tem boleto. E, desta vez, quem tem boleto também tem título de eleitor.

Campanhas eleitorais costumam gastar milhões para convencer o eleitor de que o outro lado vai tirar algo dele. Flávio está fazendo esse serviço de graça para o adversário.

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