
O presidente do Missão, Renan Santos, ironizou nesta terça-feira (6) a votação de Lucas Pavanato (PL), eleito deputado federal por São Paulo. Em entrevista ao Estúdio i, da GloboNews, criticou a transformação da política em entretenimento nas redes sociais e citou a agenda do bolsonarista contra pessoas trans. “Definitivamente, achar que você vai ter 3 milhões de votos para combater trans no banheiro é meio maluco”, afirmou.
“A direita é entretenimento em rede social”, declarou Renan, ao associar o desempenho de jovens lideranças à produção de vídeos curtos para Instagram e TikTok. Segundo ele, as plataformas resolveram a falta de espaços institucionais desse campo político. “A direita é muito boa em produzir esses conteúdos para as redes sociais e em embolhar os seus seguidores nisso.”
Para Renan, esse mecanismo criou “todo um universo de entretenimento político à direita com causas que não se refletem na vida material das pessoas”. Ele também criticou a esquerda por dar centralidade a pautas identitárias. O histórico de Pavanato, porém, mostra que a ofensiva contra pessoas trans tem consequências materiais: além de gerar audiência, ela se traduz em propostas de restrição de direitos.
Vereador da capital paulista, Pavanato recebeu 3.038.438 votos e conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados. A eleição amplia o alcance institucional de uma agenda que ele já anunciou que pretende levar a Brasília, incluindo restrições ao uso de banheiros por pessoas trans e o fim de cotas destinadas a essa população. O conteúdo que rende engajamento, portanto, acompanha um programa de atuação parlamentar.
“O grande tema que elegeu jovens de direita no Brasil foi trans”, afirmou Renan. Ao comentar a exploração eleitoral do assunto, acrescentou: “Isso é um grande entretenimento para as redes sociais”. Para as pessoas que são alvo desses ataques, entretanto, a campanha envolve sua identidade e o acesso a direitos.
No domingo (4), Pavanato usou a expressão “homem biológico” para se referir a Erika Hilton, deputada federal e mulher trans. Sua aliada Eduarda Campopiano, eleita deputada estadual, repetiu a formulação após a votação. Ao negar a identidade de gênero de Hilton, os dois deslocam o confronto político para a deslegitimação de sua condição de mulher.
“Achar que você vai ter 3 milhões de votos pra combater trans no banheiro. É meio maluco”
Na GloboNews, Renan critica Lucas Pavanato e o classifica como ‘entretenimento político à direita’. pic.twitter.com/S5AonvAqpk
— Anchovy 👑 (@Anchovydamissao) October 6, 2026
A agenda já ganhou forma legislativa em São Paulo. Pavanato apresentou propostas para restringir tratamentos de transição de gênero para menores de 18 anos, estabelecer o sexo atribuído no nascimento como critério de acesso a banheiros e limitar a participação de pessoas trans em competições esportivas. A apresentação dessas propostas não equivale à aprovação ou à entrada em vigor, mas demonstra a intenção de transformar a hostilidade das redes em regras para a vida cotidiana.
A oposição a políticas de inclusão também está documentada nos registros da Câmara Municipal. Em abril de 2025, Pavanato apresentou uma moção de repúdio contra a Unicamp e seu Conselho Universitário pela aprovação de vagas para pessoas trans, travestis e não binárias na graduação. A iniciativa mostra que sua ofensiva alcança também o acesso à educação superior.
“O Congresso Nacional hoje é um congresso de influencers, não de políticos”, disse Renan. Na avaliação dele, nenhuma pauta será discutida “fora do crivo da vontade das redes sociais”. “Isso é bem preocupante”, concluiu.
A crítica de Renan ajuda a explicar como a provocação vira audiência e voto. Mas reduzir essa agenda a entretenimento deixa em segundo plano seus efeitos sobre quem depende de políticas de inclusão e do reconhecimento de sua identidade. A ameaça representada por Pavanato é concreta porque ele pretende legislar sobre esses direitos — agora com uma cadeira no Congresso e uma base eleitoral de milhões de pessoas.