
Um relatório de inteligência da Polícia Federal aponta que André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), aplicou uma “régua invertida” ao analisar os casos dos senadores Ciro Nogueira (PP-PI) e Weverton Rocha (PDT-MA). Segundo o documento, Mendonça reconheceu “fortes indícios” contra Weverton em um conjunto considerado frágil, mas exigiu novas informações antes de autorizar a abertura de uma investigação sobre Ciro, embora a apuração já apresentasse um ato parlamentar documentado. O material teve o sigilo levantado por determinação de Alexandre de Moraes na quinta-feira (3).
Classificado pela própria PF como documento de trabalho e sem valor probatório, o relatório não acusa Mendonça de crime nem atribui motivação ao ministro. A conclusão técnica é que houve uma “inversão da correlação usual entre lastro e exigência”: a cobrança mais severa teria recaído sobre a providência menos invasiva e apoiada no acervo mais robusto.
Na Petição 15.041, ligada à Operação Sem Desconto, a PF apresentou um pedido de prisão preventiva de Weverton Rocha. Mendonça acompanhou o parecer da Procuradoria-Geral da República, negou a prisão e autorizou busca e apreensão. Apesar de registrar a existência de “fortes indícios”, o próprio relatório aponta que, naquele estágio, não havia diálogo direto envolvendo o senador, valor rastreado até seu patrimônio, extração de seu celular ou ato de ofício individualizado.
Weverton também não recebeu monitoramento eletrônico, proibição de contato ou ordem para entregar o passaporte. Outros dois investigados que tiveram a prisão negada foram submetidos a essas cautelares. O documento, porém, faz uma autocrítica: a PF teria apresentado uma pretensão máxima sem lastro suficiente, quando um pedido mais calibrado poderia ter resultado na aplicação de medidas alternativas contra o parlamentar.

O relatório compara esse cenário com a investigação da chamada “Emenda Master”. Em março de 2026, a corporação pediu apenas a abertura de um procedimento separado sobre Ciro. A solicitação já continha mensagens indicando que um arquivo produzido pelo Banco Master foi impresso, colocado em um envelope destinado ao senador e entregue em sua residência. No mesmo dia, Ciro protocolou uma emenda que, segundo a PF, reproduzia literalmente o texto elaborado pelo banco. Daniel Vorcaro comemorou em uma mensagem: “Saiu exatamente como mandei”.
Mendonça não autorizou imediatamente a investigação. Em 19 de março, devolveu o material à PF e pediu a apresentação de um documento mencionado na análise policial para avaliar a existência de justa causa. No dia seguinte, a corporação enviou outras 87 páginas com suspeitas sobre uma vantagem societária superior a R$ 11 milhões, repasses mensais de R$ 300 mil a R$ 500 mil, uso de imóvel e viagens internacionais no valor de R$ 468,7 mil. A PGR apoiou a abertura da apuração em 25 de março, e o ministro deu a autorização no dia 31.
Para os autores do relatório, exigir a demonstração antecipada da vantagem indevida como condição para investigar essa mesma vantagem produz uma circularidade. O documento reconhece que solicitar um anexo citado, mas não apresentado pela PF, era uma providência formalmente defensável. A crítica recai sobre o grau de rigor: como prisão preventiva e abertura de investigação são medidas diferentes, a exigência deveria crescer com a gravidade da providência, e não diminuir.
Ciro já afirmou que não há irregularidade em suas conversas com Vorcaro, e a defesa que o representava negou que o senador tenha recebido “mesada”. Weverton também nega envolvimento nas fraudes do INSS e disse que prestaria os esclarecimentos necessários. O relatório ressalta que a análise não antecipa a culpa dos parlamentares nem equivale a uma declaração de inocência. A conclusão se limita a apontar uma variação documentável no padrão probatório adotado por Mendonça em decisões separadas por pouco mais de cinco meses.