O jogo do mercado com as apostas nas eleições, por Luís Nassif

A informação de que o “mercado” atribui 60% de probabilidade a uma vitória de Flávio Bolsonaro precisa ser lida pela lógica do próprio mercado — e não como uma previsão neutra sobre o resultado das urnas.

O mercado financeiro trabalha com posições. Quem acredita na alta compra; quem aposta na queda vende. Mais do que antecipar o futuro, tenta construir expectativas capazes de mover preços no presente.

É aí que entram os bois-guias: grandes instituições com recursos, influência e capacidade de pautar o rebanho. Elas começam a montar posições em determinados ativos. A valorização inicial atrai novos compradores, confirma a narrativa e forma a onda de alta. Quando o movimento se aproxima do limite, os que entraram primeiro começam a vender e embolsam o lucro. A curva perde força, os preços caem e o efeito manada se inverte. Quem chegou por último fica com o prejuízo.

Esse mecanismo ajuda a explicar a explosão do câmbio no fim de 2024. O carry trade — captação de recursos baratos em uma economia central para aplicação em títulos de uma economia periférica — havia perdido atratividade no Brasil diante de alternativas como o México. Como o rendimento da operação depende também da trajetória cambial, bastou que três instituições de peso anunciassem a retirada de dólares do país para disparar a boiada. A pressão sobre o real aumentou e o Banco Central respondeu com uma elevação drástica da Selic, interrompendo o movimento e impondo um custo elevado ao conjunto da economia.

Agora, a mesma lógica alcança a disputa eleitoral.

Uma aposta na vitória de Flávio Bolsonaro pode levar os operadores a montar, no presente, posições coerentes com o cenário que desejam vender:

  • alta dos contratos futuros do Ibovespa;
  • queda do dólar futuro;
  • possível recuo do ouro futuro, tradicional ativo de proteção.

Isso porque, um governo Flávio Bolsonaro abriria espaço para a volta do dinheiro do crime organizado ao mercado.

Esses movimentos não demonstram que Flávio vencerá. Revelam apenas que determinados agentes decidiram operar como se essa vitória fosse provável — e têm interesse em convencer outros investidores a acompanhá-los.

A diferença é decisiva. Uma estimativa eleitoral deveria resultar de pesquisas, tendências demográficas, alianças políticas e comportamento do eleitorado. Uma cotação de mercado resulta de apostas financeiras, liquidez, narrativas e posições assumidas. Confundir uma coisa com a outra transforma o interesse dos operadores em uma suposta sabedoria coletiva.

E a convicção pode mudar rapidamente. Se na semana seguinte surgir um fato político capaz de inverter as expectativas, os mesmos agentes que ajudaram a formar a onda poderão abandonar as posições anteriores antes do restante do mercado. A manada muda de direção; os bois-guias preservam os ganhos.

Portanto, quando se diz que “o mercado” atribui 60% de chance a um candidato, a pergunta correta não é apenas se a previsão está certa. É também: quem está apostando, em quais ativos, com que volume e quem lucra se os demais acreditarem nessa narrativa?

O mercado não apenas interpreta a política. Também tenta influenciá-la — e ganhar dinheiro com os movimentos que ajuda a produzir.

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