Caso Master na Perversão de Valores na Economia Política, por Alfredo Pereira Jr.

A Centralidade do Caso Master na Perversão de Valores na Economia Política Brasileira

por Alfredo Pereira Jr.

Há pelo menos 10 anos, por meio de uma pesquisa de Richard Werner (https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1057521914001434), ficou comprovado cientificamente que os bancos criam dinheiro, quando fazem empréstimos. Esse dinheiro é chamado de “contábil”, ou seja, é criado nas planilhas de contabilidade dos bancos comerciais.

O sistema interbancário convencional procurou estabelecer regras para que todos os bancos credenciados pelas autoridades financeiras não abusassem desta prerrogativa. Entretanto, esse controle pode ser fraudado na surdina, por meio de propinas pagas com o próprio dinheiro emitido pelos bancos inescrupulosos! Desde os anos 1990, indivíduos espertos abriram bancos para aproveitar essa possibilidade, mas só na gestão do governo Bolsonaro tiveram plena liberdade para realizar fraudes de alta monta, acobertadas por funcionários do estado.

No sistema financeiro ocidental, os bancos comerciais criam a maior parte do dinheiro em circulação na economia (cerca de 97%) por meio da concessão de empréstimos, e não apenas emprestando dinheiro que já estava guardado por outros correntistas. Quando um banco aprova um empréstimo, ele não busca o dinheiro no cofre ou em depósitos de outros clientes. Ele simplesmente lança os números digitalmente na conta do cliente. No momento da operação, o banco cria simultaneamente um ativo (a dívida que o cliente tem a pagar para o banco) e um passivo (o depósito bancário que o cliente pode usar para fazer pagamentos). Esse processo faz com que o saldo na conta do cliente passe a existir como novo poder de compra na economia. Como explicou o Bank of England (Banco Central do Reino Unido), na gestão de Mark Carney (agora Primeiro-Ministro do Canadá), em artigos oficiais como “Money Creation in the Modern Economy“, os empréstimos criam depósitos, e não o contrário.

Embora os bancos criem dinheiro ao emprestar, eles não podem fazer isso de forma ilimitada. Quando o cliente gasta o dinheiro enviando para um cliente de outro banco, o banco de origem precisa transferir reservas do Banco Central para liquidar a transação. O banco precisa manter capital próprio adequado, gerenciar riscos de inadimplência e seguir as regras de taxa de juros e política monetária definidas pelo Banco Central do país. Evidentemente, tudo isso depende de fiscalização eficaz e eficiente, o que não houve no Caso Master.

As piores consequências das fraudes cometidas pelo Banco Master estão sendo na perversão de valores na economia política brasileira. A existência de uma fonte de dinheiro paralela ao estado e (até então) livre das amarras legais que regulam o sistema financeiro, atiçou fogo na mente de um amplo contingente da população, que vai desde motoboys recebendo polpudas gorjetas para transportar dinheiro em espécie a juízes do Supremo Tribunal Federal recebendo altos valores para atividades de suas famílias, ou até recebendo serviços íntimos personalizados, pagos com o dinheiro sujo. Igrejas de falsa fé e organizações criminosas que controlam comunidades periféricas foram a mola propulsora desta perversão de valores, praticando a chamada “lavagem de dinheiro” em escala nunca vista neste país, desde redes de postos de gasolina e transporte intermunicipal até o enxame de Bets, que por sua vez também têm arrecadação própria e contribuem para o endividamento de famílias já espremidas pelo arrocho fiscal (amenizado pelas medidas do atual governo), pelos dízimos pagos a igrejas e pela eventual extorsão feita por milícias.

Essa situação, em contexto da “camisa de força” (André Lara Resende) auto-infligida pelo estado federal em seus programas sadomasoquistas de austeridade, levou as mentes empreendedoras ambiciosas do país a buscarem meios de receber alguma parte das propinas fartamente distribuídas pelos gestores do Banco Master. Estas possibilitaram o enriquecimento de muitas pessoas da noite para o dia, para quem trabalhasse para a naturalização da fraude financeira na mente do povo brasileiro, travestida de “teologia da prosperidade” nas igrejas e de “meritocracia” no YouTube e redes sociais, para os incautos.

Inúmeros “influenciadores” ficaram ricos da noite para o dia, ignitando a imaginação de milhões de seguidores, que acreditaram estar enfim encontrando o desejado caminho da prosperidade dentro do capitalismo selvagem semi-feudal brasileiro.

As novas gerações, ao invés de planejarem empresas produtivas, se lançam no pantanoso mundo da especulação financeira com criptodinheiro. O chefão disso tudo, no hemisfério norte, favorece as “stablecoins”, cripto-dinheiro conversível em dólar. O negócio do momento se tornava a captação de propinas do Banco Master, sua conversão em criptodinheiro e, no final, a conversão em dólar, possibilitando aos que assim “prosperavam” uma vida luxuosa em Miami. Com isso, a procura por dólares aumentava, e com ela a taxa de câmbio.

Enquanto isso, os trabalhadores e pequenos empresários honestos, e até mesmo grandes empresas tradicionais, se afundavam em dívidas, agravadas por juros altos, e impostos federais e estaduais mal direcionados, que acabam por impactar a produção e o consumo. Os mesmos criminosos que geraram esta perversão de valores se apresentam nas atuais eleições como críticos do “sistema”, apresentando como solução o aprofundamento do arrocho fiscal, com cortes no investimento público em áreas sensíveis, juntamente com a desejada redução de impostos e fortalecimento do policiamento nos centros urbanos, para evitar atos de violência dos miseráveis contra os que se beneficiam deste mesmo “sistema”. Obviamente, essa conta não fecha e quem vai pagar a conta é o povo mais vulnerável, como vemos na Argentina de Milei.

Uma possibilidade de solução democrática deste embroglio requer um debate que vai muito além do período eleitoral. Minha proposta está contida em um livro, “Socialist Democracy Today”, que sairá por editora inglesa, propondo uma abordagem internacionalista desta crise. O que acontece no Brasil tem paralelo em todo o ocidente. Os trabalhadores destes diversos países precisam se conectar e elaborar um programa comum para superar os males econômicos, políticos e éticos do capitalismo liberal financeiro em sua atual fase de regressão à barbárie de tipo nazifascista.

Alfredo Pereira Jr. – Filosofia/UNESP, INE2S/CLE-UNICAMP/CNPQ

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “

Artigo Anterior

Kassio libera algoritmos para políticos eleitos e decisão do TSE gera questionamentos sobre vantagem digital a Flávio Bolsonaro

Próximo Artigo

Alckmin defende redução da maioridade penal para crimes graves e expõe divergências na base de Lula

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!