É preciso dizer com todas as letras e sem qualquer meia-palavra: a reeleição do presidente Lula é uma questão de salvação nacional. Uma eventual vitória da extrema-direita pró-imperialista, personificada em Flávio Bolsonaro em 25 de outubro, desferiria um golpe letal na soberania do Brasil, com desdobramentos devastadores para toda a América Latina e o Caribe. O alinhamento subserviente anunciado pelo candidato do PL aos Estados Unidos é a renúncia deliberada e indecorosa à autonomia indispensável para resguardar as riquezas e os interesses do povo brasileiro. A oferta escandalosa de colocar sua própria equipe de transição à disposição direta de Washington constitui o sinal mais eloquente e vergonhoso desse projeto de vassalagem.
Na carta enviada ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, Flávio Bolsonaro explicitou a barganha no bojo das negociações de um acordo bilateral de comércio e investimentos. O senador escreveu, sem qualquer pudor patriótico, estar pronto para colocar a equipe “imediatamente à sua disposição”. A roupagem comercial jamais apagará a gravidade política inédita dessa atitude: a transição presidencial do Brasil deve render contas unicamente ao povo brasileiro e às suas instituições soberanas. Entregá-la de bandeja a uma potência estrangeira revela uma concepção de poder indigna, mesquinha e absolutamente incompatível com a independência de uma nação livre.
Essa prontidão serviçal de Flávio Bolsonaro se encaixa com perfeição na sanha tutelar de Rubio sobre o nosso continente. Em audiência no Senado estadunidense, em 2 de junho, o secretário rotulou o Brasil como uma incômoda exceção em um hemisfério que Washington quer ver totalmente dobrado aos seus ditames, fazendo referência explícita ao nosso ciclo eleitoral. Ao arvorar-se no direito de dividir governos entre “amigos” e “hostis” aos interesses norte-americanos, Rubio escancarou a lógica imperialista: para a Casa Branca, a autodeterminação dos povos latino-americanos é encarada como um “problema” a ser suprimido.
O sentido político dessa ofensiva é cristalino. Um Brasil altivo, que dialoga de cabeça erguida com múltiplos polos de poder, negocia sem aceitar sujeição ou exclusividades e sustenta posições firmes e independentes no cenário internacional causa profundo incômodo aos guardiões da hegemonia estadunidense. A alusão de Rubio às eleições brasileiras deixa evidente a aposta da potência imperialista: a expectativa de que uma virada de governo dissipe a altiva resistência do Brasil e escancare as portas para o alinhamento cego pretendido por Washington.
A promessa de adesão ao chamado “Escudo das Américas” dá a face militar e operacional a essa rendição. Flávio Bolsonaro já declarou publicamente a intenção de atrelar o Brasil à coalizão liderada por Donald Trump. Anunciou também que proporá alterações legais para carimbar organizações criminosas brasileiras como grupos “terroristas internacionais”, subordinando-se à chancela unilateral de Trump. Trata-se de uma capitulação na política externa e de defesa que ameaça diretamente o comando e a jurisdição do Estado brasileiro sobre o seu próprio território.
É óbvio que o combate às facções criminosas é um dever constitucional indeclinável do Estado. Todavia, isso exige inteligência de ponta, asfixia financeira do crime organizado, rigoroso controle de armas e cooperação técnica — jamais a cessão da nossa soberania. Instrumentalizar esse desafio interno para converter o Brasil em praça de armas de uma estratégia militar ditada por uma potência estrangeira cruza uma linha vermelha inaceitável: a internacionalização e a entrega do controle das nossas forças e da nossa segurança nacional a decisões tomadas fora do país.
Esse enquadramento de facções como entidades terroristas guarda armadilhas letais. O Itamaraty alertou para o risco real de Washington converter essa rotulagem em pretexto para incursões militares e intervenções em solo brasileiro. Uma designação unilateral norte-americana não possui validade jurídica internacional para violar territórios alheios; contudo, o perigo reside na construção de uma narrativa político-militar agressiva para emparedar governos, atropelar fronteiras e violar a soberania dos países da região.
A trágica experiência da América Latina demonstra que esse perigo não é uma mera abstração teórica. Em março, Estados Unidos e Equador anunciaram operações militares conjuntas sob o pretexto de combater o “terrorismo”. Em setembro, a chancelaria equatoriana confirmou a integração irrestrita ao Escudo das Américas, entrelaçando inteligência, capacidade operacional e coordenação política com Washington. A pretexto do combate ao narcotráfico, a presença militar estadunidense ganha contornos concretos de ocupação estratégica.
Com o vizinho Paraguai foi firmado um acordo que praticamente transforma o país Guarani em uma base militar estadunidense na América do Sul.
A ostensiva visita do comandante do Comando Sul dos EUA, general Francis L. Donovan, à cidade de Iquitos, na Amazônia peruana, realizada nos últimos dias, escancara essa engrenagem. Encontrando-se com a cúpula militar do Peru, o general norte-americano manteve conversações sobre a realização de operações militares contra grupos rotulados como narcoterroristas e sobre o pertencimento do país andino no Escudo das Américas. A presença militar norte-americana nas barbas da Amazônia é um sinal de alerta estrondoso para a defesa nacional e para o equilíbrio regional.
Essa marcha de cooptação utiliza múltiplos braços. Na Argentina, o governo anunciou em junho acordos com Washington que incluem suporte logístico, reabastecimento recíproco em operações militares e acesso a tecnologias de defesa dos EUA.
Na Colômbia, a cooperação militar com os EUA avançou para patamares ainda mais gravosos de operações conjuntas sob a bandeira do Escudo das Américas, consolidando a integração de inteligência e logística nas faixas de fronteira.
Tudo isso constitui uma teia bem articulada que busca submeter as estruturas estratégicas dos países latino-americanos às diretrizes do Pentágono. Vê-se, em pleno curso, uma perigosa militarização da região, sob a hegemonia estadunidense.
É justamente essa escalada que torna criminosa e inadmissível a simples hipótese de capitulação do Brasil. Pela dimensão gigantesca de sua economia, pela extensão de seu território e por suas fronteiras estratégicas, o Brasil é o escudo e o fiador da independência da nossa região. Sua submissão a uma coalizão sob comando norte-americano esmagaria a autonomia de toda a América Latina e do Caribe, deixando os países vizinhos expostos a um ambiente ainda mais brutal de ingerência e chantagem hegemonista.
O biombo da “proteção continental” não passa da roupagem atualizada da nefasta Doutrina Monroe, que insiste em tratar a nossa região como o “quintal” e área de influência exclusiva do império. Sob uma perspectiva anti-imperialista consequente, a questão de fundo é o poder inalienável de decidir: quem define nossas ameaças, quem maneja as inteligências, quem dita os limites da atuação militar em nosso solo? Quando a caneta e o comando do destino nacional são transferidos para fora, a dita “cooperação” nada mais é do que dependência colonialista.
A antítese dessa vergonha é a política externa altiva, soberana e destemida conduzida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O pilar inabalável dessa orientação reside no artigo 4º da Carta Magna de 1988: independência nacional, autodeterminação dos povos, não intervenção, igualdade soberana entre os Estados, defesa intransigente da paz e solução pacífica dos conflitos. Mais do que imperativo legal, a Constituição manda o Brasil perseguir a integração profunda dos povos da América Latina. São esses princípios que nos armam ideologicamente para repelir a tutela estrangeira e edificar uma segurança autêntica fundada na solidariedade entre nações livres.
O engajamento vibrante de Lula com o multilateralismo, o protagonismo inconteste do Brasil no Sul Global e o fortalecimento ousado do BRICS são os pilares de um país que se recusa a se curvar. À frente da presidência do BRICS em 2025, o Brasil colocou a cooperação soberana e o desenvolvimento dos povos como prioridades absolutas. É essa coragem diplomática que amplia a voz do Brasil e constrói, na prática, uma ordem multipolar justa.
Defender a continuidade do governo Lula é defender a liberdade suprema do Brasil de dialogar e pactuar com quaisquer países e com todos os povos do mundo a partir dos nossos interesses nacionais, e não sob ordens de impérios. É exigir com altivez a reforma das instituições internacionais, a voz ativa dos países em desenvolvimento e o combate aos grandes dilemas da humanidade sem pedir licença às potências coloniais. O Brasil de Lula é o motor dessa transformação libertadora, e a sua soberania é o bastião inexpugnável para a emancipação de todos os povos latino-americanos e caribenhos.
Portanto, a luta anti-imperialista é a tarefa mais urgente e inescapável do presente. Ela se concretiza no combate diário pela reconquista e proteção do nosso território, dos nossos recursos naturais, da nossa democracia e do direito sagrado do povo brasileiro de trilhar seu próprio caminho. Perante a fúria dominadora do imperialismo e a expansão de suas garras militares no continente, a soberania nacional ergue-se como o centro gravitacional da batalha histórica contemporânea. A vitória de um Brasil independente e protagonista da integração continental e do mundo multipolar é a tradução mais pura do espírito do nosso tempo: a libertação definitiva dos povos e a ruína da hegemonia imperial.