
A relação entre o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) e o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), não se limitava à proximidade política e religiosa já conhecida. Cezinha assinou um contrato de opção de compra futura de 4% do Instituto Iter, entidade fundada pelo magistrado em 2023. O documento foi encontrado pela Polícia Federal no material apreendido durante buscas contra o parlamentar e a advogada Valéria Linhares, segundo revelou Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo.
Cezinha chegou a deixar R$ 19.353 em caução com Mendonça, quantia equivalente a 1% das ações, segundo a explicação apresentada pela assessoria do ministro. Os 3% restantes seriam comprados de outros acionistas do Iter. A operação, porém, estava condicionada à saída do deputado da política, prevista para 2027. A assessoria de Mendonça afirma que a opção nunca foi exercida e sustenta que Cezinha não foi e não poderá ser sócio do instituto enquanto permanecer na vida pública.
O contrato acrescenta uma dimensão econômica a uma relação que já aparece em outras frentes sob escrutínio. Foi Cezinha quem articulou o encontro entre Daniel Vorcaro e André Mendonça em 14 de março de 2025. A reunião ocorreu justamente no Iter, em São Paulo, após semanas de contatos. Mensagens do celular do então dono do Banco Master mostram que o deputado participou da organização e avisou Vorcaro de que “o ministro já está te esperando”.

Cezinha é atualmente alvo de uma investigação da PF sobre possível influência em ministros de tribunais superiores. A corporação apura suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro em negociações relacionadas a processos judiciais. Foi no material apreendido nessa investigação que apareceu o contrato envolvendo o Iter. As suspeitas são investigadas e não representam conclusão de responsabilidade criminal do deputado.
Os vínculos pessoais entre os dois também já haviam aparecido em outra revelação: Cezinha emprega no próprio gabinete José Nagliatti, cunhado de Mendonça, desde março de 2023. O parlamentar também participou da articulação política pela aprovação de Mendonça no Senado quando Jair Bolsonaro indicou o então advogado-geral da União para o Supremo.
O Iter, por sua vez, passou a aparecer repetidamente nas revelações do caso Master. A entidade recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, holding de Lucas Kallas, ex-parceiro empresarial de Vorcaro. O acordo era um mútuo conversível, modalidade que poderia transformar o crédito em participação societária. Em outro episódio, Mendonça viajou em um helicóptero vinculado ao grupo Cedro para participar de um evento jurídico em Minas Gerais.