Governo Tarcísio descumpre a lei e esconde o nível de poluição da Guarapiranga. Paulo Henrique Arantes

Governador Tarcísio de Freitas no evento de privatização da Sabesp. Divulgação

Onze anos após o prazo legal, o Poder Público esconde os dados reais sobre a contaminação do manancial que abastece 5,6 milhões de paulistanos. Em uma dura cobrança por transparência e responsabilidade ambiental, a campanha “Salvemos a Guarapiranga”, liderada e lançada pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp) em 22 de setembro, publicou um documento (Nota Técnica nº 01/2026) que expõe o colapso das metas de despoluição e exige que o Governo do Estado e as prefeituras da Região Metropolitana revelem a real situação da bacia hidrográfica.

O foco central da cobrança técnica está no controle do fósforo, nutriente presente no esgoto doméstico que funciona como o principal indicador de asfixia do reservatório. A Lei Estadual nº 12.233/2006 estipulou que a represa deveria atingir a Carga Meta Total de 147 kg de fósforo por dia até o ano de 2015. Os últimos registros históricos oficiais apontavam uma carga alarmante de 340 kg/dia. Desde então, o Governo do Estado opera em um preocupante “apagão de dados”.

“A lei precisa ser obedecida, e isso não vai acontecer se não houver pressão”, afirma Fernando Gomes, membro do Conselho Tecnológico do Seesp e dono de uma carreira pregressa de 42 anos na Sabesp.“Estamos muito descontentes com o governador Tarcísio. O problema não é de agora, mas, com a privatização da Sabesp, ficou muito mais difícil de obter dados da Guarapiranga, como, por exemplo, a vazão da transferência de esgoto. Exigimos transparência”, explica.

Represa de Guarapiranga, 42% abaixo do seu nível de reserva. Reprodução

O esgoto não tratado despejado na bacia gera um efeito dominó catastrófico. O excesso de nutrientes provoca a proliferação massiva de algas e cianobactérias, que por sua vez liberam geosmina e potenciais cianotoxinas. O resultado é uma água com gosto e cheiro de terra, exigindo processos químicos e operacionais cada vez mais complexos e caros para torná-la potável.

Especialistas advertem que despejar bilhões de reais em obras de fachada sem medir o impacto ambiental real é uma afronta ao contribuinte. O Seesp e as entidades que compõem a campanha exigem respostas imediatas a algumas perguntas cruciais, destacando-se: qual é a carga total de fósforo que chega hoje à Guarapiranga? Quando o modelo matemático de qualidade da água (MQual) foi atualizado pela última vez? Quais resultados práticos as obras recentes trouxeram para o manancial?

A governança e a legislação já existem há duas décadas. Falta gestão, fiscalização severa do uso do solo e o fim do segredo sobre a qualidade da água que a população consome. “A sociedade civil não pode mais aceitar justificativas evasivas: o poder público precisa medir para conhecer, e conhecer para recuperar”, cobra Fernando Gomes.

Ao lado do Sindicato dos Engenheiros, integram oficialmente a campanha “Salvemos a Guarapiranga” outras 30 entidades da sociedade civil.

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