O ônus do poder absoluto: o dia em que o fascismo bolsonarista governar, por Aragon & Bauer

O ônus do poder absoluto: o dia em que o fascismo bolsonarista governar

Se Flávio Bolsonaro vencer apoiado por uma correlação parlamentar amplamente favorável ao campo reacionário, o bolsonarismo deixará de viver da promessa de que faria tudo diferente se tivesse poder suficiente. Terá de responder pelo país que seu projeto for capaz de produzir.

Por Reynaldo Aragon e Luciana Bauer

Durante anos, o bolsonarismo transformou limites institucionais, crises e derrotas em prova de que inimigos impediam seu projeto. Uma vitória em 2026 mudaria essa condição. Com a Presidência, a maior bancada da Câmara, presença decisiva no Senado e capacidade real de atrair o Centrão, o campo fascista teria espaço para avançar sobre o Estado em escala inédita. A partir daí, a questão deixaria de ser o que ele promete fazer e passaria a ser o que consegue sustentar quando capital, trabalho, soberania, proteção social e vida cotidiana entram na mesma conta.

A Constituição como voz de Bolsonaro a la Carl Schimitt

Desde a noite de 4 de outubro, uma pergunta não sai das nossas cabeças. Não é apenas o que significa Flávio Bolsonaro ter chegado ao segundo turno com 56,1 milhões de votos e 47,03% dos votos válidos. O problema maior está na estrutura de poder que pode se formar ao redor dessa votação caso ele vença. O PL elegeu 121 deputados e deverá iniciar 2027 com 28 senadores. A disputa presidencial continua aberta e precisa ser travada até o último voto, mas ignorar o que essa correlação representa seria um erro estratégico. Pela primeira vez, o campo fascista brasileiro pode chegar ao Executivo cercado por uma força parlamentar suficientemente grande para tentar converter em programa de governo aquilo que durante anos apresentou como desejo bloqueado.

O bolsonarismo já governou o país, mas conseguiu preservar uma condição psicológica de oposição. Jair Bolsonaro comandou ministérios, orçamento, milhares de cargos e parcelas importantes da máquina pública sem abandonar a narrativa de que forças ocultas ou instituições hostis impediam seu projeto de avançar. Supremo, Congresso, governadores, imprensa, universidades, servidores, movimentos sociais, sistema eleitoral. O personagem mudava conforme a necessidade. A função permanecia. Cada fracasso podia ser apresentado como sabotagem e cada limite servia para alimentar a promessa de que tudo seria diferente se o movimento finalmente recebesse poder suficiente. Governar e permanecer insurgente contra o próprio Estado foi uma das operações políticas mais eficientes do bolsonarismo.

Bolsonaros os que sempre viveram do Estado e se vendem muito habilmente como outsiders.

Uma vitória de Flávio Bolsonaro reduziria parte desse álibi.

O PL não possui sozinho os votos necessários para alterar a Constituição, afastar autoridades ou impor qualquer decisão que desejar. Só que a política brasileira nunca funcionou pela soma mecânica das bancadas. A Presidência organiza orçamento, cargos, agenda legislativa, alianças regionais e acesso à máquina federal. O Centrão não é uma corrente doutrinária e muito menos centro ideologico. É uma estrutura de poder que historicamente se aproxima de quem governa e dispõe de recursos para construir maioria. Um presidente bolsonarista – que ascende neste 2026 com base em negociatas com rachadinhas, Vorcaro e fascismo evangélico – iniciaria essa negociação apoiado na maior bancada da Câmara, numa presença extraordinária no Senado e em forças reacionárias espalhadas por outras legendas. Não receberia poder juridicamente absoluto. Poderia, porém, reunir condições políticas para empurrar o país muito além dos limites que contiveram Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022.

A reforma e emenda da constituição poderia ser uma nova constituinte e ai direitos civilizatórios seriam todos questionados porque contra clausulas pétreas teríamos a voz do Fuher, como fala Carl Schimitt. O guardião da constituição não é mais um supremo corrupto na voz dos eleitores, mas quem? Flavio Bolsonaro I o Probo, o Justo, aquele que acusa o supremo de negociatas com Vorcaro quando embolsa milhões de Vorcaro.

Chamamos esse campo de fascista ou fascismo de massas porque sua trajetória, sua prática e seu projeto justificam a categoria. Não é insulto nem atalho retórico. Estamos falando de uma força que transformou adversários em inimigos internos, naturalizou a violência política, naturalizou feminicídio e crianças rebolando com armas letais. Principalmente o Bolsonarismo fascista atacou o sistema eleitoral, quando o resultado lhe foi desfavorável. E tentou submeter instituições de controle pela força e pelo cooptação de militares entreguistas e não soberanos.

Reduzir esse bloco a uma direita convencional esconderia justamente aquilo que precisa ser compreendido antes que volte ao Planalto em condições muito mais favoráveis.

O primeiro erro da esquerda seria acreditar que um eventual governo Flávio Bolsonaro fracassará simplesmente porque é fascista. Justamente os governos fascistas de massa vem com o aplauso da toda população. E vitorias e glamour. Olhem as olimpiadas da Alemanha Nazista. Um trem de bonança e riqueza em uma europa falida economicamente com a bolha de 1929.

A história não oferece o conforto de que as pessoas não vão aderir a este marketing do grande pai do grande irmão que Bolosonaro e Trump oferecem.

.O fascismo pode governar, entregar resultados, incorporar parcelas das classes populares e construir consentimento enquanto reorganiza a sociedade em favor de uma ordem profundamente desigual. Mussolini destruiu a autonomia sindical e submeteu o trabalho ao Estado corporativo, mas combinou essa submissão com mecanismos de proteção social, assistência e integração. Erdoğan ampliou programas sociais ao mesmo tempo que enfraquecia sindicatos e flexibilizava relações de trabalho. Orbán construiu apoio com benefícios familiares, crédito e proteção seletiva enquanto redesenhava instituições e concentrava poder. Modi combinou transferências, moradia, infraestrutura e serviços digitalizados com nacionalismo hindu e exclusão. Bukele demonstrou algo que a esquerda não pode desprezar. Segurança também é uma necessidade material. Uma família que deixa de viver sob ameaça cotidiana experimenta uma mudança concreta, ainda que essa segurança seja produzida por estado de exceção, prisões em massa e concentração extrema de poder.

A segurança aparente das periferias será construída com toda carne preta e pobre que a maioridade penal de 16 e o encarceramento recorde vai trazer. E tudo isso privatizado, vendido a magnificas empresas do tio Sam.

Petrobras, saúde publica e SUS, bancos públicos, Correios, tudo será privatizado e entregue aos Bezos da vida. A vacinação infantil não será mais gratuita, segundo pediatras nas redes sera 10 mil por criança. E como dos Estados Unidos as pessoas apodrecerão na rua, nos seus carros e nas barracas, celebrando o estado liberal.

É nessa diferença que a questão de classe recupera nitidez. Um trabalhador pode receber transferência e perder capacidade de negociação, conseguir emprego numa relação mais precária, acessar crédito assumindo mais risco individual e viver num bairro mais seguro sob um Estado mais intrusivo. A melhora de uma dimensão da vida não produz automaticamente autonomia política. A incorporação pode ser real e ainda assim subordinada. O trabalhador entra na ordem como beneficiário, consumidor, pequeno empreendedor, fiel, usuário de serviço público ou destinatário de uma política de segurança, mas perde força quando sindicatos, associações e outras formas coletivas de proteção são esvaziados. O fascismo não precisa empobrecer todos os trabalhadores para derrotá-los politicamente. Precisa impedir que ganhos individuais se convertam em poder coletivo.

A precarização pode ser percebida como exploração ou vendida como liberdade de empreender. Uma dificuldade econômica pode ser atribuída a decisões concretas ou deslocada para um inimigo escolhido. O mesmo trabalhador pode viver uma relação objetiva de dependência e se perceber como empresário em ascensão. Guerra psicológica do fascismo evangélico que vivemos no Brasil   começa exatamente nesse intervalo entre experiência e interpretação. Ela não cria sentimentos do nada. Organiza medo, esperança, humilhação, pertencimento e ressentimento, oferecendo uma leitura da realidade e apontando quem deve ser amado, temido ou odiado.

O programa apresentado por Flávio Bolsonaro precisa ser lido a partir dessa lógica. Ele reúne privatizações, redução de regulações, reforma administrativa, diminuição do custo do trabalho, prevalência do negociado sobre o legislado e hostilidade explícita ao que chama de República Sindical. Ao mesmo tempo, projeta um Estado mais digital, integrado e capaz de identificar indivíduos, cruzar informações, automatizar decisões e ampliar sua presença na segurança pública. O mesmo projeto que pretende retirar o Estado de determinadas relações econômicas quer fortalecê-lo como infraestrutura de dados, administração, vigilância e coerção. Não há incoerência. Há uma escolha de classe sobre onde o Estado deve recuar e onde deve se tornar mais poderoso.

Essa escolha aparece na vida cotidiana. O capital encontra menos obstáculos, a negociação trabalhista tende a ser individualizada e organizações coletivas perdem capacidade de interferência. O cidadão, por sua vez, se aproxima de um Estado que pretende concentrar serviços, documentos, benefícios e informações numa identidade digital, usar inteligência artificial no atendimento e expandir reconhecimento facial e monitoramento. Para alguns, a fricção diminui. Para outros, cresce. Certas operações econômicas devem acontecer com velocidade. A organização do trabalho, o protesto e os grupos definidos como ameaça encontram identificação, suspeita, controle e coerção.

Há anos, uma das linhas que orientam nossa pesquisa é que a tecnologia não elimina intermediários. Ela substitui alguns por outros menos visíveis e mais concentrados. Quando uma plataforma toma o lugar de uma agência, um algoritmo substitui uma decisão humana ou uma base de dados passa a organizar elegibilidade e prioridade, a mediação permanece. Quando esse processo chega ao Estado, o cidadão pode sentir que finalmente se relaciona de maneira direta com o governo enquanto sua vida passa a ser filtrada por sistemas que definem acesso, risco, benefício e comportamento esperado. A conveniência não elimina o poder. Muitas vezes o torna mais difícil de enxergar.

A experiência indiana ajuda a perceber a mudança. Sistemas digitais de identificação e transferências diretas permitiram ao governo Modi alcançar milhões de pessoas com rapidez e reduzir intermediações tradicionais. Houve eficiência real, mas também uma transformação política. Direitos e benefícios podem ser associados diretamente à figura do governante, e a relação coletiva com o Estado cede espaço ao vínculo individual entre liderança e beneficiário. A mediação política diminui enquanto a mediação técnica cresce.

Nesse ambiente, guerra psicológica deixa de ser apenas instrumento eleitoral. Quem controla a relação informacional entre governo e cidadão ganha capacidade para organizar contexto, prioridade e interpretação. Não precisa convencer a sociedade inteira num único discurso. Pode atuar sobre milhões de pequenas experiências repetidas. A mensagem que chega primeiro, a ameaça que ganha visibilidade, o benefício associado ao presidente, o grupo apresentado como parasita ou inimigo. A disputa começa antes da opinião formada, no campo em que a realidade se torna perceptível.

A infraestrutura digital amplia esse poder. Câmeras, reconhecimento facial, bancos de dados, redes sociais e inteligência artificial permitem transformar classificações políticas em procedimentos administrativos. O inimigo deixa de existir apenas no discurso e pode passar a aparecer nos sistemas que distribuem suspeita, atenção policial e acesso. Nada disso exige que o país acorde numa manhã sob uma ditadura formal. A mudança pode avançar por acúmulo, apresentada a cada etapa como solução técnica para um problema concreto.

Por isso a velha discussão sobre Estado mínimo explica pouco. O projeto é reduzir obrigações sociais e mediações democráticas em determinadas áreas enquanto se amplia a capacidade de executar decisões, organizar informação e disciplinar conflitos. Menos regulação diante do capital pode conviver perfeitamente com mais vigilância, polícia, prisão e poder administrativo. O Estado não desaparece. Muda de função e distribui sua força de maneira desigual.

No Brasil, essa transformação carrega ainda uma contradição de soberania. Grande parte das infraestruturas digitais que organizam comunicação, armazenamento, inteligência artificial e circulação de informação está sob controle de empresas estrangeiras. Um governo pode ampliar enormemente a capacidade tecnológica do aparato estatal enquanto aprofunda a dependência nacional de plataformas, nuvens, modelos e redes que o país não controla. É possível construir um Estado mais eficiente para administrar sua população e um Brasil menos capaz de decidir o próprio destino. Tecnologia, classe e geopolítica se encontram exatamente aí.

Mas nenhuma arquitetura informacional governa sozinha uma sociedade. Algoritmos podem organizar percepção, propaganda pode deslocar responsabilidade e coerção pode elevar o custo da resistência. Nenhum deles produz comida, paga aposentadoria, sustenta hospital ou cria emprego por decreto. Um eventual governo Flávio Bolsonaro teria de atender o bloco econômico que espera desregulação, privatizações, redução do custo do trabalho e abertura de novos espaços de acumulação, sem romper a base popular que continuará exigindo renda, serviços, segurança, crédito e perspectiva de ascensão. Enquanto essas duas necessidades puderem caminhar juntas, o governo pode conservar força. A tensão começa quando uma exige o sacrifício da outra.

O próximo presidente tampouco receberá uma economia devastada em que qualquer melhora possa ser vendida como reconstrução. A taxa de desemprego chegou a 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026 e o rendimento real médio do trabalho alcançou R$ 3.777. Manter emprego e renda é politicamente diferente de prometê-los quando tudo desmoronou. Ao mesmo tempo, a dívida pública federal chegou a R$ 9,29 trilhões em agosto e seu custo permanece alto. Cortar despesas, privatizar e reduzir impostos pode satisfazer frações importantes do capital, mas o mesmo governo terá de financiar Previdência, saúde, educação, segurança, transferências e infraestrutura. Não existe engenharia ideológica capaz de abolir essa conta.

A luta de classes reaparece justamente na distribuição do custo. Quando o governo reduz proteção trabalhista e enfraquece organizações coletivas, alguém absorve o risco antes compartilhado. Quando uma família precisa pagar pelo que deixou de encontrar numa política pública, a despesa ressurge em outra parte de sua vida. Quando o trabalhador negocia sozinho diante de uma empresa muito maior, a liberdade contratual esconde uma desigualdade concreta de poder. O governo pode compensar grupos e escolher prioridades. Não pode eliminar o conflito distributivo produzido pela própria estrutura que pretende aprofundar.

Há ainda uma contradição que nenhum nacionalismo de palanque resolve. Entre janeiro e setembro deste ano, a China recebeu 29,75% das exportações brasileiras. Os Estados Unidos ficaram com 9,65%. O bolsonarismo fez da aproximação política com Washington um eixo de sua identidade internacional, mas governar o Brasil exige lidar com uma estrutura econômica na qual a China é decisiva para agronegócio, mineração, balança externa e estabilidade. Subordinar essa relação à disciplina geopolítica dos Estados Unidos produziria custo interno. Preservá-la exigiria reconhecer que o interesse nacional brasileiro não coincide automaticamente com a estratégia de Washington. Soberania é justamente a capacidade de decidir a partir dessa diferença.

A tensão atravessaria o próprio bloco governista. Agronegócio dependente do mercado chinês, capital financeiro, indústria, governadores, forças de segurança e parlamentares não carregam prioridades idênticas. Inimigos comuns podem reunir essas forças na oposição. Governar obriga a decidir diariamente quem ganha, quem perde e quem paga. É nessa passagem da unidade contra alguém para a administração concreta dos interesses que surgem fissuras reais.

Nada disso garante crise política. Regimes autoritários sobrevivem durante anos quando conseguem proteger setores decisivos, distribuir perdas de maneira desigual e convencer parte suficiente da população de que a responsabilidade pertence a outro. A fabricação do inimigo ganha, nesse momento, uma função ainda mais prática. Ela administra culpa. Se o próprio governo concentra instrumentos de decisão, precisa trabalhar cada vez mais para demonstrar que algum poder oculto continua impedindo a prosperidade prometida. Só que a propaganda atua sobre a experiência, não no lugar dela. Medo e identidade podem sustentar lealdades por muito tempo, mas não tornam irrelevantes salário, serviço público, dívida familiar e expectativa de futuro.

O ônus do poder absoluto está nessa passagem. O problema não é saber se o fascismo consegue administrar o Brasil. Consegue administrar, reprimir, distribuir, privatizar, investir e produzir consentimento. O teste é saber por quanto tempo consegue manter juntos os interesses de quem espera lucrar com a reorganização do Estado e as expectativas de quem entregou seu voto esperando melhorar de vida. Se essa equação se romper, a contradição não trabalhará automaticamente a favor da democracia. Pode produzir desilusão, mas também radicalização, medo e mais violência. Esperar o fracasso do fascismo nunca poderá ser uma estratégia.

A resposta democrática precisa começar antes. A democracia é inclusive votar em quem não se gosta mas se sabe um democrata.  Defender instituições continuará indispensável, mas será insuficiente se democracia voltar a significar apenas regras formais para milhões de pessoas submetidas à precariedade e à falta de horizonte. Democracia precisa existir na experiência concreta como trabalho digno, moradia, saúde, segurança, mobilidade, educação, tempo e participação nas decisões que organizam a vida. Sem isso, o fascismo continuará encontrando matéria social para transformar abandono em ressentimento e ressentimento em autoridade.

Também será necessário abandonar o desprezo pelo trabalhador que aderiu ao bolsonarismo. Muitos desses eleitores não ignoram simplesmente os próprios interesses. Seus interesses foram interpretados e organizados politicamente por outro campo. O motorista de aplicativo que se percebe como empreendedor, a família que associa proteção ao discurso religioso, o pequeno comerciante que identifica imposto como inimigo e o trabalhador que exige segurança vivem contradições reais. A resposta democrática não pode dizer a essas pessoas que compreenderam a própria vida de forma errada. Precisa construir uma explicação mais poderosa para a experiência que elas efetivamente vivem e, principalmente, oferecer capacidade material de transformá-la.

Isso exige organização. Sindicatos capazes de falar com o trabalho do século XXI, movimentos presentes nos territórios, partidos enraizados fora dos períodos eleitorais, comunicação própria, inteligência estratégica e instituições capazes de organizar trabalhadores dispersos, informais, terceirizados e conectados por plataformas. Reconstruir o comum não significa ressuscitar mecanicamente as formas do século passado. Significa devolver força coletiva a uma sociedade que foi treinada a se relacionar com mercado, Estado e política cada vez mais como uma soma de indivíduos.

A disputa tecnológica faz parte dessa reconstrução. Um país que terceiriza dados, nuvens, inteligência artificial, comunicação e parte crescente de sua capacidade de decisão entrega parcelas de sua soberania. Não existe projeto democrático consistente se o espaço no qual a população percebe o mundo e toma decisões estiver organizado por estruturas privadas submetidas a interesses externos. Soberania no século XXI continua passando por energia, indústria, território e recursos naturais, mas passa também por processamento, modelos, redes e capacidade cognitiva.

É nesse sentido que o socialismo recupera sua questão mais concreta. Não se trata de prometer que o Estado dará mais coisas às pessoas. Trata-se de mudar quem possui capacidade para decidir o que será produzido, como a riqueza será distribuída, quais tecnologias serão desenvolvidas, quem controlará a infraestrutura e quais interesses orientarão o país. Proteção sem poder pode produzir dependência. Democracia duradoura exige sujeitos capazes de interferir sobre as condições de sua própria existência.

Essa é a dimensão do problema que o segundo turno colocou diante do Brasil. Se Flávio Bolsonaro perder, o fascismo não desaparecerá. Cinquenta e seis milhões de votos, uma bancada gigantesca e uma estrutura social capaz de sustentar esse projeto continuarão existindo. Se vencer, a disputa mudará de escala. O campo fascista terá instrumentos muito maiores para realizar aquilo que promete e carregará, ao mesmo tempo, a responsabilidade pelas consequências de suas escolhas. A democracia não pode apostar sua sobrevivência na incapacidade do adversário de suportar esse peso. Precisa reconstruir, desde agora, a força social, política, tecnológica e nacional capaz de impedir que o poder absoluto de alguns seja construído sobre a impotência de todos os outros.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. Editor do codigoaberto.net É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

Luciana Bauer é jurista, pesquisadora e escritora. Pós-doutora em Direito pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em regime de dupla titulação com a Pace University (Estados Unidos). Doutora em Direito (SJD) pela Widener University Delaware Law School (EUA). Mestre em Ciência Jurídica pela Univali, em dupla titulação com o LL.M. da Widener University Delaware Law School. Graduada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atuou por mais de duas décadas como Juíza Federal do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “

Artigo Anterior

PF arquiva investigação sobre interferência dos EUA nas eleições

Próximo Artigo

Juíza condena Flávio a pagar multa e nega apagar vídeo sobre Master

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!