O Estadão é uma escolha difícil, por Tarso Genro
Estadão é um jornal conservador histórico que merece respeito. Merece mesmo, por ter mantido a coerência em visibilizar de forma transparente, ao longo da sua existência, todos os interesses políticos imediatos e os interesses econômicos de médio e longo prazo da elite paulista.
O seu mérito é nunca ter disfarçado isso. E portanto de ter ajudado a criar condições para um debate de fundo, sobre os rumos da sociedade brasileira e sobre os canais democráticos legítimos para buscar este rumos.
Mas em determinados momentos ele perde a coerência e até mesmo a seriedade conservadora, não dogmática e não fascista, que sempre lhe caracteriza.
Foi assim no seu monstruosos editorial , em 2018,”uma escolha difícil”, que na verdade revelava, no caso, uma preocupação que não é original na imprensa hereditária: não perder laços de financiamento possíveis com a extrema-direita paulista, se Bolsonaro vencesse, como aliás venceu naquela eleição.
Ali foi uma espécie de editorial “muié rendera”, eu te ensino a “fazê renda tu me ensina a namorá”.
Como petista e ex-Presidente do PT, quero dizer que o editorial de hoje do Estadão distorce e manipula, ao fazer uma “incriminação” em grupo sobre a posição dos petistas que “querem desvincular Lula” da crise do STF”. Usa aqui, o Estadão, de uma velha prática alugada da política do nazi-fascismo: a incriminação política em abstrato, para atingir toda uma comunidade de milhões de filiados e simpatizantes de um partido e de uma frente política que, no contexto – com suas grandezas e defeitos -defende a democracia e a república contra um “outro lado”.
E o que é outro lado? São os subterrâneos do crime organizado, em torno de uma candidatura herdeira do bolsonarismo que representa, sem nenhum pudor, os interesses de um estado estrangeiro e desenvolve, também sem nenhum pudor, uma política de traição nacional.
Caro Estadão, a ampla maioria dos petistas – doa a quem doer, inclusive do nosso meio – quer ver Lula cada vez mais perto desse “escândalo”, para ajudar a desvendá-lo, cujos personagens centrais são outros.
Por estes “outros”, Lula apenas torce que tenham direito a ampla defesa nos Tribunais, inclusive perante os “julgamentos” (por vezes linchamentos) da imprensa: Mendonça, bolsonarista que debocha da laicidade do Estado; Moraes, que tem o que explicar a respeito das suas relações com bancas de advocacia, que foi nomeado por Temer depois do golpe parlamentar contra Dilma; e Toffoli, que se tornou adversário explícito do Presidente depois que se aproximou do bolsonarismo, ainda na época do inominável como Presidente.
O “céu” nem sempre acolheu todos os justos, mas o inferno – como os campos de concentração – sempre estiveram cheio de “neutros”, por covardia ou engano.
Tarso Genro – Advogado, Prefeito de Porto Alegre, Ministro do governo Lula e Governador do RS. Pai da Luciana e da Vanessa e avô de três netos. Casado com Sandra Bitencourt.
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