A Caixa Econômica Federal atende mais de 156 milhões de brasileiros e funciona como o principal agente executor de políticas públicas do Governo Federal. É responsável pelo pagamento de benefícios sociais como Bolsa Família, FGTS e Seguro-Desemprego. É líder em financiamento de imóveis, facilitando a compra da casa própria para milhões de famílias. Intermedia o fluxo financeiro de obras de infraestrutura, Novo PAC e investimentos em água e esgoto. Exerceu papel fundamental na pandemia, pagando sozinha o auxílio emergencial.
A última greve dos bancários ocorreu em 2016. Nesse hiato de dez anos, vivenciamos o golpe sobre a Dilma, o impopular governo Temer, o tenebroso governo Bolsonaro, iniciado com uma nova e cruel reforma da previdência e terminado com uma tentativa de golpe. Um contexto de retirada de direitos, bastante desfavorável para o trabalhador. No meio disso tudo a Reforma Trabalhista impôs a lógica do “negociado que se sobrepõe ao legislado”, o que gerou uma série de acordos rebaixados, em que perdíamos alguma coisa a cada negociação.
Do governo Temer em diante, a privatização da CAIXA voltou à pauta. Várias partes da empresa foram de fato vendidas a preços questionáveis, principalmente no governo Bolsonaro, fazendo com o que o lucro do conglomerado CAIXA hoje seja repartido com acionistas privados.
Do governo Temer em diante, a privatização da CAIXA voltou à pauta. Várias partes da empresa foram de fato vendidas a preços questionáveis, principalmente no governo Bolsonaro, fazendo com o que o lucro do conglomerado CAIXA hoje seja repartido com acionistas privados.
Medidas privatistas se intensificam: a ausência de contratações de novos empregados, cortes de gastos com manutenção, segurança, prevenção a doenças ocupacionais ou simplesmente redução de investimentos em tecnologia, um absurdo para o que é o serviço bancário hoje. Os impactos sobre as condições de trabalho e a insegurança financeira para o trabalhador dessas medidas foi enorme e se acumulou de forma insuportável nos últimos 10 anos.
Por que o SAÚDE CAIXA?
Para preparar a CAIXA para a total privatização, os últimos 10 anos foram marcados por uma caça às bruxas aos direitos conquistados com muita luta nos 25 anos anteriores. Os privatistas passaram a perseguir como vilões direitos como o fundo de pensão FUNCEF e o plano de saúde, dentre outros mecanismos de proteção ao trabalhador.
Em 2017 sob Temer, a direção da CAIXA impôs a si mesma um teto de gastos para a participação no custeio de plano de saúde. A partir dali, somente 6,5% sobre a folha de pagamento poderiam ser usados para custear o SAÚDE CAIXA, o restante caberia ao empregado. E não foi só: no concurso público em que boa parte dos empregados admitidos eram PCDs, foram admitidos a partir de 2018 já sem nenhum direito a plano de saúde. Daí em diante, um plano superavitário seguiu ladeira abaixo e a conta caiu só para os empregados: déficits acumulados, inclusão da 13° mensalidade, pós-2018 acessam o plano, mas não levam para a aposentadoria, aumento exponencial das mensalidades, cobrança de dependentes. O custeio que antes era 70% do empregador e 30% dos empregados, passou para 50/50. O desconto nos contracheques subiu a ponto de ser mais caro do que manter um plano de saúde de mercado, que visa o lucro, mesmo com a participação da empresa. Seguindo nesse caminho, a previsão é de que se torne insolvente por desassistência (trabalhador pode sair do plano por solicitação), causada por incapacidade de pagamento, num período de 2 a 4 anos.
O mesmo período pós 2017 foi marcado por descredenciamentos, cobranças indevidas, procedimentos superfaturados, falta de transparência e de controle. Mesmo os conselheiros eleitos pelos trabalhadores não têm acesso a detalhes do uso dos recursos do plano.
O objetivo privatista é nítido: acabar com o Saúde Caixa. E para isso, a cada campanha ele se torna mais inviável para os beneficiários. A bola da vez (ou as bolas) são a inclusão das faixas etárias e a individualização da cobrança por vida. Desta forma dificultará a permanência de aposentados, maiores de 55 anos e dependentes. Veja abaixo a evolução dos descontos no contracheque:

Os empregados admitidos após 2018 reconquistaram o direito ao Saúde CAIXA em 2023, mas ainda assim ainda não têm o direito de manter o plano após a aposentadoria. Essa é outra questão central.
Metas abusivas e falta de valorização: uma bomba relógio para a saúde mental
A cobrança de metas abusivas decorrentes da privatização da Caixa Seguridade, chegou ao limite do suportável no momento em que o banco resolveu mudar a forma de remuneração de comissões. O pagamento por venda foi substituído por regras complexas que na prática reduziram ou até eliminaram o recebimento. Você é obrigado a vender, mas não sabe quando, nem quanto e nem se receberá por isso.
Além disso, empregados nas agências físicas são submetidos à situação de ter que atender o cliente presencialmente ao mesmo tempo que trata uma fila virtual de atendimento por mensagem, com métricas de cobrança de tempo de espera em ambas as filas. Os empregados de T.I. estão submetidos permanentemente a jornadas e escalas de trabalho exaustivas, o que foi agravado após mudanças na regra do banco de horas. A categoria bancária, por alguns anos seguidos, é uma das que mais se afasta por doenças psiquiátricas.
Redução do salário real, greve e prática antissindical da diretoria da CAIXA
Os desgastes recorrentes culminaram num acordo com perda salarial. Sim, o banco lucrou 16 bilhões em 2025, na FENABAN os bancários conquistaram INPC + 0,6%, porém os empregados da CAIXA perderão 2% só com o reajuste proposto para o plano de saúde, que na prática aumenta as mensalidades de 25 a 30%.
No dia 20/08 fizemos nossa primeira paralisação. Empregados de todos os setores, incluindo gerentes de agências, fizeram um grande movimento unificado que demonstrou o descontentamento com os rumos da negociação. As últimas propostas apresentadas pela empresa continuam a imputar perdas aos trabalhadores. Sem uma alternativa, a categoria deflagrou greve por tempo indeterminado a partir de 04/09 (Pará) e na maioria das outras bases a partir de 10/09.
Estima-se que nesses poucos dias, mais de 50 mil empregados da CAIXA deixaram de marcar o ponto, fechando milhares de agências e impactando nas principais operações do banco. A Caixa Seguridade viu suas ações caírem na bolsa.
Já no primeiro dia da greve, uma nova proposta com poucas mudanças foi apresentada pela CAIXA e rechaçada. A direção da empresa resolveu partir para ameaças, como a judicialização e o corte de direitos históricos, como o pagamento de VA e VR. Por outro lado, a aprovação de vantagens na ordem de 79 milhões para altos executivos acirrou ainda mais os ânimos e a greve deve se intensificar a partir desta semana com a adesão de gerentes gerais de unidades.
Cenário político instável e direção irresponsável da CAIXA
O cenário político do país, em período eleitoral, não é o ideal para os trabalhadores se defenderem, pois, a divisão política do país torna todo fato elemento de disputa. Mas a direção da empresa não deixou alternativa e obrigou os empregados da CAIXA a lutarem por suas condições de trabalho e direitos. O presidente da CAIXA é afilhado de Arthur Lira e sinais contraditórios de para qual time ele joga aparecem com frequência.
O cenário político do país, em período eleitoral, não é o ideal para os trabalhadores se defenderem, pois, a divisão política do país torna todo fato elemento de disputa. Mas a direção da empresa não deixou alternativa e obrigou os empregados da CAIXA a lutarem por suas condições de trabalho e direitos. O presidente da CAIXA é afilhado de Arthur Lira e sinais contraditórios de para qual time ele joga aparecem com frequência.
A falta de preocupação da empresa com a possibilidade da greve estourar nesse período, ocorre depois do programa MOVE BRASIL ter tido alcance muito menor do que o esperado. Motoristas de aplicativos sem restrições cadastrais e com baixo endividamento tiveram o financiamento reprovado pela política de risco de crédito.
A próxima semana será decisiva
A greve conta com ampla adesão, o que não acontecia há décadas na CAIXA, e foi organizada principalmente pela base. Há rumores de tentativas de apartar o plano de saúde do acordo de trabalho com o objetivo de trazer uma solução rápida, porém não efetiva aos trabalhadores.
Os empregados da CAIXA querem retomar o trabalho importante que sempre prestaram e é indispensável à sociedade brasileira. Mas em que condições retornarão? Valorizando a força construída nessa greve, enquanto categoria unida por melhores condições de trabalho e preservação de direitos, ou cedendo a ameaças de ambos os lados e acreditando em falsas promessas?