Nunes Marques tenta calar o Exército do Lula. E os defensores das liberdades ficarão calados? Por Moisés Mendes

Kassio Nunes Marques
Kassio Nunes Marques, ministro do Supremo Tribunal Federal. Foto: Reprodução

Será divertido ver os que se esconderão nas moitas e os que andarão em círculos diante da decisão do ministro Kassio Nunes Marques de censurar o ‘Exército do Lula’, comandado por André Janones no WhatsApp. Liberais adoradores de todas as liberdades, juristas mobilizados nos jornalões, os próprios jornalões, os agregados à defesa de quase tudo o que é dito pela extrema direita – o que eles dirão do bloqueio do exército de 3 milhões de pessoas?

Uma reação pontual da grande imprensa dá os primeiros sinais do drama que pode se instalar nas redações das corporações. Um editor de plantão no Globo escreveu logo depois da decisão: “Nunes Marques passa por cima de corregedor do TSE, atende a pedido de Flávio Bolsonaro e manda derrubar canal Exército de Lula”.

O Estadão deu em manchete: “TSE derruba canal ‘Exército do Lula’ no WhatsApp por ‘replicar conteúdo inverídico’; medida atende a Flávio”. A palavra “inverídico” já editorializava a chamada, que foi reavaliada uma hora depois e ficou assim: “Nunes Marques atende a pedido de Flávio Bolsonaro e derruba canal ‘Exército do Lula’ no WhatsApp”. Alguém conteve o ímpeto do editor.

E a Folha manteve, até a conclusão deste texto, a única manchete de alto de capa que usou a palavra censura: “Kassio atende a pedido de Flávio Bolsonaro e manda censurar canal pró-Lula criado por Janones”.

Manchete da Folha. Foto: Reprodução

Por que essas manchetes são importantes? Porque darão uma boa medida de como será a reação de protagonistas desses tempos de retomada de decisões autoritárias. E a grande imprensa tem muito protagonismo, como omissa, como colaboracionista ou como covarde mesmo, sempre ostentando a condição de detentora maior do direito à liberdade de expressão. Inclusive para apoiar golpistas.

Acompanharemos a partir de agora as reações de outros atores importantes. Os juristas liberais, os legalistas de todas as áreas, os especialistas convocados a dar opinião sobre tudo pelos jornalões, os colegas de Nunes Marques nas altas Cortes. Lula, o PT, democratas não só das esquerdas e todos os setores comprometidos com as liberdades dirão o que sempre dizem: que é censura.

Mas qual será o impacto dessa decisão na coerência dos defensores históricos das liberdades? Vai prevalecer, no campo conservador engolido pela extrema direita, a tese exposta na primeira manchete do Estadão de que Nunes Marques apenas conteve um exército usado para ‘replicar conteúdo inverídico’? A OAB continuará subserviente, encolhida e calada?

Na área das reações essencialmente políticas, é de se perguntar se, em substituição ao exército de Janones abatido pelo TSE, outros batalhões não poderão ser criados. O que impede que a democracia reaja não só com 3 milhões, mas com 10 milhões de soldados das liberdades?

A censura de Nunes Marques, assim definida até pelo plantonista da Folha (se é que não irão corrigi-lo), não terá efeito contrário ao pretendido por Flávio Bolsonaro? E se a decisão do presidente do tribunal desencadear a formação de exércitos autônomos de apoio a Lula?

Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro. Foto: Reprodução

Outra pergunta óbvia como um ovo é a que põe em dúvida o que acontecerá se petição semelhante foi feita ao TSE em relação não aos soldados, mas aos milicianos da extrema direita. O TSE vai passar a conter publicações do fascismo que atacam Lula e Alckmin? Que agridem deputadas negras. Que mentem sobre filmes imaginários?

Não sejamos otimistas. As milícias digitais do bolsonarismo existem desde a eleição de 2018. Muitas estão incluídas no inquérito das fake News e impunes até hoje. Combater milicianos é mais difícil do que abater soldados democratas.

É GUERRA

Este texto acima foi publicado antes da decisão do ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, corregedor-geral eleitoral do TSE, que derrubou a decisão do próprio presidente do tribunal, neste domingo, ao determinar a implosão do “Exército do Lula” de Janones.

É uma medida liminar, tomada horas depois da decisão de Nunes Marques. Meu texto acima continua valendo. Esperemos as manifestações de todos os covardes até agora calados.

Artigo Anterior

Entidades científicas pedem ao TSE fim da censura do canal “Exercício de Lula”

Próximo Artigo

TSE investiga apoio irregular de Marçal e site de cripto a Flávio Bolsonaro

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!