Ritmo Alucinante: Busca da China para Construir o Futuro
por Fernando Nogueira da Costa
Breakneck: China’s Quest to Engineer the Future, livro publicado em 2025, de autoria de Dan Wang, analisa a ascensão da China como um Estado de Engenharia, focado em construção e produção em massa. Contrasta o dinamismo da construção chinesa, exemplificado por cidades como Shenzhen e projetos em Guizhou, com a natureza litigiosa e burocrática da Sociedade de Advogados dos Estados Unidos.
Explora como a elite tecnocrática de Pequim prioriza o desenvolvimento industrial e a infraestrutura, ignorando até direitos individuais ou o bem-estar social. Por meio de relatos pessoais sobre o avanço da alta velocidade ferroviária, Wang ilustra a eficácia da mobilização estatal chinesa em comparação ao atual impasse institucional americano.
No entanto, ele também detalha o lado sombrio desse modelo, incluindo endividamento excessivo, projetos inúteis e rígidos controles sociais. Discute como a competição global entre as duas superpotências será moldada pela capacidade de cada uma em gerenciar o progresso técnico e a governança interna.
Dan Wang, primeiro, destaca paralelos e semelhanças culturais entre os Estados Unidos e a China. Apesar da rivalidade geopolítica constante, os povos americano e chinês são surpreendentemente semelhantes. Ambos compartilham uma forte veia materialista e pragmática, o culto a empreendedores de sucesso, o espírito competitivo e uma profunda apreciação pelo “sublime tecnológico” — o fascínio por grandes projetos de engenharia capazes de desafiarem os limites físicos.
Depois, apresenta ambos como fossem os motores da ordem global. A relação e o funcionamento interno dos EUA e da China reconfiguram a ordem internacional. Ambos atuam como as principais fontes de transformação tecnológica do mundo moderno, superando o impacto de qualquer outra região ou bloco.
Em seguida, aponta a dualidade do desenvolvimento chinês. A partir de sua experiência pessoal como analista de tecnologia, vivendo na China, o autor descreve como presenciou simultaneamente um enorme dinamismo econômico e um ambiente de sufocamento político sob Xi Jinping.
Ele resume essa contradição apontando: “o Estado chinês avança rápido e quebra coisas, mas também avança rápido e quebra pessoas”. Combina empreendedorismo pulsante com controle autoritário.
A tese central do livro é o confronto entre Estado de Engenharia vs. Sociedade de Advogados. A grande ideia-guia é o contraste entre os modelos de governança das duas superpotências.
China é apresentada como um Estado de Engenharia. Dominada politicamente por tecnocratas e engenheiros, a liderança chinesa é focada na construção e execução física em velocidade vertiginosa, entregando obras e infraestrutura de grande escala.
Estados Unidos são vistos como uma Sociedade de Advogados. Dominados por elites formadas no Direito, os EUA tornaram-se obcecados por procedimentos, litígios e regulamentações. Costuma resultar em paralisia e no bloqueio sistemático de novos projetos físicos.
O livro aborda tanto o progresso espetacular quanto o lado sombrio do modelo chinês ao atropelar direitos individuais. A melhor prevenção contra um conflito devastador entre as duas potências é a curiosidade mútua, reconhecendo cada lado oferecer uma visão sobre como o outro poderia melhorar.
Meu comentário é: autores chineses ou americanos devem se lembrar do início e fim do etnocentrismo. O eurocentrismo teve origem no período colonial e nas Grandes Navegações (século XVI), consolidando-se durante o Renascimento e o Iluminismo. Nações como Portugal, Espanha, Inglaterra e Holanda conquistaram territórios com genocídios de nativos na América, na África e na Ásia.
Os europeus usaram a ideia de superioridade cultural e religiosa para legitimar a exploração e a violência contra os povos nativos. A Europa era tratada como fosse o único centro da história humana, definindo padrões globais de ciência, beleza, moral e progresso. O conceito também se apoiou em uma narrativa considerando a Grécia antiga como o berço exclusivo da civilização ocidental.
O americocentrismo é a tendência de enxergar e julgar o mundo a partir de uma perspectiva excessivamente focada nos Estados Unidos, considerando a cultura, os valores e os padrões americanos como superiores ou mais importantes que os dos demais países. Assim como outros Impérios, entrou em decadência. A China, já tendo vivenciado uma ascensão e queda, no milênio passado, deveria evitar o etnocentrismo: a tendência de julgar outras culturas usando a própria cultura como o único modelo correto de referência.
A China opera como um Estado de Engenharia, cuja obsessão e principal virtude é construir infraestrutura e capacidade industrial em velocidade vertiginosa. Em contrapartida, os EUA transformaram-se em uma Sociedade de Advogados, na qual procedimentos, vetos regulatórios e litígios frequentemente travam a execução de novos projetos físicos.
Isso se relaciona com a formação e composição das elites. Desde as reformas de Deng Xiaoping, a China promoveu tecnocratas e engenheiros para os mais altos cargos do governo — como no Comitê Permanente do Politburo e na liderança militar/aeroespacial sob Xi Jinping —, trazendo experiência prática na gestão de megaprojetos. Nos EUA, o poder político (Congresso, presidência da República e burocracia) é dominado por formados em Direito, sendo raros os líderes com formação em Ciências ou Engenharia, sendo exceções históricas os presidentes Herbert Hoover e Jimmy Carter.
Nos EUA, a proliferação de regulamentações e ações judiciais criou o chamado de “fetichização do procedimento”, onde cumprir etapas burocráticas se tornou mais importante em lugar de entregar resultados concretos.
Na China, a Engenharia Social se extrapola devido à visão mecanicista da sociedade. A liderança chinesa não aplica a lógica da engenharia apenas a estradas ou barragens, porque ela atua como fosse um engenheiro social.
O Estado tende a tratar a população e os problemas sociais como equações de fluxo ou cálculos matemáticos — maximizando o poder do Estado e minimizando os direitos individuais. Exemplos dessa visão agregada incluem a Política do Filho Único, os lockdowns rígidos da Política de Covid Zero e as intervenções estatais nos setores imobiliário e de tecnologia.
Por isso, há os “ritmos descontínuos” da vida na China. Devido às guinadas autoritárias do regime sem o contraponto de críticas públicas ou garantias individuais, a vida na China é marcada por ritmos imprevisíveis.
Há um mau viés social nos dois modelos. Enquanto na China a falta de garantias jurídicas deixa até os mais ricos vulneráveis às decisões súbitas de Pequim, na Sociedade de Advogados norte-americana o sistema favorece os mais abastados. Afinal, podem pagar advogados, para vetar construções indesejadas ou proteger seu patrimônio, enquanto a população geral sofre com a infraestrutura decadente e a moradia inacessível.
O desafio atual é a competição geopolítica entre ambos os países. No cenário internacional, os EUA tentaram responder à competição tecnológica utilizando advogados para desenhar teias complexas de sanções e controles de exportação. No entanto, contra um Estado de Engenharia, focado em capacidade de fabricação e escala industrial massiva, controles legais por si só não contêm a capacidade física e de execução chinesa.
Os EUA desenvolveram um pavor de grandes obras e uma obsessão por procedimentos judiciais. Eles paralisaram a capacidade do país de construir habitação, trens e infraestrutura moderna.
Há necessidade de resgatar “o espírito de engenharia” nos Estados Unidos. Para manter sua liderança e viabilizar metas como a transição energética e a renovação urbana, os EUA precisam recuperar sua antiga capacidade de execução física — exemplificada no passado pelo programa Apollo, pelas redes de rodovias e pelos submarinos nucleares. Os EUA não podem continuar dependendo exclusivamente de soluções virtuais (Big Tech e finanças), enquanto sua infraestrutura real se deteriora e é superada pela capacidade produtiva chinesa.
O autor reitera: o modelo chinês possui um limite claro porque o Partido Comunista desconfia profundamente do seu próprio povo e sufoca a liberdade individual e a criatividade. Por essa razão, a China enfrenta sérias dificuldades para projetar um soft power cultural atraente para o resto do mundo, dependendo essencialmente do poder bruto de sua máquina industrial e de construção.
Dan Wang conclui o livro defendendo o grande trunfo dos Estados Unidos ser o seu pluralismo e a proteção aos direitos individuais. Os EUA deveriam adotar com orgulho a mentalidade de um “país em desenvolvimento” no sentido de reconhecer o país não estar “pronto” ou acabado, devendo renovar constantemente seu ímpeto de transformação física e social para o futuro.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
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