
Entidades científicas e representativas do ensino superior pediram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que reveja a censura do canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, e adote critérios isonômicos nas decisões sobre as eleições de 2026. A carta aberta, divulgada no domingo (11), questiona a medida determinada pelo presidente do tribunal, ministro Kássio Nunes Marques, após pedido da campanha de Flávio Bolsonaro.
O canal, administrado pelo deputado federal André Janones, tinha mais de 3 milhões de participantes. As entidades afirmam que a Justiça Eleitoral deve remover publicações falsas e responsabilizar seus autores, mas rejeitam bloqueios coletivos de canais e perfis sem análise individualizada, prova concreta e direito de defesa.
Assinam o documento a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Academia Brasileira de Ciências (ABC), Andes-SN, Andifes, ANPG, FASUBRA Sindical, PROIFES-Federação e o movimento Reitores pela Democracia. O grupo sustenta que decisões provisórias tomadas a duas semanas do segundo turno podem afetar as condições da disputa presidencial.
“Não se trata de defender uma candidatura. Trata-se de impedir que a Justiça Eleitoral seja usada para silenciar eleitores, enquanto as interferências mais graves destas eleições seguem sem resposta”, afirmam as entidades.
Entidades pedem investigação sobre token B22 e plataformas
A carta cobra prioridade na investigação do token B22, mecanismo que teria oferecido criptomoedas em troca de propaganda eleitoral favorável a Flávio Bolsonaro. A campanha do candidato nega envolvimento, e o TSE suspendeu o mecanismo, mas ainda não identificou publicamente quem criou, financiou ou lucrou com a operação.
O documento também cita um teste independente no qual a Meta aprovou uma montagem falsa de Donald Trump declarando apoio a Flávio Bolsonaro. As entidades defendem perícia independente sobre denúncias envolvendo plataformas e a comparação de dados sobre o tratamento dado às candidaturas.
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O NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, identificou anúncios que imitavam a Justiça Eleitoral e ofereciam uma falsa “votação remota” a eleitores com problemas de saúde. O levantamento também encontrou 568 anúncios irregulares durante o período de proibição da propaganda paga e anúncios contra instituições que renderam até R$ 2,1 milhões à Meta.
As organizações pedem que o TSE submeta a suspensão do canal ao plenário e, se houver irregularidades, substitua o bloqueio pela remoção de publicações específicas. Também solicitam transparência nas decisões, revisão humana de anúncios eleitorais pelas plataformas até o segundo turno e acesso de pesquisadores independentes aos dados.
Íntegra da carta aberta enviada ao TSE
Carta Aberta ao Tribunal Superior Eleitoral em Defesa da Integridade e do Equilíbrio das Eleições de 2026
Ao Tribunal Superior Eleitoral, às autoridades da República, às plataformas digitais e à sociedade brasileira
As entidades que assinam esta carta dirigem-se ao Tribunal Superior Eleitoral em um momento decisivo. Faltam duas semanas para o segundo turno, e o Tribunal já começou a tomar decisões que alteram as condições da disputa. Não se trata de defender uma candidatura. Trata-se de impedir que a Justiça Eleitoral seja usada para silenciar eleitores, enquanto as interferências mais graves destas eleições seguem sem resposta.
No domingo, 11 de outubro, atendendo a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, o presidente do TSE, ministro Kássio Nunes Marques, determinou a suspensão do canal “Exército do Lula” no WhatsApp, administrado pelo deputado federal André Janones e com mais de 3 milhões de participantes. A mesma campanha pede ainda a suspensão de 32 perfis, a remoção de 221 publicações e a cassação do registro da chapa adversária, acusando uma rede de 1.525 contas de espalhar desinformação, embora os próprios autores reconheçam que nenhuma das publicações saiu do perfil do candidato adversário.
Se houve publicações falsas, elas devem ser removidas e seus autores responsabilizados. Mas calar em bloco canais e perfis de apoiadores de um candidato, por decisão individual e provisória, a duas semanas da eleição presidencial, é medida de outra natureza: atinge milhões de eleitores, desequilibra a disputa e cria um precedente perigoso para todas as eleições futuras. O próprio Tribunal já mostrou o caminho certo ao remover, nos últimos dias, publicações específicas de ambas as campanhas, com fundamentação. É esse padrão que deve prevalecer.
O contraste é evidente. A candidatura que pede a suspensão de canais adversários foi a beneficiária declarada de um dos esquemas mais graves de interferência destas eleições: o token B22, que ofereceu criptomoedas a quem publicasse pedidos de voto em Flávio Bolsonaro e enviou 120 milhões de tokens a um grupo de dança infantil de Uganda, que publicou um vídeo com crianças cantando uma mensagem eleitoral. O TSE suspendeu o mecanismo, a campanha nega envolvimento, e até hoje não se sabe quem o criou, quem o financiou e quem lucrou.
Em teste independente, a Meta aprovou ainda uma montagem falsa em que Donald Trump declarava apoio ao mesmo candidato. O ambiente digital destas eleições já está contaminado. O NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, encontrou anúncios que se passavam pela Justiça Eleitoral e ofereciam uma falsa “votação remota” a eleitores com problemas de saúde, 568 anúncios irregulares no período em que a propaganda paga era proibida e anúncios contra as instituições que renderam até R$ 2,1 milhões à Meta. A campanha de Lula acusa a Meta de restringir seletivamente o alcance de suas publicações, o que a empresa nega, e o TSE determinou que a plataforma explique se aplica as mesmas regras às duas campanhas. É esse tipo de verificação que deve valer para todas as denúncias.
A legislação oferece os instrumentos para agir com firmeza e equilíbrio. O Código Eleitoral pune quem oferece vantagem em troca de voto ou usa prêmios para atrair eleitores (arts. 299 e 334). A Lei das Eleições restringe a propaganda paga na internet e pune a captação ilícita de sufrágio (arts. 57-C e 41-A). A Resolução TSE nº 23.610/2019 proíbe remunerar quem divulga propaganda e responsabiliza as plataformas que não agem contra a desinformação. E a Constituição assegura a todos a liberdade de expressão, o contraditório e o devido processo legal, garantias que valem para os dois lados.
Por isso, pedimos ao Tribunal Superior Eleitoral que submeta com urgência ao Plenário a suspensão do canal “Exército do Lula”, substituindo-a, se for o caso, pela remoção das publicações irregulares; que não conceda suspensões coletivas de canais e perfis sem análise individual, prova concreta e direito de defesa, aplicando os mesmos critérios a todas as candidaturas; que dê prioridade à investigação do B22, identificando quem criou, financiou e lucrou com o token; que apure por perícia independente as denúncias contra as plataformas, comparando os dados de todas as candidaturas; e que torne públicas as decisões e seus fundamentos.
Às plataformas, pedimos revisão humana dos anúncios eleitorais até o segundo turno e acesso de pesquisadores independentes aos seus dados. A Justiça Eleitoral brasileira é reconhecida no mundo por sua integridade. É essa integridade que pedimos que seja preservada agora: rigor contra quem paga para manipular o debate, proteção a quem apenas manifesta sua opinião e respeito à palavra do eleitor.
11 de outubro de 2026.
Assinam esta carta: ABC – Academia Brasileira de Ciências. ANDES-SN – Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior. ANDIFES – Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior. ANPG – Associação Nacional de Pós-Graduandos. FASUBRA Sindical – Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-Administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil. PROIFES-Federação – Federação de Sindicatos de Professores e Professoras de Instituições Federais de Ensino Superior. Reitores pela Democracia – Movimento Reitores pela Democracia. SBPC – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.