Miriam Leitão desmonta discurso econômico de Flávio: “É enrolação”

Lula e Flávio Bolsonaro. Foto: Divulgação

Em artigo no Globo, a jornalista Miriam Leitão questiona a promessa de Flávio Bolsonaro de realizar um ajuste fiscal de até R$ 200 bilhões, apontando contradições entre o discurso de corte de gastos e as propostas do candidato de ampliar despesas e reduzir impostos. A colunista também analisa a reação do mercado financeiro e os desafios econômicos de um eventual novo governo Lula.

LEIA trechos:

Ele disse que os aposentados terão reajuste acima da inflação. Sua equipe afirmou que aumento real do salário mínimo vai continuar e negou privatizações. Flávio Bolsonaro disse que as emendas parlamentares serão mantidas porque ele sabe “como é suado conseguir voto”. E ainda disse que vai cortar impostos. Tudo somado, vai manter as despesas e diminuir receita. A conta piora.

Flávio Bolsonaro fala e age como vitorioso. Na primeira semana após o primeiro turno, afirmou que fará mudanças na Constituição para “redemocratizar” o país, convidou o presidente da Colômbia para a posse, falou em aumentar o mandato que ainda não recebeu das urnas. No seu entorno, os cargos estão sendo distribuídos. Quem sai na frente no primeiro turno é o favorito e a primeira pesquisa Datafolha mostrou que ele aumentou um pouco a dianteira em relação ao presidente Lula. Mas o eleitor é que tem a palavra final.

O presidente Lula não esclarece o que fará na área fiscal, na hipótese de reeleição. Chegou a dizer em setembro que o governo precisa “parar com essa babaquice de fazer superávit”. Sua equipe, no entanto, prometeu superávits crescentes nos próximos anos. O problema é que, neste fim de mandato, Lula tomou medidas que impactam as contas. No Desenrola 3, o governo vai comprar dívida. O fim das bets, independentemente do mérito da medida, significará uma frustração de receita.

O Brasil tem um problema fiscal que precisa ser enfrentado. E também precisa ser entendido para além do lugar-comum repetido pelos operadores do mercado. Só um país com estabilidade econômica pode construir políticas sociais eficientes. O ajuste fiscal nunca foi uma “babaquice”. Mas o que Flávio tem dito não fica de pé. É enrolação. Ou ele está mentindo para o eleitor ou está mentindo para o mercado financeiro.

Flávio Bolsonaro. Foto: Divulgação

Esse economista lembra que houve também um bom momento com o presidente Lula. Em abril de 2023, o governo apresentou o arcabouço fiscal. Em quatro meses, a taxa de câmbio saiu de R$ 5,20 para R$ 4,70, a bolsa subiu de 100 mil pontos para 120 mil pontos e a curva de juros caiu fortemente. Ao longo de 2024, contudo, a confiança na política econômica começou a piorar.

Sérgio Vale, da MB Associados, faz uma avaliação parecida:

“O mercado já estava com essa ideia comprada de que Flávio Bolsonaro vai fazer um belo ajuste fiscal e o Lula não vai fazer. A gente sabe que não é necessariamente assim, porque a história da família Bolsonaro com ajuste fiscal não é positiva.”

Vale não acredita em promessa de corte de gastos sem haver detalhamento.

Na economia, o governo Lula investiu o seu capital político inicial para aprovar a reforma dos impostos sobre o consumo. Uma mudança necessária e que o Brasil queria há 40 anos. A alíquota somada do CBS e IBS será alta, mas a culpa é do Congresso que se dobrou aos lobbies dos setores que queriam pagar menos. Flávio Bolsonaro prometeu acabar com um instrumento importante da reforma, o que distribui instantaneamente aos governos o imposto pago pelo consumidor, conhecido como split payment. Ele serve para combater a sonegação.

Enfim, a conversa de que a questão fiscal opõe um Lula gastador a um Flávio Bolsonaro austero é balela. Lula errou e acertou na área fiscal. Flávio não diz coisa com coisa quando o assunto é economia.

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