Sakamoto: Lula recebeu ajuda de jovens nas ruas; Flávio, de Mendonça e Kassio no TSE

Ato de campanha de ato pró-Lula na avenida Paulista neste domingo (11). Foto: Divulgação

Por Leonardo Sakamoto no UOL

Lula e Flávio Bolsonaro receberam, hoje, duas ajudas para suas campanhas neste segundo turno. De um lado, a pulsação do asfalto empurrada por uma juventude que decidiu agir para defender o pacto civilizatório contra o retrocesso. Do outro, gabinetes em Brasília que operam com uma assimetria constrangedora, nos quais decisões judiciais impõem freios a uma candidatura enquanto blindam a outra, usando censura descarada.

Na avenida Paulista, o centro gravitacional da campanha Lula mudou de mãos. O protagonismo não pertenceu à burocracia partidária ou aos figurões de sempre, mas sim a coletivos organizados, entidades estudantis e jovens sem filiação que construíram uma convocação robusta e capilarizada nas redes sociais. Embora não tenha havido uma contagem oficial realizada por institutos de pesquisa, os registros aéreos e em vídeo deixam evidente que este foi o maior ato eleitoral realizado na capital paulista em 2026.

A ovação pela multidão das deputadas federais como Erika Hilton (PSOL), Sâmia Bomfim (PSOL) e Luna Zarattini (PT), com força junto ao público mais jovem, não é mero detalhe de palanque. Essa energia explica, em grande medida, por que a campanha lulista conseguiu reencontrar fôlego e renascer no segundo turno.

O medo do retorno ao poder de um grupo político de caráter abertamente autoritário (o mesmo que articulou e tentou executar um golpe de Estado mal-sucedido) foi um dos motores que empurraram jovens, militantes de esquerda e outros grupos preocupado com a democracia para a avenida. Muitos entenderam o tamanho do risco e decidiram compensar os tropeços da campanha e os erros cometidos pelo próprio Lula. Em bom português: os jovens cansaram de esperar e tomaram as rédeas de acontecimentos nas ruas e nas redes.

E enquanto a campanha do petista encontrava oxigênio popular na maior cidade do país, a de Flávio Bolsonaro encontrava socorro nas salas do Tribunal Superior Eleitoral.

As decisões tomadas neste domingo pelos ministros Kassio Nunes Marques e André Mendonça, nomes indicados por Jair Bolsonaro ao STF, vêm sendo recebidas com desconfiança e mal-estar por seus próprios pares na Corte, como apontou apuração de Pepita Ortega, no jornal O Globo. A cúpula do tribunal tem demonstrado celeridade para acolher pedidos que desidratam a campanha de Lula, enquanto adota uma lentidão diante de irregularidades que beneficiam Flávio.

Flávio Bolsonaro e Lula. Foto: Divulgação

O caso protagonizado pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, escancarou esse abismo de critérios. Em menos de 24 horas após receber uma petição da campanha de Flávio, o ministro mandou censurar o canal “Exército do Lula” no WhatsApp, gerido pelo deputado André Janones. A canetada foi tratada nos bastidores da Corte como um “atropelo desnecessário” e uma usurpação direta da competência do corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva.

Ele já havia despachado sobre o caso, fixando prazo para coleta de informações antes de qualquer medida drástica. Kassio ignorou o rito, pulou etapas e acolheu o pedido do senador de forma monocrática e sumária. O gesto soma-se à decisão recente de suspender três julgamentos no plenário virtual no exato momento em que Flávio acumulava maioria desfavorável.

Horas depois, o ministro Cueva restabeleceu o canal de WhatsApp. O corregedor-geral eleitoral não aceitou ser atropelado, mesmo que pelo presidente da corte. Mas a movimentação serviu para jogar luz sobre as reais intenções de Kassio Nunes Marques.

Para completar a pinça institucional, o vice-presidente do TSE, André Mendonça, deu apenas três horas para que a campanha de Lula suspendesse centenas de anúncios pagos no Instagram e no Facebook que alertavam sobre perdas sociais caso o adversário vença o pleito. Sob a justificativa de coibir propaganda negativa e “estímulo de rejeição” (sim, foi isso o que você leu mesmo), Mendonça vetou o debate incômodo sobre programas como Farmácia Popular e aumentos reais do salário mínimo, restringindo o embate político no instante em que o eleitor mais precisa de clareza sobre o que está em jogo.

O contraste deste domingo revela duas dinâmicas simultâneas da disputa presidencial. De um lado, jovens e militantes demonstraram capacidade de reorganizar a mobilização de Lula. De outro, decisões judiciais com efeitos favoráveis a Flávio expuseram os intestinos do TSE — e o cheiro que surgiu não foi bom.

A mobilização nas ruas não substitui o voto, assim como decisões judiciais legítimas não podem ser confundidas automaticamente com interferência partidária. Mas, para que a disputa permaneça democrática, a participação política precisa ser livre e o árbitro eleitoral deve ser capaz de convencer a sociedade de que suas regras valem igualmente para todos.

Na Paulista, jovens mostraram que não pretendem delegar seu futuro às lideranças partidárias. No TSE, cabe aos ministros demonstrar que a autoridade de suas decisões vem da lei e não do CPF dos candidatos que delas se beneficiam.

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