Luciana Santos: Plano de Inteligência Artificial é soberania digital “na veia”

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, apresentou nesta quinta-feira (20), em Macaíba (RN), a estratégia do governo federal para ampliar a capacidade brasileira em inteligência artificial (IA) e computação de alto desempenho. Ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ela classificou o investimento como uma resposta a um dos principais desafios tecnológicos do século e vinculou a política diretamente à soberania nacional.

“Isso aqui é soberania digital brasileira na veia”, afirmou a ministra ao apresentar o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), como uma vacina contra dependências externas. Para ela, a questão não se resume à aquisição de equipamentos: o objetivo é fazer com que o Brasil tenha capacidade de desenvolver tecnologias próprias, formar profissionais, dominar componentes críticos e utilizar seus dados e conhecimento em benefício da população.

“Soberania não é retórica, soberania para nós é atitude, é prática, é tirar do papel”, disse.

A ministra ressaltou que o PBIA não foi elaborado de forma isolada pelo governo. Segundo ela, o plano nasceu de uma encomenda feita por Lula em 2024 e envolveu cientistas, o Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e a Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, retomada naquele ano após 14 anos.

Brasil tem conhecimento, mas precisa de capacidade computacional

Um dos argumentos centrais de Luciana Santos é que o Brasil não parte do zero na inteligência artificial. O país possui universidades, centros de pesquisa, empresas, startups e instituições com grande volume de dados e conhecimento científico.

Ela citou o Sistema Único de Saúde (SUS), a Embrapa, universidades, Butantan, Fiocruz, Receita Federal e o Pix como exemplos de estruturas que acumulam dados e conhecimento considerados estratégicos e não podem estar entregues a tecnologias estrangeiras.

O problema, segundo a ministra, está na infraestrutura necessária para processar essas informações. “Não falta inteligência real, falta capacidade computacional para a gente pegar essa inteligência e colocar a serviço do nosso povo”, afirmou.

Luciana Santos destacou ainda que o Brasil ocupa a 13ª posição mundial em produção científica. A construção de capacidade computacional própria, nesse contexto, seria uma forma de aproximar a produção científica brasileira da fronteira tecnológica.

A ministra informou que o PBIA prevê R$ 23 bilhões em investimentos e afirmou que 64% desse montante já teria sido executado desde 2024.

Três rotas para reduzir dependências

A estratégia apresentada por Luciana Santos está organizada em três rotas tecnológicas. A primeira prevê a compra de um supercomputador para o Rio Grande do Norte. A segunda estabelece uma cooperação tecnológica com a China para uma estrutura de computação avançada no Rio de Janeiro. A terceira aposta no desenvolvimento de circuitos integrados e chips baseados na arquitetura aberta RISC-V.

“São caminhos diferentes, são três rotas, mas que apontam na mesma direção: mais capacidade, mais conhecimento, mais autonomia para o Brasil”, afirmou.

A lógica também é evitar que a busca por soberania resulte simplesmente na substituição de uma dependência internacional por outra. “A gente não quer trocar uma dependência por outra”, disse. A política, segundo ela, deve diversificar fornecedores, negociar transferência tecnológica, formar brasileiros, ampliar conteúdo local e dominar componentes considerados críticos.

Supercomputador deve colocar Brasil entre os dez maiores

A primeira rota é a aquisição do supercomputador que será instalado no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba. Luciana Santos afirmou que o equipamento deverá colocar o Brasil entre os dez países com maior capacidade de processamento de inteligência artificial.

O investimento previsto para o supercomputador é de R$ 1,06 bilhão, incluindo R$ 960 milhões para aquisição e R$ 100 milhões para preparação e operação.

A escolha do Rio Grande do Norte foi apresentada como parte de uma política deliberada de desenvolvimento regional. O estado reúne universidades, centros de pesquisa, empresas e uma forte capacidade de geração de energia renovável, especialmente eólica e solar.

A intenção é conectar o equipamento a universidades, parques tecnológicos, empresas e startups, ampliando a formação em computação de alto desempenho, IA, segurança e privacidade de dados.

A ministra resumiu a dimensão regional do projeto com uma formulação que associa energia e conhecimento: “Esse estado transformou o vento e o sol em energia e agora vai transformar essa energia em conhecimento, tecnologia, inovação e empregos do futuro”.

Cooperação internacional sem abrir mão da autonomia

A segunda rota será desenvolvida no Rio de Janeiro em cooperação com a China. Luciana Santos afirma que a estrutura terá uma finalidade complementar: ampliar o domínio tecnológico brasileiro e fortalecer a cadeia produtiva nacional de IA.

A ministra rejeitou a ideia de que soberania tecnológica signifique isolamento. “Soberania digital não significa fazer sozinho”, afirmou. Segundo ela, o Brasil pretende cooperar com diferentes países, independentemente de sua origem, desde que a relação permita defender o interesse nacional, obter transferência de tecnologia e formar profissionais brasileiros.

A terceira rota, baseada na arquitetura aberta RISC-V, segue a mesma lógica. A tecnologia permite o desenvolvimento de chips sem a dependência de uma arquitetura proprietária. Luciana Santos destacou a participação de diversos países nesse ecossistema, incluindo China, Índia e Estados Unidos.

Da infraestrutura tecnológica à vida cotidiana

Para a ministra, o teste decisivo da política de IA será sua capacidade de produzir resultados concretos para a população.

Ela citou aplicações na saúde, com desenvolvimento de vacinas e medicamentos; na agricultura, com melhoria da produtividade; na previsão de chuvas e secas; na indústria; e na eficiência dos serviços públicos.

“Então, o supercomputador não serve apenas para fazer conta mais rápido”, afirmou, exemplificando com a aceleração da descoberta de medicamentos. “Ele serve para transformar problemas que levariam décadas para resolver em coisas do dia a dia do povo brasileiro.” Sistemas computacionais analisam a interação entre milhões de moléculas e proteínas em tempo muito menor.

O discurso da ministra coloca, assim, a política brasileira de inteligência artificial em uma perspectiva que combina infraestrutura, ciência, indústria e desenvolvimento regional. Mais do que aumentar a capacidade de processamento, a estratégia apresentada procura criar condições para que o país transforme conhecimento acumulado em tecnologia, inovação, serviços públicos e novas atividades econômicas, reduzindo sua vulnerabilidade diante da concentração mundial das tecnologias digitais.

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