Luta sem fim: região de Zumbi vive disputa por terra e dignidade

Foto: ICL Notícias

Por Jamil Chade/ acampamento Che Guevara, Serra da Barriga, Alagoas
Do ICL Notícias

“Enxada é para quem tem coragem”. Com suas mãos calejadas e numa cadeira de balanço em ruínas e enferrujada, seu Adelino da Silva contempla a Serra da Barriga, uma espécie de terra sagrada da própria história da invenção do Brasil.

Era em seu topo que ficava a sede administrativa da República de Palmares, o maior quilombo da América Latina e onde, de fato, o modelo colonial foi profundamente questionado. Não eram apenas negros que tinham fugido da escravidão que viviam ali. O quilombo também chegou a contar com todos os miseráveis e descartados por um sistema que tinha apenas um objetivo: o lucro a partir do que era, naquele momento, o maior centro de produção de cana de açúcar do mundo.

Palmares era o símbolo de uma resistência que não se limitava à escravidão. Era uma nova organização da sociedade, rompendo a ideia da propriedade privada da terra, da exploração de corpos humanos e do chicote.

Três séculos depois, nessa região de Alagoas visitada pelo ICL Notícias, ecoa ainda a luta, num sistema capitalista que permite que usineiros e grandes proprietários de terras perpetuem a organização do próprio estado para que seu poder não consiga sequer ser questionado.

Seu Adelino vive no acampamento do MST, Che Guevara, e há quase uma década aguarda para ser assentado. Junto com ele, no vale de uma das terras mais férteis do planeta, vivem cerca de 50 famílias nas mesmas condições. Elas foram vitimas da falência da Usina Lajinha, do Grupo João Lyra.

Quando a empresa passou por apuros, a família usou os benefícios que o sistema capitalista – e suas leis – permitem: decretaram a quebra da usina, mantiveram suas fortunas pessoais e jogaram 5 mil pessoas numa pobreza profunda. Sem terra, sem trabalho e sem perspectiva, muitos encontraram no MST o único instrumento de acolhimento.

A luta passou a ser por terra e pelo assentamento de milhares de famílias. De 2011 a 2014, os movimentos do campo ocuparam áreas das três usinas falidas no estado: Guaxuma, na região de Coruripe e Teotônio Vilela; Uruba, no município de Atalaia; e Laginha, em União dos Palmares.

Somente em 2016 foi iniciado o processo de negociações entre os movimentos populares, o Governo do Estado, representantes da massa falida do Grupo João Lyra e do Tribunal de Justiça do Estado de Alagoas. Na tratativa, propôs-se um acordo que levou em conta a necessidade de pelo menos uma das usinas voltar a moer cana-de-açúcar, visando gerar recursos para honrar o pagamento aos 19 mil credores.

A proposta de acordo foi que as famílias Sem Terra desocupassem a Usina Uruba, em Atalaia, com maior possibilidade de retomar o trabalho de imediato e, como contrapartida, seriam destinados cerca de 1.500 hectares de terra da Usina Guaxuma para que as organizações que a ocupavam, e toda a Usina Laginha seria destinada para fins de Reforma Agrária Popular.

Os acordos jamais foram cumpridos e, enquanto isso, os agricultores permaneceram em acampamentos.

A situação piorou quando, há poucos meses, a justiça alagoana decretou o encerramento da falência do Grupo e declarou extintas suas obrigações, mesmo com uma dívida de R$ 3 bilhões.

A ativista do MST, socióloga e pesquisadora, Weldja Marques Lima, explicou que, além da perdão da dívida, foi estabelecido que as terras deveriam ser devolvidas para a empresa. “Isso significou que cinco mil pessoas estariam sob o risco de serem despejadas”, alertou.

Em julho, o movimento ocupou por uma semana o Palácio do governo, em Maceió, e houve, uma vez mais, um compromisso de assentar as famílias.

Ao visitar o acampamento, a reportagem do ICL Notícias ouviu dos agricultores a frustração diante do impasse. “No dia 5 de setembro vai completar doze anos que estamos aqui”, contou um dos Sem Terra.

Ele contou que, nesse período, já foi alvo de pistoleiros e que as mortes chegaram a ser semanais. “Foi muita luta e muito sacrifício. Mas até hoje estamos resistindo”, disse. Para se esconder, corria para dentro da plantação e dormia sobre os tocos de cana e ameaçado por cobras.

“Temos sofrido muito com a violência, ela não para”, confirmou a agricultora Maria Leorides dos Santos. Segundo ela, o acampamento chegou a ter mais de cem pessoas. Mas muitos deixaram o local por medo.

Além da violência física contra o acampamento, a novidade agora é o uso de drones que, segundo ela, “soltam veneno em nossas produções”. A direção do MST, de fato, confirmou que vem registrando um aumento no número de crianças com problemas respiratórios e plantações queimadas.

Weldja Marques Lima explica que, enquanto o assentamento não acontece, programas estão sendo implementados para permitir que as famílias tenham um renda extra. Isso inclui a construção de galinheiros nas terras de cada um dos acampados e um programa de quintal produtivo.

Além disso, o espaço que era da usina foi ressignificado. Onde um dia foi o alojamento precário dos trabalhadores e que mais se assemelhava às senzalas, o movimento transformou em um local para cursos e escolas.

Foto: ICL Notícias

Seu Adelino, porém, tem pressa. Ele insiste que é a terra o que lhe garantiria subsistência. “Precisamos de terra para trabalhar”, disse. Enquanto aguarda, ele mostra com orgulho sua diminuta roça, ao lado do barracão. Sua produção é vendida na feira de União dos Palmares, a cidade mais próxima.

Ele não esconde a frustração de ter passado décadas trabalhando para, agora, não ter sequer um lugar que ele possa garantir sua renda. O agricultor conta que começou a trabalhar com 13 anos, carregando cana de locais onde as máquinas não conseguiram chegar.

Vai morrer sem ter visto uma reforma agrária profunda no país. Em 60 anos no campo, nunca teve férias. Muito menos direitos trabalhistas. Seu FGTS sumiu quando a empresa quebrou. “Era meu dinheiro”, lamenta.

Sem dinheiro, sem terra e desempregado depois da falência da usina, ele tentou a sorte em outras regiões do estado. Mas acabou voltando para o centro de Alagoas.

Seu Adelino e a região de Alagoas são retratos de um país que, apesar de avanços sociais, têm sérias dificuldades para tratar todos como cidadãos.

Pobreza e analfabetismo

No estado, o IBGE estima que 40% da população vive abaixo da linha da pobreza. E o dado é comemorado por ser um dos mais baixos em anos. Isso significa que a renda domiciliar per capita é inferior a R$ 694 por mês, segundo parâmetros do Banco Mundial.

Se 157 mil alagoanos de fato deixaram a pobreza desde 2023, a realidade é que o avanço parte de um patamar extremamente elevado. No governo de Jair Bolsonaro e diante da pandemia da covid-19, em 2022, 60% da população do estado estava abaixo desse patamar.

Na avaliação do IBGE, são os programas sociais que tem feito a diferença. Em 2024, a taxa de pobreza em Alagoas teria sido de 48,4%.

Outra constatação é que Alagoas continua tendo a maior taxa de analfabetismo do Brasil entre pessoas com mais de 15 anos. Em 2025, 13,1% da população não sabia ler nem escrever, quase três vezes a média nacional.

Apesar de ter uma das terras mais férteis do mundo, o local convive ainda com a fome. 35% dos domicílios alagoanos, cerca de 391 mil, ainda enfrentavam algum grau de insegurança alimentar. Desse total, 56 mil estavam em insegurança grave, quando falta comida no domicílio e há ruptura no padrão de alimentação familiar.

Os agricultores que conversaram com o ICL Notícias apontam que só há uma alternativa para romper o ciclo de pobreza: a garantia da terra.

O problema, segundo a Comissão Pastoral da Terra, é que a reforma agrária está parada em Alagoas. Hoje, mais de 15 mil pessoas vivem em acampamentos distribuídos pelo Sertão, Agreste, Zona da Mata, Litoral Norte e Litoral Sul do estado.

A entidade ainda destaca que, 2013 a 2024, foram registradas 269 ocorrências de conflitos no campo em Alagoas, afetando 25 mil famílias e mais de 100 mil pessoas.

Para os trabalhadores rurais, esses números não são acidentais. A chefia do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no estado tem sido determinada, nos últimos anos, pelo deputado Arthur Lira e sua família. Entre 2017 e 2024, quem ocupava o cargo era Wilson César de Lira Santos, primo de Arthur Lira.

Ele, porém, foi substituído por um outro aliado do deputado, Júnior Rodrigues do Nascimento, o que gerou fortes protestos por parte dos movimentos sociais. Nesta semana, ele também foi exonerado.

No site De Olho nos Ruralistas, um levantamento apontou como as famílias Lira e Pereira, sobrenomes paterno e materno do deputado alagoano, controlavam 115 fazendas, com um total de 20.039,51 hectares no estado.

“Aqui, o estado está fechado com o agronegócios”, disse Maciel, um dos agricultores acampados.

Foto: ICL Notícias

Terra é liberdade

O interior de Alagoas, em pleno século 21, é um retrato do projeto que precisa ser desmontado: a de um estado erguido para servir de escudo para que uma elite possa explorar e lucrar muito com um sistema arcaico.

Para o professor Paulo Candido, da Universidade Estadual de Alagoas, a região vive “dentro de uma situação de conflito”. Se por décadas cada um dos trabalhadores esteve isolado em sua luta e, portanto, enfraquecido, a grande diferença na história recente do estado foi o desembarque dos movimentos sociais.

Para ele, ao propor um novo modelo de produção de alimentos, o que se luta é, no fundo, por dignidade, por moradia e autonomia. “Isso é algo que perturba as elites”, disse.

Candido acredita que a violência estrutural e sistêmica da região é, hoje, confrontada pelos movimentos sociais.  “Eles estão armados de consciência coletiva e esse é o ato de resistência”, disse.

“Terra, aqui, é poder. Terra é liberdade”, completou.

A luta ali, de fato, não é por terra. Mas por outro projeto de país.

No topo da Serra da Barriga, enquanto uma região inteira ainda vive os ecos de uma guerra por dignidade, uma gameleira centenária serve de recado: a resistência é a resposta. “Ela (a árvore) existe desde os princípios dos tempos e a tudo assistiu, a tudo resistiu e a tudo resistirá”, diz um texto ao lado do local sagrado.

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