A eleição presidencial brasileira pode definir o rumo político da América Latina. Essa é a avaliação do Le Monde diplomatique, que colocou Lula em destaque na edição de setembro com a chamada “O futuro da América Latina em suas mãos”.
No artigo “A última oportunidade de Lula”, o jornalista e cientista político argentino Juan Manuel Karg afirma que a disputa no Brasil ganhou importância ainda maior depois das vitórias da direita na Argentina, no Equador, no Chile, na Bolívia e na Colômbia.
“Se Lula vencer, a centro-esquerda manterá o controle de um país de 213 milhões de habitantes, o sétimo mais populoso do mundo e o maior da América Latina, cujo PIB representa 40% do PIB sul-americano”, escreve Karg.
A vitória também representaria, nas palavras da revista, “um freio à tendência” de avanço da direita registrada nos últimos três anos. O artigo recorre a uma frase atribuída ao ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger para dimensionar o peso da eleição: “Para onde o Brasil se inclinar, a América Latina se inclinará”.
O Le Monde diplomatique sustenta que o governo chega à eleição com resultados econômicos importantes.
Desde janeiro de 2023, foram criados cinco milhões de empregos formais. Em 2025, o Brasil recebeu US$ 76,8 bilhões em investimentos estrangeiros diretos, quase o dobro do volume destinado ao México.
A saída do Brasil do Mapa da Fome da ONU também aparece entre os principais resultados do mandato. A revista atribui o avanço aos reajustes do salário mínimo, ao apoio à agricultura familiar e ao fortalecimento da alimentação escolar.
Na economia, Karg identifica na Nova Indústria Brasil uma tentativa de reduzir a dependência do agronegócio e recuperar a capacidade produtiva perdida pelo país.
Segundo o artigo, o objetivo é fazer com que “o Estado volte a ser um ator decisivo na política econômica”, após os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro terem apostado na liberalização.
O texto também destaca a retomada da presença brasileira no exterior. A presidência do G20, a criação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e a realização da Cúpula dos Brics no Rio de Janeiro recolocaram o país nos debates internacionais depois do isolamento do governo Bolsonaro.
“Durante sua terceira Presidência, Lula voltou a ter um papel protagonista nos debates globais, embora com uma América Latina que foi girando à direita”, observa o Le Monde diplomatique.
A revista vê nesse cenário uma diferença importante em relação aos dois primeiros governos do petista, quando Brasil, Argentina, Venezuela e Uruguai eram governados por forças progressistas.
A ofensiva de Donald Trump contra o Brasil ocupa parte importante do artigo. Karg cita o aumento das tarifas sobre produtos brasileiros, os ataques ao Pix e a retomada da Doutrina Monroe pelo governo dos Estados Unidos.
Para a revista, o programa eleitoral de Lula responde diretamente a essa pressão. O documento menciona 31 vezes a expressão “soberania nacional” e defende investimentos em áreas estratégicas, como a indústria, a tecnologia, a proteção das fronteiras e a defesa das reservas de minerais críticos.
O artigo também aponta obstáculos à reeleição. Embora reconheça os resultados do governo, afirma que “há no Brasil uma insatisfação generalizada, combinada com uma instabilidade crescente dos eleitores”. O endividamento de 81 milhões de brasileiros e a avaliação negativa da economia por parte da população aparecem como os principais problemas.
O bolsonarismo, por sua vez, é descrito como “ferido, mas não morto”. Flávio Bolsonaro tenta levar a eleição ao segundo turno para reunir os votos das demais candidaturas de direita, mas enfrenta as divisões internas da família e o desgaste provocado pelo escândalo do Banco Master.
Lula tentará vencer no primeiro turno, algo que nunca conseguiu em suas campanhas anteriores. Para o Le Monde diplomatique, uma nova vitória do petista permitiria “ao progressismo sul-americano voltar a apresentar um governo bem-sucedido” e dificultaria a tentativa de Trump de restabelecer o domínio dos Estados Unidos sobre a América Latina.