Jornalista que deixou El Salvador acusa Bukele de decidir “quem é criminoso”

Nayib Bukele. Foto: Getty Images

O jornalista salvadorenho Carlos Dada, fundador do jornal El Faro, afirmou que o presidente Nayib Bukele concentra o controle das instituições de El Salvador e “decide quem é criminoso e quem não é”. Dada deixou o país após ameaças ligadas ao trabalho do veículo sobre supostas negociações entre o governo e gangues. Com informações de O Globo.

Em entrevista durante passagem por São Paulo para o Festival Piauí de Jornalismo, ele disse que Bukele controla os três Poderes, a Promotoria, a Polícia e o Exército. O jornalista também acusou o presidente de ter dado “um golpe na Corte Constitucional”, em referência às mudanças institucionais ocorridas no país.

O site de notícias El Faro retirou suas operações de San Salvador em meio ao aumento da pressão contra a redação. Dada afirmou que a continuidade do trabalho jornalístico se tornou incompatível com a segurança física da equipe.

Fundado em 1998, o veículo passou a investigar a atuação de quadrilhas no início dos anos 2000, quando elas ganharam influência política no país. El Salvador registrou 106 homicídios por 100 mil habitantes em 2015, um dos maiores índices do mundo naquele período.

O jornalista Carlos Dada, fundador do ‘El Faro’, em entrevista ao GLOBO durante sua passagem por São Paulo. Foto: Maria Isabel Oliveira

Investigações sobre contatos entre governo e gangues

Dada disse que o site revelou uma trégua entre o governo do então presidente Mauricio Funes, que governou de 2009 a 2014, e as gangues. Após a publicação, o jornal passou a receber ameaças de autoridades, integrantes de grupos criminosos e organizações do narcotráfico, segundo o fundador.

Sobre o governo Bukele, o jornalista afirmou que a redação reuniu documentos oficiais, fotos, vídeos e entrevistas que indicariam negociações com criminosos. O material, segundo ele, incluía registros de entradas e saídas de líderes de gangues das prisões e trocas de mensagens entre autoridades e integrantes desses grupos.

Em maio do ano passado, o portal entrevistou fora de El Salvador líderes de gangues que haviam sido presos no país. Dada afirmou que eles relataram em vídeo detalhes de tratativas com o governo, episódio que, segundo ele, acelerou a saída da organização de San Salvador.

O jornalista também acusou as autoridades de interceptarem as comunicações da redação com o programa israelense de espionagem Pegasus. Ele disse que a vigilância ocorreu depois de o jornal ampliar reportagens sobre a pandemia e casos de corrupção.

Regime de exceção e prisões em massa

Na avaliação de Dada, o pacto entre o governo e as gangues terminou em 2022. Depois disso, Bukele adotou um regime de exceção e ordenou operações de captura em massa com policiais e militares.

O regime, que deveria durar 30 dias pela Constituição salvadorenha, aproxima-se do quinto ano, afirmou o jornalista. Ele disse que a medida permite prisões de pessoas consideradas suspeitas sem ordem judicial ou apresentação prévia de provas.

Mais de 90 mil pessoas foram presas em quatro anos, o equivalente a uma em cada 50 pessoas no país, segundo Dada. Ele relatou que os detidos enfrentam restrições de contato com familiares e advogados e podem ser julgados em grupos por juízes anônimos.

O fundador do El Faro afirmou que mais de 400 pessoas morreram sob tortura em prisões salvadorenhas. Ao comentar o Centro de Confinamento do Terrorismo, o Cecot, ele disse que a prisão exibida a jornalistas não retrata as outras 22 unidades prisionais do país, às quais não há acesso público.

Dada também citou a aproximação de Bukele com Donald Trump e disse que a oferta do Cecot como destino para deportados ajudou a fortalecer essa relação. Para ele, a popularidade do presidente salvadorenho na América Latina se apoia em uma estratégia de comunicação que projeta internacionalmente seu modelo de segurança.

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