
A Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema direita, lidera as pesquisas para a eleição estadual deste domingo (6) na Saxônia-Anhalt e pode abrir caminho para comandar, pela primeira vez, um governo regional alemão desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Com informações da BBC News Brasil.
O candidato da legenda é o deputado Ulrich Siegmund, de 35 anos. A revista “Der Spiegel” colocou sua imagem na capa sob o título “o homem mais perigoso da Alemanha”. Ele rejeita relatos de que integrantes de seu círculo próximo tenham participado de movimentos neonazistas.
Levantamento do instituto Insa, encomendado pelo portal Nius e realizado em agosto, apontou a AfD com 43% das intenções de voto. A União Democrata Cristã (CDU), do atual chefe do governo estadual, Sven Schulze, apareceu com 22%.
Siegmund ganhou projeção nas redes sociais com vídeos contra a imigração, em defesa de uma identidade nacional e com ataques à imprensa. Na campanha, distribuiu autógrafos, tirou selfies, serviu cerveja em eventos ao ar livre e apareceu pilotando uma scooter retrô da antiga Alemanha Oriental.
A força da AfD é alimentada pela insatisfação de parte dos eleitores com a imigração, a segurança pública, os preços da energia, as dificuldades da economia alemã e a ajuda enviada à Ucrânia. A legenda também explora a nostalgia pelo passado e o sentimento de abandono existente em áreas da antiga Alemanha Oriental.

Maioria no Parlamento definirá quem governará a Saxônia-Anhalt
A vitória nas urnas não garante automaticamente a chefia do governo estadual. O Parlamento da Saxônia-Anhalt escolhe o ocupante do cargo, e os demais partidos já descartaram formar uma coalizão com a AfD, numa barreira política conhecida como “Brandmauer”, ou “muralha de proteção”.
Para governar sozinha, a sigla precisará conquistar a maioria absoluta das cadeiras. O resultado dependerá também do desempenho das legendas menores, que precisam superar a cláusula de barreira de 5% para entrar no Parlamento regional.
A eleição pode aumentar a pressão sobre o chanceler Friedrich Merz, da CDU, que enfrenta queda de popularidade e foi vaiado em aparições públicas recentes. Merz prometeu conter o avanço da extrema direita, mas a AfD ampliou sua força e também aparece na liderança de levantamentos nacionais.
Criada em 2013 como uma força eurocética, a AfD se radicalizou sobretudo após a crise de refugiados de 2015, ligada à guerra na Síria. Desde então, fez das restrições à imigração uma de suas principais bandeiras e consolidou seus melhores resultados nos estados da antiga Alemanha Oriental.
O programa da legenda na Saxônia-Anhalt prevê criar uma força-tarefa para deter e deportar imigrantes que não tenham mais autorização para permanecer no país. A AfD também propõe colocar crianças refugiadas em turmas separadas e sustenta que elas devem ser informadas de que sua permanência na Alemanha é temporária.
O manifesto defende ainda a proibição de bandeiras LGBT nas escolas, critica o que chama de promoção de “desvios sexuais e estilos de vida não reprodutivos” e propõe reduzir o ensino sobre o nazismo para ampliar conteúdos considerados positivos sobre a história alemã. A legenda também quer retirar recursos de projetos classificados como “não alemães” ou “antialemães”, sem esclarecer os critérios.
A posição favorável à Rússia adotada por dirigentes da AfD provoca dúvidas sobre a capacidade do partido de lidar com informações sensíveis. Autoridades alemãs também alertam para a intensificação de campanhas de desinformação apoiadas por Moscou contra adversários da legenda. O Kremlin nega as acusações.
Desde 2023, o serviço de inteligência da Saxônia-Anhalt classifica o braço regional da AfD como extremista de direita. O órgão atribui à legenda uma “ideologia racista” e objetivos incompatíveis com a Constituição, acusações rejeitadas pelo partido como difamação política. Siegmund não descarta extinguir o serviço de inteligência interna caso obtenha maioria parlamentar.
A Saxônia-Anhalt tem cerca de 2,1 milhões de habitantes e um dos menores PIBs per capita da Alemanha. Após a reunificação de 1990, o estado enfrentou fechamento de empresas, saída de moradores e desigualdades persistentes em relação ao oeste do país.
Apesar do tamanho relativamente pequeno do estado, seu governo possui poderes importantes em áreas como educação, segurança pública e cultura. A Saxônia-Anhalt também tem representantes no Bundesrat, a câmara que reúne os governos estaduais. Uma vitória da AfD, portanto, daria à extrema direita poder administrativo regional e maior influência na política nacional.