Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje
Provérbio popular português
A água escolhe o seu percurso de acordo com o terreno que atravessa.
O guerreiro busca a vitória de acordo com o inimigo que enfrenta.
Sun Tzu, A arte da guerra
1 Até agora a blindagem do bolsonarismo protegeu Flávio Bolsonaro de todas as denúncias de corrupção que o atingiram. Mesmo a revelação dos diálogos das relações indefensáveis com o banqueiro Vorcaro foram insuficientes. Em algumas semanas a extrema-direita demonstrou capacidade de recuperar a audiência que tinha oscilado. Parece incrível, mas tudo sugere que não há uma “bala de prata”. Mas agora um novo escândalo “hemorrágico” acabou de ser publicado, e deixa Flávio Bolsonaro afogado no mar de lama. Reportagem publicada pelo UOL, com informações do PlatôBR, afirma que as trocas de mensagens de WhatsApp indicam que teria recebido “presentes” (um relógio de valor superior a trezentos mil reais, e equipamentos de academia de outros noventa mil) de um advogado com interesse em aproximação com o gabinete do ministro Nunes Marques, e até fotografias de sua participação em festas privadas com garotas de programa. Flávio Bolsonaro terá que se explicar sobre suborno para associação a lobby sobre Nunes Marques e prostituição. Não é possível antecipar as sequelas eleitorais sobre os indecisos. Mas sua reputação política repousou, essencialmente, sobre o prestígio de seu pai, e é indivisível da mística de defesa de valores de família “incorruptível” que desabou.
2 A campanha de Flávio Bolsonaro já tinha sido colocada na defensiva nos últimos dez dias por cinco razões: (a) o deslocamento do centro da disputa das denúncias de corrupção contra Alexandre de Moraes pela urgência da intervenção do ministro Flávio Dino pedindo vistas e interrompendo a manobra de André Mendonça no STF (Supremo Tribunal Federal) criou condições para que Lula aproveitasse o discurso na ONU para a defesa da soberania brasileira em Nova York, silenciando a ultradireita pró-Trump que quer o Brasil no Escudo das Américas ao lado de Milei; (b) o giro na orientação da campanha do presidente Lula para compromissos com o futuro, indo além da defesa do legado e biografia, assumindo propostas como o fim da jornada 6×1, o aumento do bolsa-família, o Desenrola 3, as canetas emagrecedoras e, entre outras, a universalização do ensino integral; (c) o resultado de diferentes pesquisas que sinalizam a consolidação de uma vantagem de Lula no primeiro turno, no limite da margem de erro, mas com crescimento entre os mais pobres, mulheres e no Sudeste; (d) a repercussão da polêmica sobre o lugar de Nossa Senhora de Aparecida como padroeira do Brasil, iniciada com o post de um humorista que, meio caoticamente, reverberou em função do ambiente de luta ideológica da teoria do domínio pela conquista de supremacia evangélica; (e) o gigantesco impacto da corajosa proibição das Bets. Os sucessivos erros da campanha bolsonarista sendo incapaz de responder às iniciativas da campanha Lula culminaram com acusações destrambelhadas à CNBB, e confirmaram as dificuldades de Flávio empolgar a base bolsonarista que se confirma na inexistência de atos de massas.
3 A hora é de máximo ativismo para ganhar votos. A última semana inicia com um novo momento da conjuntura, e vantagem relativa de Lula em função destes fatores. O jantar com aquela parcela dos grandes capitalistas que respondem à estratégia de pressionar por um ajuste fiscal no próximo ano, em um hotel em São Paulo, serviu para Lula e Alckmin tranquilizarem a burguesia democrático-liberal, de que serão responsáveis diante do crescimento da dívida interna, ao mesmo tempo que alertaram de que o retorno do bolsonarismo seria uma aventura perigosa. Esses são os limites intransponíveis do lulismo, confirmados com a governabilidade a frio durante os últimos quatro anos, e uma das razões que explicam a incerteza da reeleição. Mas, mesmo com essas insolúveis contradições, a campanha saiu do modo “jogar parado” e tudo isso já se expressa em um maior engajamento de uma vanguarda ampla de esquerda que aumentou, qualitativamente. O Ato com o mundo da cultura e arte no Rio de Janeiro, a colossal mobilização, na escala de muitas dezenas de milhares na sexta-feira passada no Recife, na segunda em Belém, e na terça-feira em Fortaleza e Salvador, somente comparáveis aos da disputa do segundo turno em 2022, indicam que uma onda está se levantando. A presença no debate na Globo na quinta-feira dia 1 de outubro deve ser ponderada neste contexto. Não é uma decisão tática simples. A ausência pode abalar a moral da vanguarda de esquerda mais politizada. Mas merece ser considerado, também, que será um debate, simultaneamente, contra três adversários: Bolsonaro, Caiado e o, imprevisivelmente, irresponsável e provocador Renan. Se não for Lula deveria se comprometer a estar presente no debate de segundo turno somente contra Bolsonaro.
4 Uma nova Sessão Plenária no STF está anunciada para esta quarta-feira dia 30 de setembro. Não é difícil de prever que será uma reunião “explosiva”. Nos últimos cinco dias uma sucessão de decisões contraditórias de Mendonça, Dino e Fux competindo com Nunes Marques à frente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) confirmaram a “implosão” dos Tribunais Superiores sinalizando a incerteza da vigilância jurídica sobre o processo eleitoral. Mas só é possível compreender a máxima gravidade da crise institucional considerando três fatores: (a) até agora cinco dos dez ministros – Moraes, Mendonça, Toffoli, Nunes Marques e Luís Fux – foram associados, em graus distintos de gravidade- às manipulações que o banqueiro Vorcaro tentou realizar para proteger os interesses do seu fraudulento banco Master; (b) o próximo presidente da República vai nomear quatro ministros para o STF porque Luis Roberto Barroso pediu aposentadoria antecipada e até 2030 virão as compulsórias de Luiz Fux, Carmem Lúcia e Gilmar Mendes; (c) no ano que vem está previsto que Alexandre de Moraes deverá assumir em setembro a presidência do STF, mas não está descartado que o bolsonarismo possa conquistar um peso ainda maior no Senado nas eleições do próximo domingo e, diante da fragilização de Alcolumbre em função das investigações sobre os negócios do banco Master no Amapá, possa avançar a pauta de impeachment de Xandão e, talvez, outros porque Flávio Bolsonaro já anunciou a intenção de nomear seis novos ministros, que serão todos terríveis, se vencer as eleições.
O plano do PL de Valdemar de Costa Neto é eleger uma faixa que vai de 28 a 35 nas 54 vagas abertas, com o objetivo de alcançar a maioria absoluta de 41 senadores, contando com os quinze mandatos atuais que vão até 2030
5 Neste marco não se deve diminuir a importância das eleições para o Senado. Elas são indivisíveis das eleições para governadores. Mas não haverá segundo turno para as 54 cadeiras em disputa no Senado. O plano do PL de Valdemar de Costa Neto é eleger uma faixa que vai de 28 a 35 nas 54 vagas abertas, com o objetivo de alcançar a maioria absoluta de 41 senadores, contando com os quinze mandatos atuais que vão até 2030. Nas pesquisas o bolsonarismo já tem 19 candidatos fora da margem de erro das pesquisas, enquanto o campo do lulismo que inclui o MDB, e alguns entre outros partidos do centrão que não são de esquerda, tem 18 favoritos. O impeachment de ministros do STF exige dois terços ou 54 votos. Análises das pesquisas sugerem que, pelo menos, em 11 dos 27 estados existe alta probabilidade de definição da disputa para o governo estadual já no primeiro turno: São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Ceará, Santa Catarina, Goiás, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Piauí e Amapá. A extrema-direita pode eleger os dois senadores, estejam no PL de Bolsonaro ou em outros partidos em Santa Catarina e nos estados do centro-oeste onde o peso do agro negócio é avassalador, como Matogrosso do Sul (Capitão Contar e Reinaldo Azambuja) e do Norte (Mauro Mendes e Janaína Riva), Goiás (Gracinha Caiado, esposa de Ronaldo, e Gustavo Gayer) e, talvez, no Distrito Federal, onde Leila do vôlei e Erika Kokai disputam, heroicamente com Michelle Bolsonaro e Bia Kicis. Ninguém disse que seria fácil.