Educadora social Shirley Almeida relaciona participação política, valores cristãos e defesa dos direitos sociais e afirma que o voto deve ser acompanhado pelo controle da atuação dos eleitos
A participação de cristãos no processo eleitoral de 2026 foi o tema central do Café com Democracia, exibido pela TV Atitude Popular na terça-feira, 29 de setembro. Em entrevista ao apresentador Luiz Regadas, a educadora social Shirley Almeida, integrante do movimento Igreja em Saída, discutiu a relação entre fé, participação política e defesa de direitos e afirmou que a escolha eleitoral não deveria se limitar à identificação religiosa dos candidatos, mas considerar os projetos de sociedade representados por suas candidaturas.
Para Shirley, a própria ideia de democracia está ligada a questões concretas da vida cotidiana, como alimentação, acesso a direitos, participação social e justiça. Ela afirmou que, para os cristãos, a reflexão sobre o voto precisa partir dos ensinamentos de Jesus e da opção pelos mais vulneráveis, sem transformar a religião em instrumento de campanha eleitoral.
“Quando a gente diz café com democracia, a gente está falando de café, de acesso à alimentação, de justiça social, de acesso a direitos básicos. Quando a gente está falando de democracia, a gente está falando sobre esse bem comum, sobre o direito à participação, sobre o acesso a essa participação”, afirmou.
A entrevistada ressaltou que sua compreensão parte de uma perspectiva cristã católica e que, nesse campo, a política não deve ser entendida apenas como disputa entre partidos ou candidaturas. Para ela, existe também uma dimensão cotidiana da política, relacionada ao acompanhamento das políticas públicas, à participação cidadã e à fiscalização das decisões tomadas pelo poder público.
“É a partir disso que a gente compreende a importância desse voto”, disse Shirley. Segundo ela, os valores associados ao Evangelho entram em tensão com práticas marcadas pelo individualismo e pelo acúmulo e apontam para uma concepção de sociedade baseada na partilha, na participação e na justiça social.
A relação entre religião e política, entretanto, exige cuidados. Shirley afirmou que reconhece os riscos da instrumentalização religiosa, sobretudo quando instituições e lideranças utilizam a fé para orientar diretamente o voto em determinada candidatura. Sua defesa do envolvimento dos cristãos na política está relacionada, segundo ela, à atuação social e cidadã, e não à transformação das igrejas em estruturas partidárias.
Nesse ponto, ela apresentou a proposta do movimento Igreja em Saída, inspirado no pensamento do Papa Francisco. A expressão remete à ideia de uma Igreja que deixa seus espaços de segurança para se aproximar das situações concretas de vulnerabilidade. A formulação apresentada por Shirley se relaciona à exortação apostólica Evangelii Gaudium, na qual Francisco defende uma Igreja capaz de sair de si mesma e se aproximar das pessoas e de suas realidades.
Para Shirley, o testemunho tem papel central nessa atuação. Ela afirmou que o compromisso cristão não deve permanecer restrito ao discurso religioso, mas se expressar na presença junto às populações vulnerabilizadas e na defesa de políticas públicas capazes de garantir direitos.
“É desse lugar que a gente constrói política, compreendendo que, enquanto cidadãos e cidadãs, é nosso dever construir essa política pública, o controle social, o acompanhamento da política pública de forma geral para que ela se faça acontecer dentro da vida das pessoas, em especial realmente dos mais vulneráveis”, afirmou.
A pobreza também esteve no centro da conversa. Ao responder sobre a importância de temas como fome, desemprego, saúde, educação e proteção social para a decisão eleitoral, Shirley classificou essas questões como centrais para sua interpretação do Evangelho. Ela recorreu a uma conhecida frase atribuída a Dom Hélder Câmara: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”.
A partir dessa referência, a educadora social defendeu uma atuação que não se limite à assistência imediata. Para ela, o compromisso cristão também envolve compreender as causas sociais da pobreza e contribuir para que as pessoas tenham condições de participar das decisões que afetam suas próprias vidas.
Shirley associou essa perspectiva à passagem bíblica em que Jesus cura um homem e lhe diz para se levantar e caminhar. Na leitura apresentada durante o programa, a ação da Igreja não deveria substituir a autonomia dos sujeitos, mas contribuir para que eles reconheçam sua própria capacidade de participar da transformação de suas condições de vida.
Durante a entrevista, Shirley também citou a exortação apostólica Dilexi Te, publicada pelo Papa Leão XIV, para sustentar sua argumentação sobre a centralidade dos pobres na tradição cristã. O documento afirma que os mais pobres ocupam um lugar especial no coração de Deus e relaciona a experiência da Igreja com a presença entre aqueles que vivem em situações de maior vulnerabilidade. ([Opus Dei Multimedia][1])
A entrevistada utilizou essa referência para afirmar que a escolha eleitoral deve considerar como cada candidatura trata questões relacionadas à desigualdade e à dignidade humana. Para ela, não se trata apenas de identificar discursos religiosos, mas de observar quais projetos políticos apresentam propostas capazes de ampliar ou restringir direitos.
Outro eixo da entrevista foi o combate à desinformação. Shirley afirmou que o excesso de informações disponíveis nas redes sociais pode dificultar a identificação daquilo que é verdadeiro, especialmente quando conteúdos são compartilhados sucessivamente sem que sua origem seja verificada.
“Se a dúvida, não compartilhe”, recomendou. Para ela, a responsabilidade do eleitor cristão inclui verificar a fonte de uma informação antes de repassá-la, especialmente em períodos eleitorais, quando conteúdos falsos podem interferir na percepção dos eleitores sobre candidatos, partidos e instituições.
Shirley mencionou ainda uma controvérsia envolvendo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, que, segundo seu relato, havia sido acusada de divulgar informações falsas. Ela destacou a importância da entidade para setores da Igreja Católica e defendeu a necessidade de preservar a busca pela verdade como parte da responsabilidade política dos cristãos.
A entrevista exibiu também um vídeo produzido por bispos do Regional Norte 1 da CNBB, abrangendo Amazonas e Roraima, com orientações sobre participação eleitoral. No material apresentado no programa, os religiosos defendem o voto consciente, alertam contra a compra de votos e a manipulação religiosa e afirmam que as igrejas não devem funcionar como currais eleitorais.
O vídeo também associa a escolha eleitoral à defesa da Amazônia, dos territórios indígenas, dos povos tradicionais e da soberania nacional. Ao final, os bispos ressaltam que votar não encerra a responsabilidade do cidadão e que acompanhar a atuação dos eleitos é parte do exercício democrático.
A mensagem apresentada no programa se aproxima da compreensão da participação política presente em documentos da Igreja Católica. A CNBB, ao tratar da Doutrina Social da Igreja, destaca que a promoção da dignidade humana, da paz e da justiça está relacionada à responsabilidade dos cristãos diante da sociedade. ([CNBB][2])
Shirley também recuperou a ideia de que a política pode ser compreendida como uma dimensão da caridade, presente no pensamento do Papa Francisco. Na entrevista, essa formulação foi associada à necessidade de considerar as relações sociais, econômicas e políticas como parte das responsabilidades éticas dos cristãos.
Nesse contexto, ela citou a encíclica Fratelli Tutti, de Francisco, para tratar da ternura como uma dimensão da ação política. A ideia apresentada é que a preocupação com os mais pobres não deve permanecer no campo da relação individual, mas alcançar as decisões econômicas e políticas que determinam as condições de vida da população.
A economia também entrou na discussão. Shirley criticou o modelo econômico baseado no individualismo e mencionou propostas como a economia popular e solidária. Ela relacionou o debate à preocupação expressa por Francisco com uma economia capaz de colocar a vida e o bem comum no centro das decisões.
A defesa da soberania nacional apareceu em seguida como outro critério apresentado pela entrevistada para a avaliação das candidaturas. Shirley afirmou que, em sua leitura, democracia e soberania não são questões secundárias e que o eleitor deveria observar as posições dos candidatos sobre esses temas.
A análise, segundo ela, deve alcançar todos os cargos em disputa. Shirley chamou atenção especialmente para o Congresso Nacional e defendeu que os eleitores procurem conhecer os projetos associados aos candidatos ao Senado e à Câmara dos Deputados, além das propostas apresentadas nas disputas pelos governos estaduais e pela Presidência da República.
“Eu não estou votando nas pessoas, eu estou votando nos projetos que cada um representa”, afirmou, ao defender que o eleitor examine o histórico e as propostas dos candidatos antes de decidir o voto.
A discussão também alcançou a participação de mulheres na política. Shirley rejeitou a ideia de que mulheres não saberiam votar e afirmou que o voto feminino precisa ser compreendido a partir das condições concretas enfrentadas pelas mulheres, especialmente aquelas que vivem nas periferias e dependem diretamente de políticas públicas.
Ela destacou que mulheres assumem frequentemente responsabilidades relacionadas ao cuidado de crianças, idosos e familiares e que decisões tomadas pelo Estado interferem diretamente em suas condições de vida. Nesse sentido, afirmou que o voto feminino envolve também a reivindicação por reconhecimento e dignidade.
Shirley relacionou ainda essa discussão à proposta de redução da jornada de trabalho e ao debate sobre o fim da escala 6×1. Na avaliação apresentada durante o programa, a organização do trabalho interfere na possibilidade de as pessoas terem tempo para cuidar de si, acompanhar a família, participar da comunidade e se envolver na vida política.
“Isso está diretamente ligado à vida das mulheres e é um projeto de sociedade”, afirmou.
A participação das mulheres, segundo Shirley, também deve ser observada na escolha dos representantes políticos. Ela defendeu que os eleitores analisem projetos capazes de considerar as diferentes condições sociais das mulheres e que a representação feminina seja acompanhada pela discussão sobre direitos e políticas públicas.
Na parte final da entrevista, Shirley voltou a defender a participação política como uma prática que não termina no dia da votação. Ela afirmou que o eleitor deve participar antes da eleição, buscando informações e conhecendo as propostas, mas também depois, acompanhando a atuação daqueles que forem escolhidos.
A educadora social fez ainda um chamado às pessoas que permanecem indecisas diante do processo eleitoral. Para ela, a dificuldade de confiar nas instituições ou nos candidatos não deveria resultar em afastamento da participação política.
“Eu queria convidar, convocar, não sei qual o verbo, a quem ainda está indeciso no voto, a decidir, a não anular, a não se omitir diante desse momento histórico”, afirmou.
Na avaliação de Shirley, o voto é apenas uma etapa de um processo mais amplo de participação. O controle social sobre os eleitos, o acompanhamento das políticas públicas e a presença nas organizações comunitárias também fariam parte da responsabilidade cidadã.
A entrevista terminou com uma reflexão inspirada em uma oração de Dom Hélder Câmara, utilizada por Shirley para defender uma Igreja comprometida com questões sociais concretas. Em sua fala final, ela relacionou a defesa da paz à necessidade de enfrentar desigualdades, guerras, racismo, pobreza e diferentes formas de opressão.
Shirley também reforçou que a defesa de direitos não deveria estar restrita aos católicos. Ao longo da entrevista, ela mencionou a importância da convivência entre diferentes tradições religiosas e também daqueles que não professam nenhuma religião, argumentando que a construção do bem comum pode reunir pessoas com diferentes convicções.
A conversa no Café com Democracia apresentou, assim, uma abordagem sobre o voto cristão que não se limita à relação entre religião e candidaturas. Na perspectiva defendida por Shirley Almeida, a participação eleitoral precisa ser vinculada à vida concreta das pessoas e ao acompanhamento permanente das decisões públicas. O debate proposto parte de valores religiosos, mas busca colocá-los em diálogo com questões que ultrapassam os espaços das igrejas, como desigualdade social, direitos das mulheres, trabalho, soberania, democracia, desinformação e participação cidadã.
Referências
- Francisco. Evangelii Gaudium: Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. Vaticano, 2013.
- Francisco. Fratelli Tutti: Carta Encíclica sobre a fraternidade e a amizade social. Vaticano, 2020.
- Leão XIV. Dilexi Te: Exortação Apostólica sobre o amor aos pobres. Vaticano, 2025. O documento dedica atenção especial à presença dos pobres na vida e na missão da Igreja. ([Opus Dei Multimedia][1])
- Concílio Vaticano II. Gaudium et Spes: Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual. 1965. A CNBB mantém referências ao documento e à sua concepção sobre a relação entre a Igreja e as questões concretas da humanidade, especialmente as situações vividas pelos pobres e por aqueles que sofrem. ([CNBB][3])
- Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. Documento orientador da ação evangelizadora da Igreja Católica no país. A CNBB relaciona essas diretrizes ao compromisso com os pobres, a vida comunitária e a casa comum. ([CNBB][4])
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