Vice-comandante da Guarda Revolucionária afirma que pressão militar iraniana obrigou navios americanos a recuar e que não há embarcações dos EUA no Golfo Pérsico, em Ormuz ou no Mar de Omã; Washington mantém forças na região e bloqueio contra o Irã, enquanto o estreito permanece no centro de uma guerra que já alterou as rotas marítimas e o mercado mundial de energia
Da Redação
A disputa entre Estados Unidos e Irã pelo Estreito de Ormuz ganhou nesta segunda-feira, 5 de outubro, uma nova frente, desta vez sobre uma pergunta aparentemente simples, mas decisiva para compreender o equilíbrio militar construído nos últimos meses: onde estão os navios de guerra americanos? O vice-comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, contra-almirante Ali Fadavi, afirmou que as forças dos Estados Unidos foram obrigadas a se afastar mais de mil quilômetros das fronteiras iranianas e sustentou que a pressão exercida por Teerã conseguiu retirar a frota norte-americana não apenas do estreito, mas também do Golfo Pérsico, do Mar de Omã e da porção norte do Oceano Índico. A formulação utilizada pelo comandante foi deliberadamente triunfal. Segundo Fadavi, os americanos não simplesmente reposicionaram suas forças: “fugiram”.
A declaração, reproduzida pela televisão iraniana e destacada pela RT, precisa ser tratada pelo que efetivamente é: uma afirmação de um dos principais comandantes militares iranianos durante uma guerra em andamento. Não há, até agora, comprovação independente de que toda a frota norte-americana tenha sido deslocada para além do raio indicado por Fadavi, e informações recentes confirmam que os Estados Unidos continuam mantendo importantes meios navais na região ampliada. A Reuters esteve recentemente a bordo do porta-aviões USS George Washington, deslocado do Japão para o teatro de operações depois de meses de confrontos com o Irã, e documentou diretamente sua participação na missão norte-americana nas proximidades do Estreito de Ormuz. A diferença entre a narrativa iraniana e a disposição exata das forças americanas é, portanto, uma parte central da própria disputa.
Isso não significa, entretanto, que a declaração iraniana possa ser simplesmente descartada como propaganda. A geografia das operações americanas mudou durante o conflito, e existe uma razão militar evidente para que grandes embarcações de guerra evitem permanecer desnecessariamente próximas do litoral iraniano. Nos últimos meses, Teerã demonstrou capacidade de ameaçar navios utilizando diferentes sistemas de mísseis, drones e outros meios de ataque. Em setembro, a confrontação naval alcançou um novo patamar quando forças iranianas lançaram mísseis contra navios americanos e os Estados Unidos responderam atacando petroleiros iranianos. O Comando Central dos EUA confirmou ataques contra embarcações do Irã e afirmou que seus próprios navios conseguiram evitar os disparos iranianos. Teerã apresentou o mesmo episódio como demonstração de que sua capacidade antinavio havia obrigado os americanos a modificar seu comportamento operacional.
É precisamente nesse espaço entre os dois relatos que está o significado militar da declaração de Fadavi. Para Teerã, manter navios americanos longe da costa já representa uma forma de negação de área: o objetivo não precisa ser destruir um porta-aviões para produzir efeitos estratégicos. Se a possibilidade de ataque obriga a Marinha dos Estados Unidos a operar a centenas de quilômetros adicionais do alvo, dispersar forças, modificar rotas ou utilizar recursos adicionais para proteger embarcações, o Irã pode argumentar que conseguiu impor custos e restringir a liberdade operacional de uma força naval muito superior à sua. Washington, por sua vez, pode responder que distância não significa expulsão e que porta-aviões, bombardeiros, submarinos, mísseis de longo alcance e aviação embarcada permitem aos Estados Unidos continuar projetando poder sem necessidade de colocar grandes navios junto à costa iraniana.
Essa distinção é fundamental. Uma retirada completa da região significaria uma coisa; um reposicionamento para fora do alcance mais perigoso das armas iranianas significaria outra. Até o momento, as evidências disponíveis apontam para uma realidade mais complexa do que a versão de vitória absoluta apresentada por Teerã. Os Estados Unidos continuam envolvidos militarmente no conflito, continuam mantendo forças navais no teatro regional e continuam impondo um bloqueio às operações marítimas iranianas. Ao mesmo tempo, o Irã demonstrou capacidade suficiente para tornar extremamente arriscada a presença de grandes unidades americanas dentro das águas mais estreitas e congestionadas próximas ao seu território.
Ormuz virou o centro material da guerra
O conflito marítimo não pode ser entendido apenas pela localização de destróieres e porta-aviões. O Estreito de Ormuz tornou-se uma das principais alavancas estratégicas do Irã porque sua importância é muito maior do que a dimensão física daquele corredor marítimo. Antes da guerra iniciada no fim de fevereiro, aproximadamente um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados mundialmente passava pelo estreito. O controle efetivo, mesmo que parcial, sobre a navegação naquela passagem permite transformar uma confrontação regional numa questão econômica global.
É exatamente isso que Teerã vem tentando fazer.
No domingo, o presidente do Parlamento iraniano e principal negociador do país, Mohammad Bagher Qalibaf, afirmou que o Estreito de Ormuz não será reaberto normalmente enquanto Washington não cumprir sete condições estabelecidas pelo Irã no memorando negociado em junho. O governo iraniano apresentou durante a Assembleia Geral das Nações Unidas uma proposta segundo a qual o tráfego poderia ser normalizado dentro de sete dias se essas condições fossem atendidas. Os Estados Unidos responderam por meio de intermediários do Catar, mas as duas partes continuam divergindo principalmente sobre a sequência em que as medidas seriam executadas.
A negociação mostra que Ormuz deixou de ser apenas um campo de batalha e se transformou numa moeda de negociação. Teerã procura utilizar sua capacidade de interromper ou permitir parcialmente o fluxo marítimo para obter concessões americanas. Washington, por sua vez, utiliza sua superioridade naval, o bloqueio dos portos iranianos e sua capacidade de interceptar embarcações para pressionar a economia iraniana.
Nenhum dos lados conseguiu até agora impor completamente sua vontade.
O Irã não eliminou a presença militar dos Estados Unidos na região. Os Estados Unidos também não conseguiram restaurar o funcionamento normal do estreito nos termos anteriores à guerra.
Esse impasse ajuda a explicar por que ambos apresentam cada movimento tático como demonstração de vitória estratégica.
Fadavi afirmou nesta segunda-feira que nenhum navio americano permanece no Golfo Pérsico, no Estreito de Ormuz, no Mar de Omã ou no norte do Oceano Índico e descreveu os grandes navios dos Estados Unidos como totalmente vulneráveis às armas iranianas. A linguagem é parte de uma estratégia de dissuasão bastante clara: convencer Washington de que aproximar novamente suas forças produziria perdas inaceitáveis.
Ao mesmo tempo, o Irã continua tentando determinar quais embarcações comerciais podem atravessar a região. Nesta segunda-feira, a agência britânica UK Maritime Trade Operations relatou um episódio no qual um navio-tanque próximo a Omã recebeu ordem da Guarda Revolucionária para alterar sua navegação, sob ameaça de ataque. O incidente ocorre depois de uma sequência de ataques contra petroleiros e outros navios nas águas próximas ao estreito.
A navegação comercial, entretanto, não desapareceu. Dados publicados nesta segunda-feira pela Reuters mostram uma situação surpreendente: apesar da guerra e dos riscos crescentes, as exportações de petróleo do Oriente Médio recuperaram terreno durante setembro e chegaram, em determinados períodos, a superar os níveis anteriores ao conflito. As exportações de petróleo bruto e condensado atingiram média de aproximadamente 18,3 milhões de barris por dia durante o mês, enquanto embarques de gás natural liquefeito também aumentaram.
Isso revela uma realidade muito menos simples do que a ideia de um estreito completamente fechado.
Há navios atravessando.
Há cargas saindo.
Há escoltas.
Há embarcações desligando sistemas de identificação.
Há ataques.
E há uma negociação política permanente sobre quem pode passar e em quais condições.
Em setembro, o número de cargas de gás natural liquefeito que conseguiram atravessar Ormuz atingiu o maior nível mensal desde o início da guerra. Algumas embarcações realizaram os chamados “dark transits”, desligando seus transponders AIS durante parte da travessia para dificultar sua localização. Segundo dados analisados pela Reuters, pelo menos 19 carregamentos de GNL cruzaram a região durante setembro, e outra empresa de análise contabilizou 21.
É uma imagem extraordinária da guerra marítima contemporânea: navios transportando energia por uma das rotas comerciais mais importantes do planeta enquanto tentam desaparecer eletronicamente durante a passagem por uma zona na qual forças americanas e iranianas trocam ataques.
O Irã não precisa ter uma Marinha maior para tornar o mar perigoso
A assimetria militar entre Estados Unidos e Irã é enorme. Washington possui porta-aviões nucleares, submarinos, aviação embarcada, redes de satélites, inteligência global, destróieres equipados com sistemas avançados de defesa aérea e uma capacidade logística que nenhuma outra força naval consegue reproduzir na mesma escala. Medida dessa maneira, a Marinha iraniana não é uma concorrente equivalente.
Mas Teerã nunca construiu sua estratégia marítima esperando vencer uma batalha naval convencional contra os Estados Unidos.
Sua aposta histórica foi outra: transformar a geografia do Golfo Pérsico e do Estreito de Ormuz num multiplicador de força. Águas relativamente estreitas, proximidade da costa iraniana, ilhas, embarcações pequenas, mísseis antinavio, minas, drones e sistemas terrestres permitem criar uma zona na qual a superioridade americana continua existindo, mas pode tornar-se extraordinariamente cara para ser utilizada.
É a diferença entre dominar o oceano e tornar uma determinada faixa do oceano perigosa demais para que o adversário opere nela livremente.
A guerra atual está testando essa doutrina na prática.
No começo de setembro, Estados Unidos e Irã trocaram ataques contra embarcações nas águas próximas ao país. O CENTCOM afirmou que forças americanas atingiram três petroleiros iranianos depois que a Guarda Revolucionária lançou mísseis contra dois navios da Marinha dos Estados Unidos. O Irã, por sua vez, afirmou ter atacado navios ligados aos americanos e apresentou seus novos sistemas antinavio como responsáveis por obrigar unidades dos EUA a se afastarem.
Washington afirmou que seus navios evitaram os ataques e que nenhum militar americano ficou ferido.
Teerã descreveu a mesma sequência como prova de vulnerabilidade americana.
As duas afirmações não são necessariamente incompatíveis. Um míssil pode não atingir um navio e ainda assim obrigá-lo a alterar posição, empregar sistemas defensivos e manter maior distância do litoral. Da mesma forma, conseguir empurrar uma embarcação para mais longe não significa destruir a capacidade americana de realizar ataques.
É por isso que a expressão utilizada por Fadavi — “eles fugiram” — deve ser entendida simultaneamente como mensagem militar e instrumento de propaganda.
O Irã quer convencer sua própria população, seus adversários e seus parceiros de que conseguiu quebrar a imagem de invulnerabilidade naval dos Estados Unidos.
Washington quer demonstrar exatamente o contrário.
No meio das duas narrativas existe uma guerra real, com navios destruídos, rotas alteradas, petroleiros atacados, seguros marítimos mais caros, tripulações operando sob ameaça e uma parcela considerável do comércio mundial de energia tentando atravessar uma região militarizada.
Uma disputa que está longe de terminar
O aspecto mais importante da declaração iraniana talvez seja o momento em que ela aparece. Enquanto Fadavi anuncia que as forças americanas foram empurradas para longe, Washington está reforçando — e não desmontando — sua capacidade militar na região ampliada. Informações recentes apontam para novos deslocamentos de forças americanas durante as próximas semanas, incluindo milhares de militares adicionais e outros grupos navais. Isso contradiz qualquer interpretação de que os Estados Unidos tenham decidido simplesmente abandonar a confrontação.
Ao mesmo tempo, o Irã mantém uma posição negociadora dura. Qalibaf afirmou que Ormuz não será plenamente reaberto enquanto as sete condições iranianas não forem atendidas. O chanceler Abbas Araqchi declarou neste domingo que Teerã continua disposto à diplomacia, mas advertiu que o país está mais preparado do que antes para responder caso Washington volte a optar por uma grande ofensiva militar.
A contradição define o momento atual.
As duas partes negociam.
As duas partes ameaçam.
As duas partes movimentam forças.
E ambas tentam demonstrar que é o adversário quem está sob pressão.
É nesse cenário que a declaração de Ali Fadavi deve ser lida. Não há base independente suficiente para afirmar como fato que a Guarda Revolucionária “expulsou” todas as forças americanas para mais de mil quilômetros do Irã. Há, entretanto, evidências abundantes de que a capacidade iraniana de ameaçar grandes navios modificou o cálculo operacional na região e de que o Estreito de Ormuz permanece longe de uma situação normal.
Para o Irã, isso já representa uma vitória estratégica parcial: uma potência militar incomparavelmente maior precisa calcular cuidadosamente onde posiciona seus navios diante da possibilidade de ataques iranianos.
Para os Estados Unidos, distância não significa derrota. Washington conserva capacidade de atingir o Irã a partir de posições muito mais afastadas e continua dispondo de recursos militares que Teerã não consegue reproduzir.
É exatamente por isso que a disputa de Ormuz é tão importante.
Não se trata simplesmente de perguntar quem possui a maior Marinha. Essa resposta é evidente.
A questão é saber quem consegue impor ao outro o custo de utilizar o mar.
Depois de meses de guerra, ataques a navios, bloqueios, interrupções no comércio e uma disputa permanente pelo estreito, Teerã afirma ter conseguido empurrar a frota americana para longe de suas costas. Washington continua demonstrando que pode operar militarmente na região mesmo a distância.
Entre essas duas realidades está um corredor marítimo por onde, antes da guerra, passava aproximadamente um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no planeta.
É por isso que alguns quilômetros de mar entre um navio americano e a costa iraniana deixaram de ser apenas uma questão de posicionamento militar.
Tornaram-se uma medida concreta da disputa pelo poder no Oriente Médio.