O horário eleitoral gratuito do primeiro turno das eleições de 2026 começa nesta sexta-feira (28) e será veiculado até 1º de outubro, três dias antes da votação, marcada para 4 de outubro. Portanto, embora a campanha eleitoral já esteja nas ruas e nas redes desde 16 de agosto, o rádio e a televisão entram agora na disputa.
O horário eleitoral começa com uma novidade estrutural e um favoritismo técnico já confirmado. A coligação Brasil Pronto para Mais, composta pelos partidos PT, PCdoB, PV, PDT, PSB, PSOL e REDE, que sustenta a candidatura à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), terá a maior fatia do tempo de propaganda no rádio e na televisão, com direito a 5 minutos e 32 segundos por bloco diário. O principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL), ficará com 4 minutos e 20 segundos, uma diferença de mais de um minuto a favor do petista.
Apenas quatro candidatos à Presidência terão direito ao horário eleitoral gratuito em 2026, reflexo da cláusula de barreira que exclui partidos com bancadas reduzidas na Câmara dos Deputados. Além de Lula e Flávio, aparecem Ronaldo Caiado (PSD), com 2 minutos e 2 segundos por bloco, e Augusto Cury (Avante), com apenas 35 segundos. Os demais presidenciáveis — incluindo nomes como Renan Santos, Romeu Zema (Novo) e outros — não atingiram o patamar mínimo exigido pela legislação.
Os programas presidenciais serão exibidos em dois blocos diários de 12 minutos e 30 segundos cada, somando 25 minutos por dia de propaganda no rádio e na TV.
Para a Presidência, os programas serão exibidos às terças, quintas e sábados. No rádio, às 7h e às 12h; na televisão, às 13h e às 20h30. Cada bloco presidencial terá 12 minutos e 30 segundos.
Lula terá maior tempo e fecha o primeiro programa
A vantagem de Lula não é apenas de tempo. O sorteio do TSE determinou que, no primeiro dia de propaganda presidencial, Augusto Cury será o primeiro, seguido por Caiado, Flávio Bolsonaro e Lula. Nos dias seguintes, a ordem será alterada por rodízio. Assim, o petista encerra o primeiro bloco presidencial — uma posição tradicionalmente valorizada pelos marqueteiros por ser a última mensagem antes do encerramento do espaço eleitoral.
Também nas inserções a coligação de Lula larga na frente: serão 434 inserções de 30 segundos, contra 339 do PL, 160 do PSD e 47 do Avante. Ao todo, são 980 inserções presidenciais distribuídas ao longo da programação.
A diferença para 2022: mais tempo, mas formato semelhante
A diferença em relação a 2022 é notável. Na eleição passada, Lula tinha 3 minutos e 39 segundos de TV por bloco, enquanto Jair Bolsonaro, candidato à reeleição, dispunha de 2 minutos e 38 segundos. Em 2026, Lula ampliou sua fatia para 5min32s — um acréscimo de quase dois minutos — enquanto Flávio, agora herdeiro político do bolsonarismo, conseguiu 4min20s, quase o dobro do que o pai tinha há quatro anos.
Em 2026, a coligação de Lula reúne sete partidos, enquanto Flávio disputa a Presidência apenas pelo PL.
Para efeitos de memória histórica, vale lembrar que em 2018 Jair Bolsonaro disputou — e venceu — a Presidência com apenas 8 segundos de TV, à época filiado ao PSL. O fenômeno, inédito, mostrou que o tempo de televisão, embora ainda um ativo relevante, perdeu o protagonismo absoluto que teve em eleições anteriores.
A televisão agora disputa atenção com as redes
Uma das diferenças mais importantes em relação a 2022 não está no tempo de propaganda, mas no ecossistema de comunicação. O programa televisivo de 2026 será imediatamente recortado, comentado, confrontado e redistribuído nas plataformas digitais.
As eleições de 2026 serão as primeiras com regras específicas e mais rígidas sobre o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral. A Resolução nº 23.755 do TSE proíbe expressamente o uso de deepfakes — vídeos, imagens ou áudios manipulados por IA para simular falas ou ações de candidatos que nunca ocorreram. A utilização de conteúdo sintético multimídia gerado por IA precisa ser rotulada, sob pena de punição.
A preocupação do TSE é evitar a desinformação em escala industrial, um fantasma que rondou as eleições de 2022 e se intensificou com o avanço das ferramentas de IA generativa. A nova regulamentação também proíbe o impulsionamento pago de propaganda eleitoral negativa, buscando reduzir a poluição digital nos dias que antecedem o pleito.
Em 2026, portanto, a disputa pelo horário eleitoral ocorre simultaneamente em duas frentes: o espaço regulado do rádio e da televisão e o ambiente muito mais veloz e fragmentado das plataformas digitais.
O desafio de Lula é transformar tempo em voto
A vantagem de Lula é expressiva. Ele terá o maior tempo de propaganda, a maior quantidade de inserções entre os presidenciáveis e, já no primeiro dia, encerrará o bloco presidencial.
Mas tempo de televisão, por si só, não garante vantagem eleitoral. A eficiência da campanha dependerá de sua capacidade de utilizar os 5 minutos e 31 segundos para produzir uma narrativa simples, emocionalmente compreensível e eleitoralmente mobilizadora.
Em 2026, a campanha parte de uma situação distinta: Lula busca um novo mandato, enquanto seu principal adversário é o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. A televisão será, assim, o grande palco para uma disputa que combina avaliação do governo, comparação entre projetos e memória política.
A aposta da campanha de Lula é usar o tempo recorde para consolidar uma narrativa de governo realizador e transformar aprovação em voto. A de Flávio é desconstruir o legado petista e herdar o eleitorado bolsonarista órfão do patriarca, hoje inelegível. Os próximos 35 dias dirão qual estratégia prevalecerá nas urnas de 5 de outubro.