
O eletricista Robert Lennon, de 35 anos, passou a gravar a própria rotina doméstica para empresas que treinam sistemas de inteligência artificial e faturou mais de R$ 5,3 mil em dois meses. Com um celular preso à cabeça, ele registra tarefas como lavar louça, recolher brinquedos, varrer a sala e limpar o quintal em vídeos que capturam os movimentos de suas mãos. Com informações de O Globo.
Sem emprego após o fim do seguro-desemprego, Robert diz que recusou trabalhos eventuais na construção civil para se dedicar às gravações. O dinheiro já serviu para comprar uma máquina de lavar, duas bicicletas e um monitor, além de iniciar uma reserva de emergência. “No momento não estou trabalhando, mas até está compensando”, afirmou.
Plataformas como KGeN, MimixAI, Claru e Hub Robotics remuneram, em geral, entre US$ 3 e US$ 7 por hora de vídeo aprovada. O participante deve cumprir exatamente a atividade escolhida no aplicativo, e as empresas podem recusar filmagens que apresentem lentidão proposital ou não atendam às instruções.
A KGeN afirma que coleta dados de pessoas do Sul Global para treinar inteligência artificial física e grandes modelos de linguagem. Ligada à Humyn Labs, a empresa diz que já coletou mais de 200 mil horas de gravações no sul da Ásia, no Sudeste Asiático e no Oriente Médio, com atividades como cozinhar, limpar, lavar e dobrar roupas.
Vídeos em primeira pessoa alimentam treinamento de robôs
As imagens integram o mercado dos chamados dados egocêntricos, registros feitos em primeira pessoa. Para sistemas de visão computacional e robôs, movimentos simples, como pegar um copo ou cortar um alimento, fornecem informações sobre posição, distância, velocidade e direção que não estão disponíveis apenas em textos e fotos da internet.
Rafael Zanatta, diretor executivo da Data Privacy Brasil, explica que os sistemas analisam os gestos em detalhes. “O sistema mede os vetores de distância entre o seu dedo, o seu punho, a angulação do movimento. Ele rotula toda a tarefa que você faz”, disse. Para ele, startups buscam esses dados em economias informais do Brasil e da Índia antes de revendê-los a grandes empresas de tecnologia.
Em Balsas, no Maranhão, o inspetor de risco Rubens Brito de Sousa, de 25 anos, grava tarefas nas horas vagas e recebe entre R$ 200 e R$ 250 por semana. Ele filma enquanto limpa móveis e banheiro, cozinha, prepara café, recolhe folhas no quintal ou dobra roupas. “Ao invés de manter minha casa arrumada de graça, vou manter minha casa arrumada ganhando dinheiro”, resumiu.
O modelo também levanta questionamentos sobre privacidade e direitos trabalhistas. Embora as plataformas geralmente proíbam imagens de crianças, rostos, fachadas e placas de veículos, os vídeos podem expor objetos, hábitos e detalhes do ambiente doméstico. Zanatta defende que o debate sobre o direito de personalidade entre na regulamentação da inteligência artificial, enquanto a pesquisadora Astha Kapoor propõe o reconhecimento formal dessa atividade como trabalho, com garantias aos participantes.