A semana em que uma jornalista foi jogada às hienas. Por Moisés Mendes

A jornalista e comentarista política Maria Cristina Fernandes. Foto: Divulgação/Valor Econômico

O Brasil, sob a tensão permanente do fascismo, conseguiu produzir mais um episódio inimaginável, mesmo entre os que se dedicam a prever absurdos. Uma jornalista consagrada, comentarista de política do mais respeitado jornal de economia do país, é personagem do fato da semana e que pode vir a ser um dos fatos da eleição.

Maria Cristina Fernandes é colunista do Valor Econômico e comentarista da GloboNews e da CBN. Já trabalhou nas principais redações do país. Não é uma profissional imatura. Tem 58 anos e é formada em jornalismo e história.

Tem mestrado em política comparada pela Universidade Paris I e em Estudos Latino-Americanos pela Universidade de Londres. No dia 24, no programa ‘Em Pauta’ da GloboNews, ela disse:

“Tem um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos que está mobilizando um projeto de lei para tirar a Nossa Senhora de Aparecida da condição de padroeira, que pode, sim, surtir efeito entre os católicos a favor do Lula”.

A extrema direita reagiu diante do que seria uma fake news, porque o projeto é de 2017, e a GloboNews fez uma correção em tom nunca visto antes, como se Maria Cristina tivesse errado ao anunciar o fim do mundo.

O que a jornalista fez talvez tenha sido o que já foi chamado de ‘barrigada’, um erro sobre uma informação com alguma relevância. No máximo isso. Mas nunca será uma fake news.

Maria Cristina pode ter errado ao dar a entender que o projeto não está numa gaveta, como só parece que estão os projetos sobre a anistia para Bolsonaro, os generais e os manés golpistas. São projetos vivos e prontos para entrar em votação logo depois da eleição.

Não há tanta gaveta para os projetos da extrema direita. O que faltou foi amarrar a suspeita de que o projeto se mexe na gaveta e dali pode sair a qualquer momento. Irmãos, primos e parentes desse projeto estão na mesma situação.

O inusitado aqui é que uma jornalista séria, que nunca assumiria deliberadamente o papel de disseminadora de fake news, foi parar no centro de um imbróglio que envolveu Flávio Bolsonaro, o Supremo e o ministro terrivelmente evangélico André Mendonça. Porque os desdobramentos da informação passaram a ser incontroláveis na redes.

A Globo jogou Maria Cristina às hienas. As facções bolsonaristas e Flávio a acusaram de produzir mentira, e Mendonça aproveitou e mandou censurar, nas redes sociais, tudo o que se referisse à santa e tivesse relação com o que Maria Cristina disse naquela terça-feira.

E assim chegamos à última semana antes da eleição. O grande fato dos últimos dias, que o fascismo transformou em controvérsia, saiu da voz de uma jornalista que, por sua sobriedade, não deveria ter relação alguma com esse tipo de episódio.

O que impressiona, em meio a tanta gritaria, não é o alarido do bolsonarismo, mas o silêncio dos que se consideram antifascistas, entre os quais jornalistas colegas de Maria Cristina.

Por que a decisão da Globo de sacrificá-la, para acalmar os bolsonaristas, foi recebida com tanta naturalidade? De onde o jornalismo tirou tanta covardia?

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