Sakamoto: Desespero de influenciadores de bets é grande notícia para o Brasil

Influenciador Rico Melquíades, que anunciou sua saída do país após o fim das bets Reprodução

Há uma sinfonia de choro e ranger de dentes ecoando pelos stories do Instagram. Influenciadores digitais, outrora sorridentes enquanto ostentavam carros importados e viagens milionárias, agora gravam vídeos com semblantes carregados, lamentando a proibição das plataformas de apostas pelo governo federal. Alguns xingam, outros ameaças, há quem rasgue a compostura. Esse desespero público de quem perdeu a mina de ouro é o maior atestado de que a medida do governo federal não é apenas fumaça. Ou seja, a mamata construída sobre a ruína de milhares de famílias trabalhadoras pode estar secando.

Vender bet nunca foi sobre entretenimento, mas sobre tráfico de ilusão. Essa turma enriqueceu atuando como autênticas biqueiras virtuais, empurrando uma droga financeira altamente viciante direto para a tela do celular de quem já contava as moedas para chegar ao fim do mês. Lucravam alto com a comissão do desastre alheio, transformando a ansiedade e o superendividamento da população em combustível para ostentação fútil. Agora que a torneira do dinheiro fechou, posam de vítimas. É o cinismo clássico de quem chora por perder a licença legalizada para explorar o próximo.

Evidentemente, a gritaria não se restringe aos criadores de conteúdo órfãos do dinheiro fácil. Nos corredores da política, há quem torça o nariz para a intervenção do Estado, apressando-se em desmerecer a proibição das apostas como medida oportunista do governo Lula. É eleitoreira sim, mas e daí? Tal como eleitoreiro é o Bolsa Família finalmente reajustado em 15% para compensar a inflação dos últimos anos e que vai resultar em famílias comendo mais carne. Ou as canetas emagrecedoras distribuídas pelo SUS, após anos de demandas dos mais pobres, e devem ajudar gente com obesidade a conviver melhor com a diabetes tipo 2.

Existe uma categoria de política pública que gente boa crescida no leite de pera enxerga apenas como estratégia de marketing eleitoral, esquecendo que é na época das eleições que determinadas conquistas são possíveis devido ao desespero dos candidatos por votos. No restante do tempo, normalmente quem ganha é a força do dinheiro na disputa da correlação de forças. E a maioria acha que isso é business as usual e segue o jogo. Desprezar que as pessoas sabem que, a cada quatro anos, o voto do banqueiro vale o mesmo que o da faxineira, é confundir pragmatismo do povo com burrice.

E foi justamente essa força do dinheiro que bancou a farra irrestrita dos cassinos de bolso até ontem, comprando silêncios e as consciências plastificadas de quem vendia mentiras nas redes. Quando o Estado resolve intervir para estancar essa sangria no orçamento familiar, derrotando, pelo menos, provisoriamente os bilhões do setor, o ganho real esmaga qualquer retórica. A classe trabalhadora paralisa sua hemorragia financeira e, de quebra, devolve a fatura do desespero a quem faturava dinheiro fácil.

O choro copioso dos viúvos das bets é música para os ouvidos de quem se importa com a saúde mental e a estabilidade financeira da base da pirâmide. Que esses influenciadores sequem suas lágrimas com as roupas de grife compradas com o dinheiro do aluguel alheio e procurem um emprego.

Não sabemos por quanto tempo, mas o Brasil amanheceu um pouco mais respirável.

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