Há algumas décadas, o vício em apostas era algo marginal, que afetava uma pequena parcela da sociedade, sem grandes impactos na economia ou na saúde pública. A disseminação das bets e jogos on line mudou dramaticamente essa situação, ao ponto de seu peso, no Brasil, já equivaler à retirada de 0,9% a 1,1% do PIB — o que significa algo entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões a menos na atividade econômica somente em 2025.
Os valores foram calculados por Guilherme Klein — professor de Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made) da USP — e publicados no artigo “O custo econômico das bets: efeitos sobre PIB, arrecadação e desigualdade”.
“Para dimensionar essa magnitude, a perda estimada corresponde a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia em 2025 e é cerca de cinco vezes maior do que estimativas do impacto do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro”, explica.
Além dos efeitos sobre o consumo, Klein aponta perdas importantes ao orçamento governamental. Para calcular esse volume, considerou que uma redução de 1% do PIB provoca uma diminuição entre 0,8% e 1,2% na arrecadação.
“Como a carga tributária bruta do Governo Geral foi de cerca de 32,4% do PIB em 2025, a redução da atividade econômica estimada acima implicaria uma perda de arrecadação entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões. Descontando os cerca de R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com as plataformas de apostas, o efeito líquido sobre as contas públicas ainda seria negativo em, no mínimo, R$ 22 bilhões, podendo chegar a até R$ 46 bilhões”, aponta.
Saiba mais: Ministro defende “tolerância zero” com bets ilegais e regulação mais dura
Ele ainda mostra que isso equivale a entre 10% e 20% de todos os recursos destinados à saúde pública na Lei Orçamentária de 2025. “Em suma, embora as bets gerem arrecadação direta, a perda de atividade econômica que provocam mais do que compensa essa receita”, diz.
Endividamento e concentração de renda
Os efeitos negativos na economia, no entanto, não param por aí. Klein também estimou o quanto as apostas afetam o endividamento das famílias — uma das principais dores de cabeça da população e dos governos hoje — e a distribuição de renda — interferindo diretamente na manutenção das desigualdades.
O economista avalia que, “considerando que o saldo de crédito para as pessoas físicas subiu cerca de R$ 450 bilhões (de R$ 3,97 trilhões para R$ 4,42 trilhões), se toda a transferência líquida de R$ 62,5 bilhões tivesse sido financiada por novo crédito – uma hipótese extrema – ela corresponderia a cerca de 14% do aumento do endividamento das famílias em 2025”. A transferência líquida a que ele se refere diz respeito à diferença entre o que é apostado e o que as pessoas recebem de volta – cerca de R$ 62,5 bilhões, conforme estudo recente do Centro Celso Furtado.
Com o objetivo de aferir o impacto na renda por estrato social, o economista usou uma média entre pesquisas recentes. “Multiplicando, em cada faixa, a despesa média mensal familiar pelo número de famílias e agregando as classes, obtemos aproximadamente 10,3% do gasto total entre famílias de até dois salários mínimos, 40,8% entre dois e seis e 49% acima de seis salários mínimos”, ponderou.
A partir desse cenário, pondera: “levando em conta que o 1% mais rico fica com cerca de 24% de toda a renda do país, estimamos que essa transferência de dinheiro das famílias para as bets aumentou a concentração de renda no topo (1% mais rico) entre 0,5% e 2,1%, a depender da hipótese sobre quem recebe os lucros das casas de aposta – no primeiro caso, apenas retiramos os R$ 62,5 bilhões da renda dos 99% da base, enquanto no segundo adicionamos esse valor para o 1% mais rico. Mesmo no caso mais conservador, é um efeito significativo em um país em que a concentração de renda já é extremamente elevada”.
Enfrentamento às bets
Desde o começo, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem buscado enfrentar o problema — criado na gestão de Michel Temer (MDB), que liberou os jogos, e mantido e potencializado sob Jair Bolsonaro (PL) — com medidas que vão desde o estabelecimento de uma marco regulatório e a cobrança de impostos e taxas até restrições publicitárias e reforço no atendimento em saúde mental pelo SUS.
Para citar apenas algumas das medidas já adotadas diretamente contra essas empresas, no final de 2023, Lula sancionou a Lei das Bets, estabelecendo regras tributárias, de segurança e de publicidade. Em 2024, foi criada a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) e a partir de de janeiro de 2025, apenas as empresas que passaram pelo processo de outorga federal e receberam autorização do Ministério da Fazenda passaram a ser consideradas legalmente aptas a operar nacionalmente.
Saiba mais: Cerco às bets: governo Lula bloqueia 60 mil sites ilegais de apostas
No final do ano passado, o governo proibiu os chamados “mercados de predição” (plataformas onde se negocia com base no resultado de eventos futuros) e aumentou a taxação geral sobre as operadoras.
Em junho, Lula assinou decreto permitindo o bloqueio, em até 24 horas, de contas bancárias e transações associadas a plataformas clandestinas. Além disso, influenciadores digitais e personalidades que promovam plataformas que não autorizadas pelo governo passaram a ser punidos financeiramente.
Vale destacar, ainda, a proibição de anúncios que sugiram urgência, enriquecimento fácil ou o uso de “especialistas” em apostas e a exibição obrigatória, nas propagandas, de avisos nítidos informando que “apostar não é investimento” e que a prática pode gerar dependência e perda de dinheiro.
Ao mesmo tempo, foi lançada a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, que permite ao próprio cidadão bloquear o seu CPF simultaneamente em todas as casas de apostas autorizadas do país. E, recentemente, mais de 60 mil sites ilegais foram derrubados pelo governo.
Agora, o governo estuda uma medida provisória para fechar ainda mais o cerco a essas empresas. O conteúdo das novas regras ainda está sendo debatido. A questão também consta de seu programa de governo, no qual foca especialmente o tratamento ao vício e o combate ao endividamento.
Decisões drásticas
Em mais de uma ocasião ao longos dos últimos anos, Lula manifestou seu desejo de, inclusive, proibir os jogos. Há poucos dias, defendeu ações “mais drásticas” a respeito e disse: “Eu, pessoalmente, acabaria com as bets. Acho que elas são um mal para a sociedade. Agora, como presidente da República, sei que tenho que compartilhar decisões para fazer da forma mais correta possível, sem comprometer a estabilidade política, econômica e social deste país”.
Nesta segunda-feira (14), declarou que “estamos tomando decisões e logo, logo a gente vai anunciar a decisão que a gente vai tomar em relação a isso, porque é uma doença, não é um jogo. É a indução de inocentes a um vício”.
Lula disse, ainda, que teve uma “reunião muito penosa com pessoas que são vítimas das apostas em bets”, acrescentando que “possivelmente, quase nenhuma autoridade brasileira conhece por dentro o que está acontecendo em nosso país. É muito sofrimento e é muita dependência”.