
O irmão de Michelle Bolsonaro, Diego Torres Dourado, teve participação direta nas articulações que antecederam a troca da cúpula das Forças Armadas no governo Jair Bolsonaro, em março de 2021. É o que diz o brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, então um dos oficiais mais antigos da Aeronáutica, em matéria do Estadão.
Baptista Junior estava em uma barbearia em Brasília em 31 de março de 2021, durante a crise que provocou a saída simultânea dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Foi quando recebeu uma ligação de Diego Torres Dourado.
A pergunta feita pelo irmão de Michelle foi direta: “Brigadeiro, se o presidente o convidar para assumir o comando da Aeronáutica, o senhor aceita?”
Dourado tinha acesso ao presidente Jair Bolsonaro por ser irmão de Michelle. Ao mesmo tempo, conhecia Baptista Junior por ter sido cabo da Aeronáutica durante oito anos, antes de se tornar assessor do Ministério da Defesa.
A participação de Dourado na articulação é apresentada como um elemento até então pouco conhecido da crise militar de 2021. Naquele momento, após a saída do brigadeiro Antonio Carlos Bermudez do comando da FAB, Baptista Junior estava entre os oficiais mais antigos da Força e era um nome naturalmente cotado para substituí-lo.
A cena é relatada por Baptista Junior no livro “Eu disse não: uma trincheira antigolpista”, da Autêntica Editora, que o oficial deve lançar em setembro.
A troca da cúpula militar
A crise de março de 2021 foi inédita desde a redemocratização. Pela primeira vez desde 1985, um presidente provocou a saída simultânea de toda a cúpula das Forças Armadas.
O episódio também abriu caminho para a ascensão do general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira ao comando do Exército. A mudança, segundo o relato apresentado pelo Estadão, fazia parte de uma articulação palaciana que envolvia Walter Braga Netto, então ministro-chefe da Casa Civil, e Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo.

A intenção de Bolsonaro era colocar no comando do Exército um oficial mais alinhado ao governo, em meio ao crescente conflito institucional com o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.
Paulo Sérgio acabou posteriormente assumindo o Ministério da Defesa e se tornou um dos personagens centrais das investigações sobre a tentativa de golpe após a derrota eleitoral de Bolsonaro em 2022.
O episódio que marcou Baptista Junior
O livro de Baptista Junior também descreve o momento em que, em dezembro de 2022, o oficial percebeu que as articulações haviam ultrapassado o campo das especulações.
Em 14 de dezembro, os comandantes das três Forças foram convocados para uma reunião no Ministério da Defesa. Sobre a mesa havia uma pasta transparente contendo uma minuta de documento que, segundo o relato, previa algum tipo de medida de exceção.
Baptista Junior questionou se o documento previa impedir a posse do presidente eleito.
Diante da confirmação, o brigadeiro respondeu: “Não aceito sequer receber esse documento. A FAB não participará disso.”
O episódio, segundo o relato, marcou a posição de Baptista Junior contra a tentativa de envolver a Aeronáutica em uma ruptura institucional.
O caso também ajuda a iluminar as disputas internas entre os militares durante os últimos meses do governo Bolsonaro e o papel de diferentes integrantes do entorno presidencial nas articulações que antecederam a crise pós-eleitoral e os acontecimentos que culminaram no 8 de janeiro de 2023.