ONU corta mais de 10 mil empregos e ameaça assistência a refugiados após chantagem de Trump

Bandeira da ONU em frente à sede das Nações Unidas em Nova York
Bandeira da ONU em frente à sede das Nações Unidas em Nova York. Foto: Reprodução

A ONU eliminou mais de 10 mil postos de trabalho em um ano e vê sua capacidade de atender refugiados e populações vulneráveis encolher com a crise financeira. Os cortes atingiram 21 das 41 agências e organismos do sistema em 2025, incluindo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), a Organização Internacional para as Migrações e o Unicef.

O sistema das Nações Unidas tinha 130.948 postos em 2024 e caiu para 120.176 no ano seguinte, uma redução de 8%, segundo dados do Conselho de Chefes Executivos da organização. Para 2026, a entidade já aprovou a extinção de outros 2,9 mil cargos e criou programas de demissão voluntária e aposentadoria antecipada.

A restrição atinge diretamente famílias que dependem da rede humanitária. O fisioterapeuta e empresário Delmany Rodrigues, que deixou Angola com a mãe e o irmão em 1994 para escapar da guerra civil, recebeu no Rio de Janeiro cestas básicas, materiais escolares, auxílio-aluguel e bolsas de estudo por meio de iniciativas ligadas à Cáritas e ao ACNUR.

“Foi um divisor de águas na nossa vida. Hoje as pessoas me chamam de doutor, tenho clínica e virei empresário. Mas eu não seria nada disso se não tivesse recebido esse auxílio lá no início”, disse Delmany. Para ele, a redução dos recursos representa “uma dor muito grande” para famílias que buscam proteção em outros países.

Escritório da Acnur. Foto: ONU

ACNUR fecha escritórios e reduz serviços de proteção

O ACNUR pediu US$ 10,6 bilhões para suas operações no ano passado, voltadas a quase 130 milhões de pessoas no mundo, mas arrecadou menos de 40% desse valor. Em 2024, a agência já havia obtido somente 48% do necessário para manter suas atividades.

Diante da falta de recursos, o órgão cortou um terço de sua força de trabalho, fechou escritórios em 140 locais e encerrou operações em 15 países. A agência calcula que 8,3 milhões de pessoas podem perder assistência vital, entre elas refugiados no Afeganistão, na Síria e na Etiópia; no Chade, mais de 230 mil crianças podem ficar sem serviços de proteção infantil.

Até o fim de julho de 2026, o ACNUR havia recebido US$ 2,7 bilhões dos US$ 8,5 bilhões necessários para funcionar no ano, mesmo depois de reduzir seu orçamento em 20%. Mais da metade do dinheiro obtido tem destino restrito por exigência dos doadores, o que limita a realocação dos recursos para emergências.

No Brasil, o ACNUR recebeu apenas 22% do valor necessário para operar em 2026 até o fim de agosto. No ano anterior, a agência e entidades parceiras cortaram 40% de sua força de trabalho no país, enquanto até 500 pessoas chegam diariamente ao território brasileiro para solicitar proteção internacional. A redução já deixou parte dos refugiados sem acesso a serviços antes oferecidos por programas apoiados pela agência.

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