Governo avalia que presidente dos Estados Unidos moderou o tom depois do primeiro turno, mas teme que algoritmos, recomendações e mudanças de alcance nas plataformas digitais possam afetar a circulação de conteúdos durante a reta final entre Lula e Flávio Bolsonaro
Da Redação
A reação de Donald Trump ao resultado do primeiro turno foi recebida no Palácio do Planalto com uma avaliação inesperadamente cautelosa. Depois de meses de tensão entre Brasília e Washington, o presidente dos Estados Unidos comentou a eleição brasileira sem declarar apoio formal a Flávio Bolsonaro e chegou a elogiar a rapidez da apuração eletrônica. Nos bastidores do governo, a manifestação foi classificada como comedida. A preocupação para as próximas duas semanas, porém, deslocou-se para outro terreno: as grandes plataformas digitais e o poder de seus algoritmos sobre aquilo que milhões de brasileiros verão — ou deixarão de ver — até a votação de 25 de outubro.
Trump classificou o desempenho do primeiro colocado como uma “grande vitória”, embora tenha ressaltado que a diferença foi apertada. Não citou Flávio nominalmente e, segundo o relato divulgado após a eleição, também demonstrou surpresa positiva com a velocidade da totalização brasileira. O tom contrasta com episódios anteriores nos quais integrantes da administração norte-americana fizeram críticas públicas a instituições brasileiras, sanções foram impostas a autoridades e decisões de Brasília relacionadas às plataformas digitais entraram no centro das divergências entre os dois países.
No Planalto, entretanto, a ausência de uma intervenção presidencial direta não é interpretada como sinal de que o ambiente digital deixou de exigir atenção. A avaliação de interlocutores governistas é que uma eventual influência sobre o eleitorado não precisaria assumir a forma tradicional de uma declaração estrangeira, de um financiamento identificado ou de uma campanha oficialmente vinculada a outro governo. Poderia ocorrer de maneira muito menos visível, por meio da arquitetura das próprias redes.
É nesse ponto que as big techs aparecem como motivo de preocupação.
O poder está no que o eleitor vê
O problema considerado mais difícil de monitorar não é necessariamente a retirada explícita de uma publicação. O centro da discussão está nos sistemas de recomendação utilizados pelas plataformas para escolher quais vídeos, textos, perfis e temas receberão maior distribuição.
Um conteúdo não precisa ser censurado para praticamente desaparecer. Pode continuar publicado e, ainda assim, ter seu alcance reduzido. O movimento inverso também é possível: uma publicação pode ser impulsionada organicamente pelos sistemas de recomendação e alcançar milhões de pessoas sem que exista compra formal de publicidade.
Esses mecanismos operam em escala gigantesca e são conhecidos apenas parcialmente por usuários, partidos e autoridades eleitorais.
A preocupação relatada em Brasília é que mudanças nos critérios de recomendação, monetização, distribuição ou moderação possam criar condições desiguais entre diferentes campos políticos sem que isso apareça imediatamente como uma interferência eleitoral clássica.
Não há, neste momento, prova pública de que plataformas estejam manipulando seus algoritmos para favorecer Flávio Bolsonaro ou prejudicar Lula. A hipótese tratada nos bastidores governamentais é de risco, não uma conclusão já demonstrada.
Essa diferença é importante.
A Justiça Eleitoral afirmou depois do primeiro turno não ter encontrado indícios de interferência estrangeira no processo de votação. O próprio presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, avaliou positivamente a cooperação estabelecida com as plataformas durante a primeira etapa da disputa.
O alerta para o segundo turno está ligado justamente à necessidade de acompanhar aquilo que ocorre antes de o eleitor chegar à urna.
A votação pode transcorrer de maneira segura e tecnicamente íntegra enquanto o ambiente informacional no qual milhões de pessoas formam suas opiniões passa por alterações difíceis de detectar.
TSE obrigou plataformas a apresentar planos
A Justiça Eleitoral preparou uma estrutura específica para enfrentar esse problema em 2026.
Nove plataformas apresentaram ao TSE planos de conformidade eleitoral: Google, Kwai, LinkedIn, Mercado Livre, Meta, OpenAI, Telegram, TikTok e X.
Os documentos detalham procedimentos para responder a determinações judiciais, remover propaganda irregular, suspender contas quando necessário, fornecer dados requisitados pela Justiça e adotar medidas contra conteúdos falsos ou gravemente descontextualizados que possam atingir a integridade da eleição.
A novidade é que o controle não se limita mais ao conteúdo produzido diretamente pelas campanhas.
O ambiente digital atual envolve influenciadores, páginas aparentemente independentes, redes de perfis coordenados, inteligência artificial generativa, anúncios segmentados e sistemas de recomendação capazes de distribuir uma mensagem a públicos específicos sem que outros grupos sequer saibam que ela está circulando.
É um modelo muito diferente da televisão ou do rádio, nos quais a propaganda eleitoral é visível para todos e obedece a horários claramente definidos.
Nas plataformas, dois eleitores vivendo na mesma rua podem passar a campanha inteira expostos a universos políticos completamente diferentes.
Esse poder de segmentação explica por que a discussão sobre algoritmos ganhou dimensão institucional.
Dependência tecnológica virou tema de soberania
A Agência Brasileira de Inteligência já havia colocado o problema em termos mais amplos antes mesmo das eleições.
Em documento publicado neste ano sobre desafios estratégicos para o país, a Abin apontou que as grandes empresas de tecnologia deixaram de funcionar apenas como prestadoras de serviços privados. Tornaram-se atores transnacionais capazes de influenciar fluxos de informação, infraestrutura digital e ambientes políticos.
O texto chama atenção para uma vulnerabilidade estrutural: empresas que controlam espaços centrais do debate público brasileiro possuem sedes, estruturas corporativas e obrigações jurídicas em outros países.
Isso não significa que atuem automaticamente a serviço desses governos. Mas significa que interesses empresariais, pressões regulatórias, decisões políticas e disputas geopolíticas podem se cruzar.
A questão tornou-se particularmente sensível na relação com os Estados Unidos porque Washington vem reagindo às tentativas de ampliar a regulamentação das plataformas em diferentes países.
No caso brasileiro, disputas sobre responsabilidade das redes, moderação de conteúdo e decisões judiciais envolvendo empresas norte-americanas passaram a integrar a agenda bilateral.
Durante o governo Trump, essas divergências ganharam dimensão econômica e diplomática.
Para setores do governo brasileiro, é justamente aí que o problema eleitoral se conecta a uma disputa maior sobre soberania digital.
O país pode organizar suas urnas, fiscalizar campanhas e estabelecer normas eleitorais, mas boa parte da circulação das informações políticas continua ocorrendo dentro de sistemas controlados por empresas estrangeiras.
Trump muda o tom, mas desconfiança permanece
A postura mais moderada adotada por Trump depois do primeiro turno não apaga o histórico recente da relação.
Durante o processo eleitoral, o governo norte-americano adotou medidas que provocaram reação das autoridades brasileiras e de integrantes do próprio Congresso dos Estados Unidos. Parlamentares democratas chegaram a questionar formalmente a administração sobre possíveis pressões políticas relacionadas ao Brasil.
A Polícia Federal, entretanto, arquivou uma apuração solicitada pela Advocacia-Geral da União sobre uma possível interferência estrangeira por considerar que não havia indícios mínimos suficientes para a abertura de inquérito naquele caso específico.
Esse dado também estabelece um limite importante para a discussão.
Há tensões diplomáticas documentadas, manifestações políticas estrangeiras e preocupações sobre a atuação das plataformas. Isso não equivale a dizer que esteja comprovada uma operação norte-americana para manipular as eleições.
O segundo turno será acompanhado justamente sob essa tensão entre prevenção e prova.
As autoridades precisam observar comportamentos potencialmente irregulares sem transformar suspeitas políticas em fatos antes que existam evidências.
Uma eleição cada vez mais decidida pelas plataformas
A importância das big techs aumenta porque a campanha eleitoral mudou de natureza.
Televisão e rádio continuam relevantes, mas parte crescente da disputa diária acontece no Instagram, Facebook, TikTok, YouTube, X, Telegram e WhatsApp. São nesses ambientes que discursos são recortados, falas são transformadas em vídeos de poucos segundos e acontecimentos políticos podem alcançar milhões de pessoas antes mesmo de aparecerem no noticiário tradicional.
Campanhas sabem disso e direcionam equipes, dinheiro e produção de conteúdo para essas redes.
O problema é que a distribuição final não é controlada apenas pelos candidatos.
Uma campanha pode produzir centenas de vídeos, mas é o sistema de recomendação que ajuda a determinar quais chegarão a dezenas de milhares de pessoas e quais alcançarão milhões.
Esse poder pertence às plataformas.
A questão colocada para o segundo turno, portanto, não é apenas se haverá fake news. Desinformação existe desde muito antes das redes digitais. O problema contemporâneo é a velocidade e a capacidade de amplificação automática dessas mensagens.
Uma informação falsa pode ser produzida por poucas pessoas e atingir um público gigantesco antes que jornalistas, tribunais ou plataformas consigam reagir.
É essa corrida contra o tempo que preocupa autoridades.
O eleitor chega sozinho à cabine e registra seu voto numa urna que permanece isolada da internet. Mas a decisão que leva consigo até aquele momento foi formada durante semanas de exposição a informações selecionadas por sistemas digitais que quase ninguém fora das empresas conhece integralmente.
A segurança do processo eleitoral, portanto, passou a envolver duas dimensões diferentes.
Uma é proteger a urna e a totalização dos votos, área na qual o TSE afirma não ter identificado interferência estrangeira no primeiro turno.
A outra é proteger a liberdade de formação da vontade do eleitor num ambiente informacional controlado em grande parte por plataformas privadas globais.
É nessa segunda frente que o Planalto mantém o alerta ligado.
Com Lula e Flávio separados por uma disputa apertada e pouco mais de duas semanas restantes até a votação, pequenas alterações de alcance podem representar milhões de visualizações.
Trump, pelo menos até agora, adotou um tom mais contido do que o esperado.
Para o governo brasileiro, porém, a questão decisiva do segundo turno talvez não esteja no que o presidente dos Estados Unidos disser publicamente.
Pode estar naquilo que os algoritmos decidirão mostrar silenciosamente a cada eleitor brasileiro nas próximas duas semanas.