
Glenn Greenwald saiu em defesa da Veja neste sábado (10), depois que a revista publicou uma informação falsa sobre um suposto depoimento de Daniel Vorcaro envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O jornalista estadunidense classificou como “simplesmente risível” a descrição da publicação como “fanaticamente antilulista e pró-Bolsonaro”. Para defender a revista, recorreu à parceria com o Intercept na Vaza Jato.
A PF negou o depoimento atribuído a Vorcaro e afirmou que não recebeu anexos, documentos ou informações com o conteúdo descrito pela Veja. A revista havia associado um suposto repasse de R$ 30 milhões para um documentário sobre Lula a negócios envolvendo fundos de pensão. Os produtores e diretores do filme também negaram qualquer recebimento de dinheiro de Vorcaro, do Banco Master ou de empresas e fundos ligados ao grupo. A PF informou ter recebido uma notícia-crime sobre a publicação.
Há ainda a denúncia revelada pelo DCM de que Flávio Bolsonaro prometeu um canal de TV aberta à Veja em troca da reportagem contra Lula, publicada na sexta-feira (9). Uma fonte ouvida pela reportagem afirma ter recebido a informação diretamente de um diretor da revista. Segundo esse relato, a publicação das acusações estaria vinculada à promessa de uma concessão semelhante à da Jovem Pan, e a decisão de levar o material ao público teria partido do comando da Editora Abril. Fábio Carvalho, dono da editora, também foi citado por João Moreira Salles entre os participantes de jantares com Flávio Bolsonaro.
O arquivo da Veja tampouco combina com a memória seletiva de Glenn. Às vésperas do segundo turno de 2014, a revista estampou Lula e Dilma Rousseff na capa com a manchete “Eles sabiam de tudo”, atribuindo a Alberto Youssef uma declaração sobre o conhecimento dos dois acerca dos desvios na Petrobras. Em 25 de outubro, o ministro Admar Gonzaga, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), concedeu liminar garantindo direito de resposta à coligação de Dilma e ao PT no site da publicação.
Em 2015, Lula apareceu na capa vestido como presidiário, com os nomes de investigados pela Lava Jato formando as listras da roupa, sob a chamada “Os chaves de cadeia de Lula”. Em março de 2016, veio “O desespero da jararaca”, com sua cabeça cercada de serpentes. Em 2018, a revista perguntou “O que falta para Lula ser preso”. A prisão do petista já era explorada como imagem e chamada antes de acontecer.

A PF já havia desmentido outra reportagem de capa sobre Lula na prisão, em maio de 2018. A Veja descreveu sua rotina no cárcere e afirmou que ele recebia doses de insulina. A corporação declarou que essa informação era falsa e que grande parte do texto continha informações equivocadas e imprecisas. As imagens de segurança também mostraram que o repórter não entrou na área restrita onde Lula estava custodiado.
A parceria na Vaza Jato existiu, e Glenn ressalvou que não estava avaliando a consistência das novas reportagens. Em 2019, a Veja publicou revelações sobre Sergio Moro a partir das mensagens compartilhadas pelo Intercept. Mas, em 30 de outubro daquele mesmo ano, a coluna Radar recuperou a montagem de Lula como presidiário sob o título “Capa de VEJA faz quatro anos com Lula tentando ficar na cadeia”. O texto apresentava a capa de 2015 como uma análise acertada. A colaboração invocada por Glenn sequer encerrou os ataques da revista ao petista.
O ex-ministro da Justiça e ex-vice-procurador-geral eleitoral Eugênio Aragão classificou o episódio atual como “terrorismo de campanha” e acusou a revista de cometer crime eleitoral. Ao chamar as críticas de “completa piada”, Greenwald mostra que desconhece ou finge desconhecer do histórico da Veja de ataques ao presidente Lula e ao PT. Desde a primeira rodada do Mensalão, até a última fagulha da Lava-Jato, a Veja fez o papel de divulgar toda e qualquer informação, mentirosa ou não, contra o Partido dos Trabalhadores e Lula.